Da porcelana de Ílhavo ao arquivo têxtil de Londres, a Vista Alegre e a Liberty apresentam Lotus: uma coleção de mesa que transforma dois patrimónios excecionais num único gesto visual.
Arthur Lasenby Liberty abriu a sua loja em Londres em 1875 com a intenção de trazer para a capital britânica os tecidos, as sedas e os objetos do Extremo Oriente que as rotas comerciais do século XIX tinham tornado familiares, mas inalcançáveis para a maioria. O que não imaginou é que o arquivo nascido dessa obsessão pelo Japão iria pousar, 150 anos depois, sob a forma de flores de lótus, nas peças de porcelana prpoduzidas na fábrica mais antiga de Portugal.
A Vista Alegre e a Liberty acabam de apresentar a coleção Lotus, uma linha completa de peças de mesa desenvolvida a partir de fragmentos têxteis do início do século XX que dormiam no arquivo da casa londrina. Flores em movimento, folhas e cápsulas de sementes entrelaçadas numa composição que os dois estúdios de design descrevem como uma estética de “Japonaiserie onírica”: uma linguagem que nunca foi puramente japonesa nem puramente ocidental, mas sempre uma conversa entre os dois universos. É algo que a Liberty soube fazer melhor do que quase ninguém ao longo de século e meio de história.
De East India House ao forno de Ílhavo
A Liberty começou, de facto, antes de 1875. Arthur Liberty trabalhava com têxteis orientais desde meados dos anos 1860, na loja Farmer & Rogers, onde geria o departamento de artigos do Extremo Oriente. Quando abriu a sua própria casa, inicialmente chamada East India House, o foco eram as sedas importadas, os artigos domésticos asiáticos, uma ideia de beleza exótica que a burguesia vitoriana desejava com crescente urgência.
O movimento Arts & Crafts, a Aesthetic Movement e a vaga do Japonisme criaram o contexto perfeito para o que Liberty queria construir: levar o bom design a toda a gente, sem ceder em qualidade nem em originalidade. O impacto foi tão profundo que, ainda hoje, o estilo italiano do Art Nouveau é conhecido como Style Liberty.
O arquivo que foi construindo ao longo das décadas tornou-se numa das coleções de têxteis mais importantes do mundo. Guarda hoje mais de 60.000 livros de padrões, pinturas e desenhos reunidos desde a década de 1880, custodiados num edifício Tudor em Great Marlborough Street, perto de Carnaby Street, que é em si mesmo um monumento à excentricidade britânica: construído parcialmente com madeira de dois navios ingleses desmantelados. Este arquivo não funciona como museu; funciona como laboratório. O estúdio de design interno da Liberty mergulha regularmente nesse espólio para reinterpretar, adaptar e imaginar coleções que projetam o passado para o presente com toda a exigência do contemporâneo.
Foi precisamente a partir desse mergulho que nasceu Lotus. A equipa interna identificou fragmentos têxteis do início do século XX com motivos de Japonaiserie e trouxe-os para uma conversa com a equipa criativa da Vista Alegre. O resultado foi um processo conjunto de investigação, design e experimentação que transformou têxtil em porcelana, tecido em loiça, fragmento de arquivo em mesa posta.
A fábrica portuguesa, fundada em 1824 em Ílhavo, no distrito de Aveiro, tem o seu próprio arquivo e a sua própria tradição de absorver influências externas sem perder a identidade. Ao longo de dois séculos, passou pelas mãos de criadores como Siza Vieira, Joana Vasconcelos, Cláudia Schiffer, Ross Lovegrove, Marcel Wanders e Jaime Hayon, numa lista que mistura arquitetura, escultura, design industrial e moda com uma desenvoltura que poucas marcas portuguesas conseguiram replicar.
