A Ilha do Pico tem um vulcão, um Atlântico sem piedade e viticultores que tratam as vinhas como filhos. Desse confronto nasce um vinho que não existe em mais nenhum lugar do mundo. Bernardo Cabral chegou como consultor e ficou como picaroto. Pelo meio, abriu um casco de 1998 e ficou arrepiado.
Bernardo Cabral não chegou ao vinho por acidente – chegou por fascínio. Tinha doze anos quando ouviu dois familiares falar da coisa com uma paixão que não esperava, e aquilo ficou. Não contou a ninguém, não fez nada com isso durante anos. Guardou numa “caixinha”, como diz, e foi viver a vida: o remo de alta competição, os treinos, a disciplina de quem está habituado a contar o esforço em metros e em água fria. Quando chegou a hora de escolher uma faculdade, a caixinha abriu.
Hoje percorre regiões como quem lê capítulos de um livro que nunca acaba. O Alentejo, a Costa Vicentina, os Açores. Trabalha assim por convicção – “é a diferença entre ir à procura de um tema ou ter uma enciclopédia” – e escolhe os projetos pelo caráter humano tanto quanto pelo terroir. Sem sintonia com quem produz, diz, não acontece nada de extraordinário.
O Pico chegou-lhe como um desafio: a Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico – Picowines – precisava de reorganizar o portefólio. O que encontrou foi uma cooperativa com 75 anos de história, vinhas em currais de pedra erguidos há mais de cinco séculos, e um espólio de licorosos que ele achou “mal vestido” – não porque o conteúdo falhasse, mas porque a imagem ficava muito aquém do que estava dentro das garrafas.
Começou a trabalhar. E foi nesse processo que chegou ao casco de 1998.
Em fevereiro de 2026, a Picowines lançou o Licoroso 1998 em edição limitada de 470 garrafas a 750 euros e o Arcos Vulcânicos 2021, um Verdelho fermentado em barricas e aguardado durante quase cinco anos antes de chegar ao mercado. Dois vinhos, dois tempos, a mesma ilha. Falámos com Bernardo Cabral numa tarde em que ele próprio admitiu ter “tempo livre” – raridade, nas suas palavras.
A VIOLÊNCIA DA NATUREZA E A RESILIÊNCIA DOS HOMENS
O Pico é um dos terroirs mais extremos da Europa. Quando chegou aqui pela primeira vez como consultor, o que é que o surpreendeu – e o que é que o assustou?
A primeira coisa foi a força da natureza – a capacidade de passar de um extremo ao outro com uma rapidez para a qual nenhum de nós está preparado se não tiver vivido ali. Não demorei muito a ficar impressionado. Mas o segundo impacto foi igualmente forte: perceber a capacidade humana de responder a essas condições. Os sócios da cooperativa são viticultores que tratam as vinhas como filhos. Literalmente. Tenho um sócio que me diz “a vinha é o meu fisioterapeuta, o meu psicólogo”– vai lá todos os dias, conversa com ela, dá e recebe. E quando ele adoece, a vinha adoece. Quando ele melhora, ela melhora. Isto só vi no Pico com esta expressividade toda.
Trabalhar numa ilha é trabalhar em isolamento. Como é que isso muda o processo criativo, a relação com os viticultores, a própria forma de pensar o vinho?
Muda sobretudo a logística – o processo criativo tem mais a ver com as pessoas e com o território. Mas a logística no Pico é outro mundo. Se precisar de garrafas de um dia para o outro, na maioria dos sítios onde trabalho isso não é problema. No Pico, há que planear com dois meses de antecedência. E quando no inverno os barcos têm dificuldade a chegar, as garrafas são a última das prioridades. Isso obriga a uma disciplina mental muito particular.
O que aconteceu à relação dos picarotos com a viticultura ao longo dos séculos?
Durante séculos os picarotos viveram para a vinha. Depois apareceu a caça à baleia e lá iam a correr ver se havia lugar num barco – era o que tinham para fazer com tantos invernos rigorosos. Mas o que ficou no ADN desta gente foi a relação com a terra: os avós faziam, os pais faziam, passa de geração em geração. O que me preocupa agora é fazer com que passe também para a próxima. Estamos a entrar numa era em que as novas gerações não ligam ao vinho da mesma forma, há uma globalização triste no modo de estar. É preciso tornar isto um bom negócio – mas não só pelo dinheiro. Tem de valer a pena de outras formas.
O MILAGRE DE 1998
Em 1998 alguém decidiu pôr este vinho em casco e não o tocar durante 27 anos. Essa decisão foi tomada com convicção ou com dúvida? Quem decidiu esperar – e porquê?
Foi ficando. No mundo dos licorosos é normal que certas coisas fiquem para trás – como acontece no Porto e na Madeira, onde há vinhos com mais de cem anos em casco. O que acontece é que quando as vendas não estão tão boas, os estoques aumentam. E 1998 foi quase um ano de desistência: uma série de anos difíceis tinham desmotivado as pessoas, e uma doença destruiu grande parte da produção nesse ano. O pouco que ficou era muito concentrado, de qualidade intrínseca extraordinária – pouco mas muito bom. Esse vinho entrou em casco e foi ficando.
Acompanhou este vinho durante esse período ou chegou a ele já com história feita? O que é que encontrou quando abriu o casco?
Cheguei a ele já com história feita – e com muita história. Quando me instalei na cooperativa, deixei passar bastante tempo antes de avaliar o espólio a fundo. Queria perceber bem o que existia. E quando atingi este vinho, quando ele me chegou à frente, foi outra coisa completamente diferente do que esperava. Tenho dificuldade em descrever porque é uma explosão de sensações. Lembro-me de um crítico que veio cá há umas semanas, provou o vinho meio distraído, e a forma como ele reagiu de repente… Lembrei-me do filme de animação Ratatouille, quando o crítico gastronómico prova aquele prato e voltam as memórias todas. É um bocadinho isso. Basta um bocadinho. E tem tudo.
