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Início»Prazeres»Das pedras fizeram vinho – e não podia ter resultado melhor
Prazeres

Das pedras fizeram vinho – e não podia ter resultado melhor

Rita Iberico NogueiraDe Rita Iberico NogueiraJulho 9, 2026
Vinho Pico
Bernardo Cabral nos currais de pedra basáltica da ilha do Pico, onde as vinhas crescem protegidas por muros erguidos há mais de cinco séculos. Ao fundo, o Atlântico e a ilha do Faial.
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A Ilha do Pico tem um vulcão, um Atlântico sem piedade e viticultores que tratam as vinhas como filhos. Desse confronto nasce um vinho que não existe em mais nenhum lugar do mundo. Bernardo Cabral chegou como consultor e ficou como picaroto. Pelo meio, abriu um casco de 1998 e ficou arrepiado.

Bernardo Cabral não chegou ao vinho por acidente – chegou por fascínio. Tinha doze anos quando ouviu dois familiares falar da coisa com uma paixão que não esperava, e aquilo ficou. Não contou a ninguém, não fez nada com isso durante anos. Guardou numa “caixinha”, como diz, e foi viver a vida: o remo de alta competição, os treinos, a disciplina de quem está habituado a contar o esforço em metros e em água fria. Quando chegou a hora de escolher uma faculdade, a caixinha abriu.

Hoje percorre regiões como quem lê capítulos de um livro que nunca acaba. O Alentejo, a Costa Vicentina, os Açores. Trabalha assim por convicção – “é a diferença entre ir à procura de um tema ou ter uma enciclopédia” – e escolhe os projetos pelo caráter humano tanto quanto pelo terroir. Sem sintonia com quem produz, diz, não acontece nada de extraordinário.

O Pico chegou-lhe como um desafio: a Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico – Picowines – precisava de reorganizar o portefólio. O que encontrou foi uma cooperativa com 75 anos de história, vinhas em currais de pedra erguidos há mais de cinco séculos, e um espólio de licorosos que ele achou “mal vestido” – não porque o conteúdo falhasse, mas porque a imagem ficava muito aquém do que estava dentro das garrafas.

Começou a trabalhar. E foi nesse processo que chegou ao casco de 1998.
Em fevereiro de 2026, a Picowines lançou o Licoroso 1998 em edição limitada de 470 garrafas a 750 euros e o Arcos Vulcânicos 2021, um Verdelho fermentado em barricas e aguardado durante quase cinco anos antes de chegar ao mercado. Dois vinhos, dois tempos, a mesma ilha. Falámos com Bernardo Cabral numa tarde em que ele próprio admitiu ter “tempo livre” – raridade, nas suas palavras.

A VIOLÊNCIA DA NATUREZA E A RESILIÊNCIA DOS HOMENS

O Pico é um dos terroirs mais extremos da Europa. Quando chegou aqui pela primeira vez como consultor, o que é que o surpreendeu – e o que é que o assustou?

A primeira coisa foi a força da natureza – a capacidade de passar de um extremo ao outro com uma rapidez para a qual nenhum de nós está preparado se não tiver vivido ali. Não demorei muito a ficar impressionado. Mas o segundo impacto foi igualmente forte: perceber a capacidade humana de responder a essas condições. Os sócios da cooperativa são viticultores que tratam as vinhas como filhos. Literalmente. Tenho um sócio que me diz “a vinha é o meu fisioterapeuta, o meu psicólogo”– vai lá todos os dias, conversa com ela, dá e recebe. E quando ele adoece, a vinha adoece. Quando ele melhora, ela melhora. Isto só vi no Pico com esta expressividade toda.

Trabalhar numa ilha é trabalhar em isolamento. Como é que isso muda o processo criativo, a relação com os viticultores, a própria forma de pensar o vinho?

Muda sobretudo a logística – o processo criativo tem mais a ver com as pessoas e com o território. Mas a logística no Pico é outro mundo. Se precisar de garrafas de um dia para o outro, na maioria dos sítios onde trabalho isso não é problema. No Pico, há que planear com dois meses de antecedência. E quando no inverno os barcos têm dificuldade a chegar, as garrafas são a última das prioridades. Isso obriga a uma disciplina mental muito particular.

O que aconteceu à relação dos picarotos com a viticultura ao longo dos séculos?

Durante séculos os picarotos viveram para a vinha. Depois apareceu a caça à baleia e lá iam a correr ver se havia lugar num barco – era o que tinham para fazer com tantos invernos rigorosos. Mas o que ficou no ADN desta gente foi a relação com a terra: os avós faziam, os pais faziam, passa de geração em geração. O que me preocupa agora é fazer com que passe também para a próxima. Estamos a entrar numa era em que as novas gerações não ligam ao vinho da mesma forma, há uma globalização triste no modo de estar. É preciso tornar isto um bom negócio – mas não só pelo dinheiro. Tem de valer a pena de outras formas.