As suas peças estão nas mesas da Presidência da República, da Casa Branca e de várias Casas Reais. As suas colaborações mais recentes estendem-se da Giobagnara à Christian Lacroix Maison, passando pela Netflix e pela série “Bridgerton”. Em novembro de 2024, o Presidente da República condecorou a marca com o título de membro-honorário da Ordem do Infante D. Henrique. Ílhavo faz parte da conversa cultural europeia de luxo há duzentos anos.
O padrão que atravessou o Canal da Mancha
Transportar um padrão têxtil para porcelana não é um exercício de estampagem mecânica. As cozeduras a alta temperatura alteram pigmentos e proporções; o que funciona num fundo de algodão não funciona automaticamente numa superfície vidrada. O processo colaborativo entre os dois estúdios existiu precisamente para garantir que a linguagem da Liberty chegasse à mesa sem ser domesticada nem desfigurada.
A estampa Lotus foi desenvolvida a partir desses fragmentos originais, mas não é uma cópia. O trabalho conjunto deu origem a uma interpretação contemporânea sem ser anódina, ornamentada sem ser excessiva. A variação cromática subtil e o detalhe intrincado funcionam de forma diferente numa chávena, num prato de apresentação ou numa travessa de servir. Esta consideração esteve presente desde o início, numa abordagem ao design de produto que vai bem além da simples transferência de um motivo para um novo suporte.
“O nosso arquivo é um recurso em constante evolução que nos permite concretizar o potencial contemporâneo de fragmentos e desenhos têxteis”, explicou Pere Bruach, Design Manager da Liberty Fabrics, no lançamento da coleção. A Liberty trata o seu arquivo como matéria-prima. E a escolha da Vista Alegre como parceiro diz algo sobre a ambição que a casa londrina quis imprimir a este projeto.
A casa que colaborou com a Adidas e com a Kartell, com a Nike e com a Mandarin Oriental, atravessa categorias de produto com uma consistência que torna as parcerias credíveis, nunca oportunistas. A porcelana de Ílhavo tem, do outro lado, um historial igualmente exigente.
Quando Nuno Barra, administrador da Vista Alegre, descreve a coleção como o reflexo de “um excelente entendimento criativo entre duas equipas que partilham valores muito semelhantes”, não está a usar retórica de comunicado. “A busca incessante pela qualidade, a criatividade aliada ao rigor, o equilíbrio entre tradição e modernidade e uma profunda ligação à arte e à cultura fazem parte do ADN de ambas as marcas”, acrescentou.
É uma estrutura de identidade que as duas marcas partilham de facto: ambas nasceram no século XIX, ambas atravessaram o século XX reinventando-se sem trair a origem, ambas chegaram ao século XXI com arquivos que são simultaneamente carga e combustível.
Uma mesa, dois séculos
Lotus é uma linha completa: pratos de apresentação, pratos rasos, pratos de sopa, pratos de sobremesa, pratos de pão, tigelas e travessas de servir, serviços de chá e de café. A amplitude é intencional. Uma colaboração desta natureza não faz sentido como objeto único de nicho; faz sentido como universo de mesa, com combinações que cada utilizador pode compor ao seu gosto, em camadas de cor e padrão que o padrão permite sem esforço.
A estampa Liberty é um sistema de design com regras próprias sobre como os motivos naturais se relacionam entre si, como as cores se equilibram, como o padrão respira dentro de um campo. Levar isso para a porcelana, num ano em que a Liberty assinala os 150 anos com uma exposição que passou pela sua loja de Carnaby Street e seguiu depois para a Expo Mundial de Osaka, é uma afirmação de continuidade com peso real.
A Lotus propõe uma conversa entre dois tipos de saber-fazer que cresceram em paralelo, em países e contextos diferentes, mas com a mesma convicção de base: a de que os objetos de uso quotidiano merecem o mesmo cuidado, a mesma ambição e a mesma inteligência que qualquer outra forma de arte. Uma mesa posta com Lotus é, nesse sentido, mais do que estética. É uma tomada de posição.
Disponível nas lojas Vista Alegre em Portugal e em vistaalegre.com


