Vinho Pico
Vinho Pico
Vinho Pico
Vinho Pico
Vinho Pico

O MILAGRE DE 1998

Em 1998 alguém decidiu pôr este vinho em casco e não o tocar durante 27 anos. Essa decisão foi tomada com convicção ou com dúvida? Quem decidiu esperar – e porquê?

Foi ficando. No mundo dos licorosos é normal que certas coisas fiquem para trás – como acontece no Porto e na Madeira, onde há vinhos com mais de cem anos em casco. O que acontece é que quando as vendas não estão tão boas, os estoques aumentam. E 1998 foi quase um ano de desistência: uma série de anos difíceis tinham desmotivado as pessoas, e uma doença destruiu grande parte da produção nesse ano. O pouco que ficou era muito concentrado, de qualidade intrínseca extraordinária – pouco mas muito bom. Esse vinho entrou em casco e foi ficando.

Acompanhou este vinho durante esse período ou chegou a ele já com história feita? O que é que encontrou quando abriu o casco?

Cheguei a ele já com história feita – e com muita história. Quando me instalei na cooperativa, deixei passar bastante tempo antes de avaliar o espólio a fundo. Queria perceber bem o que existia. E quando atingi este vinho, quando ele me chegou à frente, foi outra coisa completamente diferente do que esperava. Tenho dificuldade em descrever porque é uma explosão de sensações. Lembro-me de um crítico que veio cá há umas semanas, provou o vinho meio distraído, e a forma como ele reagiu de repente… Lembrei-me do filme de animação Ratatouille, quando o crítico gastronómico prova aquele prato e voltam as memórias todas. É um bocadinho isso. Basta um bocadinho. E tem tudo.

Descreve-o como "um hino à história dos Açores". Essa é uma definição muito carregada. O que é que quer dizer exatamente – o que é que este vinho tem que os outros não têm?

Tem esta história. O milagre de 1998. Um ano de quase-desistência, vinhas dizimadas, e o pouco que ficou era de uma qualidade intrínseca extraordinária – pouco mas muito bom. Esse vinho entrou em casco e sobreviveu a tudo. E repare: se a cooperativa tivesse fechado portas nessa altura, a viticultura do Pico não seria o que é hoje. O papel que esta cooperativa teve e tem é absolutamente determinante. Este vinho carrega isso – a resiliência de seis séculos, as gentes que olharam para aquelas pedras e das pedras fizeram vinho. Por isso o homenageámos na embalagem. Era o mínimo que se podia fazer.

470 garrafas é uma tiragem mínima para um vinho de 27 anos. Como é que se decide o preço de algo assim? Qual é o critério – o mercado, a raridade, a consciência do que custou?

O princípio é simples: colocar na prateleira certa aquilo que merece estar nessa prateleira. Se há um vinho que justifica este posicionamento, é este. Sem dúvida.

DOIS TEMPOS, UM TERRITÓRIO

O Arcos Vulcânicos e o Licoroso 1998 são apresentados como dois lados da mesma moeda. Mas são vinhos completamente diferentes em tempo, forma e intenção. Como é que os consegue ver como um par?

São os dois Verdelho. Nasceram os dois em lajidos, só que em lajidos de idades muito diferentes. O da Criação Velha, de onde vem o Licoroso, é dos mais antigos que temos – pedra que há muito tempo solidificou, já tem aquela cor mais cinzenta, o desgaste dos séculos. O lajido dos Arcos, em Santa Luzia, tem cerca de 300 anos, nasceu de três erupções, e é completamente preto – parece que foi feito ontem. Esse contraste vê-se no copo. E depois a paciência: não é normal lançar um branco de 2021 em 2026. Guardámos também este até estar pronto.

Se tivesse de explicar a alguém que nunca provou um vinho da ilha do Pico o que é que o distingue de qualquer outro branco português – o que é que dizia?

São três fatores que não existem juntos em mais nenhum lugar do mundo. Primeiro, o impacto vulcânico: as raízes alimentam-se de pedras e minerais libertados por aqueles lajidos desde que saíram da terra – e nem o pior enólogo do mundo conseguiria mascarar esse caráter. Segundo, a proximidade do mar. Entre 50 e 300 metros do oceano, o sal está em todo o lado. Você põe o vinho na boca e é o mar. É o mar ali gritado. Terceiro, a frescura atlântica – o Pico mantém as quatro estações ao contrário da Madeira, que já é subtropical, ou das Canárias, que é verão o ano todo. Esta combinação de vulcão, sal e frescura não existe em mais nenhum lado.

Fermentação em cacho inteiro, mosto das pressões mais suaves, estágio sobre borras finas – estas são escolhas muito específicas. Qual foi o momento em que percebeu que era isto que queria fazer com o Verdelho de Santa Luzia?

Foi em 2021. Um ano de produção muito baixa, mas em que o Verdelho se destacou de forma clara acima das outras castas. Pegámos numa parte das uvas da zona dos Arcos – chamam-se Arcos porque há lá uma série de formações geológicas criadas pelas erupções – e fermentámos em duas barricas de 500 litros. Mil litros no total, cerca de 1200 garrafas. E depois esperámos. Lançar um branco de 2021 em 2026 não é normal – há sempre pressão para colocar o vinho no mercado mais cedo. Mas não estava pronto para ir a exame.

O Verdelho é a casta histórica do Pico, quase esquecida durante décadas. Qual é a responsabilidade de trabalhar com uma casta que carrega essa memória toda?

É uma casta que acreditamos ser a primeira a aparecer na ilha. Seis séculos. Foi gerando variantes, criando divergências, dando origem a outras castas. O Verdelho do Pico não tem muito a ver com os Verdelhos que encontra por aí com o mesmo nome, e é preciso contar essa história, educar para essa diferença. Demorou muito tempo a descolar no mercado – foi sempre o vinho que ficava para trás no portefólio. Mas agora está a vender tanto como os outros. Foram anos de trabalho para mostrar o que é.

Quando é que sabe que um vinho está pronto – não tecnicamente, mas mesmo pronto? Qual é o sinal?

Vamos provando, acompanhamos os vinhos ao longo do tempo. E o que vai acontecendo é que começamos a dominar a evolução – a perceber como determinado estilo se comporta dentro da garrafa, o que aguenta, o que pede mais tempo. Com a experiência acumulada aqui, e com a confiança que fomos construindo em equipa, já conseguimos apostar com mais segurança: “este é para guardar”, “este está pronto para ir a exame”. É um trabalho coletivo. Eu sou o porta-voz, mas há muita gente ali envolvida.

Vinho Pico
Vinho Pico
Vinho Pico

O ENÓLOGO

Como é que chegou à enologia? Foi uma escolha deliberada ou foi acontecendo?

Comecei muito cedo – tinha doze anos. Fui muito influenciado por dois tios sem que eles soubessem. Ouvi-os falar de vinho com uma paixão que me fascinou imediatamente, e guardei aquilo numa caixinha que ficou fechada. Depois fui remador de alta competição dos treze anos até à faculdade – se algum treinador meu soubesse do vinho, ficava alarmado. Mas quando chegou o momento de decidir, aquela caixinha abriu. Fui para o Instituto Superior de Agronomia, construí o curso à medida com módulos de enologia, fiz uma pós-graduação em biotecnologia do vinho na Católica. Daí em diante foi imparável.

Tem projetos em regiões muito diferentes. O que é que isso lhe dá que trabalhar numa só região não daria?

Dá uma enciclopédia. É a diferença entre ir à procura de um único tema num livro ou ter todas as entradas disponíveis. Cada região ensina algo que se usa noutras – de forma positiva ou defensiva. E cada projeto tem um caráter humano muito forte, que é o que eu procuro. Sem essa sintonia com quem produz, não acontece nada de extraordinário. Gosto de me envolver em tudo: a imagem, o portefólio, a parte comercial. Não há nada pior do que fazer vinhos às cegas para um mercado que não se conhece.

Qual foi o vinho – seu ou de outro autor – que mais o marcou? Não o melhor que provou, mas aquele que mudou alguma coisa na forma como pensa.

Este 98 baralhou-me bastante. Há um antes e um depois. Quando cheguei à cooperativa e avaliei o espólio, foi um momento forte – perceber o que tinha ali. Mas quando atingi este vinho especificamente, foi outra dimensão. Dito isto, ao longo da vida houve vários vinhos que foram marcando fases diferentes. Faço muitas viagens – Nova Zelândia, África do Sul, Argentina, Chile – e é nesses sítios que se conhecem pessoas e se provam vinhos que abrem horizontes. Nós estamos sempre em crescimento pessoal, e esse crescimento é feito de vinhos e de pessoas que nos vão moldando a forma de ser e de estar.

Olhando para o seu percurso, qual é o projeto de que tem mais orgulho – e não tem de ser o mais reconhecido?

É como escolher um filho favorito – não é fácil. Mas posso dizer que no Pico é onde encontro maior diferenciação. E o facto de ser recebido como um picaroto, de ter uma vinha minha lá, de ser visto como alguém da ilha – isso é extraordinário. Nas ilhas há muito esta divisão entre os nossos e os outros. Sentir que já faz parte dos nossos é uma das coisas mais valiosas que este trabalho me deu.

Se pudesse fazer um vinho sem nenhuma condicionante – território, casta, mercado, preço – o que é que fazia?

Para ser completamente diferente de tudo o que falámos até agora: um espumante. Adoro espumantes. Para festejar a vida.

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