Descreve-o como "um hino à história dos Açores". Essa é uma definição muito carregada. O que é que quer dizer exatamente – o que é que este vinho tem que os outros não têm?
470 garrafas é uma tiragem mínima para um vinho de 27 anos. Como é que se decide o preço de algo assim? Qual é o critério – o mercado, a raridade, a consciência do que custou?
O princípio é simples: colocar na prateleira certa aquilo que merece estar nessa prateleira. Se há um vinho que justifica este posicionamento, é este. Sem dúvida.
DOIS TEMPOS, UM TERRITÓRIO
O Arcos Vulcânicos e o Licoroso 1998 são apresentados como dois lados da mesma moeda. Mas são vinhos completamente diferentes em tempo, forma e intenção. Como é que os consegue ver como um par?
Se tivesse de explicar a alguém que nunca provou um vinho da ilha do Pico o que é que o distingue de qualquer outro branco português – o que é que dizia?
Fermentação em cacho inteiro, mosto das pressões mais suaves, estágio sobre borras finas – estas são escolhas muito específicas. Qual foi o momento em que percebeu que era isto que queria fazer com o Verdelho de Santa Luzia?
Foi em 2021. Um ano de produção muito baixa, mas em que o Verdelho se destacou de forma clara acima das outras castas. Pegámos numa parte das uvas da zona dos Arcos – chamam-se Arcos porque há lá uma série de formações geológicas criadas pelas erupções – e fermentámos em duas barricas de 500 litros. Mil litros no total, cerca de 1200 garrafas. E depois esperámos. Lançar um branco de 2021 em 2026 não é normal – há sempre pressão para colocar o vinho no mercado mais cedo. Mas não estava pronto para ir a exame.
O Verdelho é a casta histórica do Pico, quase esquecida durante décadas. Qual é a responsabilidade de trabalhar com uma casta que carrega essa memória toda?
É uma casta que acreditamos ser a primeira a aparecer na ilha. Seis séculos. Foi gerando variantes, criando divergências, dando origem a outras castas. O Verdelho do Pico não tem muito a ver com os Verdelhos que encontra por aí com o mesmo nome, e é preciso contar essa história, educar para essa diferença. Demorou muito tempo a descolar no mercado – foi sempre o vinho que ficava para trás no portefólio. Mas agora está a vender tanto como os outros. Foram anos de trabalho para mostrar o que é.
Quando é que sabe que um vinho está pronto – não tecnicamente, mas mesmo pronto? Qual é o sinal?
Vamos provando, acompanhamos os vinhos ao longo do tempo. E o que vai acontecendo é que começamos a dominar a evolução – a perceber como determinado estilo se comporta dentro da garrafa, o que aguenta, o que pede mais tempo. Com a experiência acumulada aqui, e com a confiança que fomos construindo em equipa, já conseguimos apostar com mais segurança: “este é para guardar”, “este está pronto para ir a exame”. É um trabalho coletivo. Eu sou o porta-voz, mas há muita gente ali envolvida.
O ENÓLOGO
Como é que chegou à enologia? Foi uma escolha deliberada ou foi acontecendo?
Comecei muito cedo – tinha doze anos. Fui muito influenciado por dois tios sem que eles soubessem. Ouvi-os falar de vinho com uma paixão que me fascinou imediatamente, e guardei aquilo numa caixinha que ficou fechada. Depois fui remador de alta competição dos treze anos até à faculdade – se algum treinador meu soubesse do vinho, ficava alarmado. Mas quando chegou o momento de decidir, aquela caixinha abriu. Fui para o Instituto Superior de Agronomia, construí o curso à medida com módulos de enologia, fiz uma pós-graduação em biotecnologia do vinho na Católica. Daí em diante foi imparável.
Tem projetos em regiões muito diferentes. O que é que isso lhe dá que trabalhar numa só região não daria?
Dá uma enciclopédia. É a diferença entre ir à procura de um único tema num livro ou ter todas as entradas disponíveis. Cada região ensina algo que se usa noutras – de forma positiva ou defensiva. E cada projeto tem um caráter humano muito forte, que é o que eu procuro. Sem essa sintonia com quem produz, não acontece nada de extraordinário. Gosto de me envolver em tudo: a imagem, o portefólio, a parte comercial. Não há nada pior do que fazer vinhos às cegas para um mercado que não se conhece.
Qual foi o vinho – seu ou de outro autor – que mais o marcou? Não o melhor que provou, mas aquele que mudou alguma coisa na forma como pensa.
Este 98 baralhou-me bastante. Há um antes e um depois. Quando cheguei à cooperativa e avaliei o espólio, foi um momento forte – perceber o que tinha ali. Mas quando atingi este vinho especificamente, foi outra dimensão. Dito isto, ao longo da vida houve vários vinhos que foram marcando fases diferentes. Faço muitas viagens – Nova Zelândia, África do Sul, Argentina, Chile – e é nesses sítios que se conhecem pessoas e se provam vinhos que abrem horizontes. Nós estamos sempre em crescimento pessoal, e esse crescimento é feito de vinhos e de pessoas que nos vão moldando a forma de ser e de estar.
Olhando para o seu percurso, qual é o projeto de que tem mais orgulho – e não tem de ser o mais reconhecido?
É como escolher um filho favorito – não é fácil. Mas posso dizer que no Pico é onde encontro maior diferenciação. E o facto de ser recebido como um picaroto, de ter uma vinha minha lá, de ser visto como alguém da ilha – isso é extraordinário. Nas ilhas há muito esta divisão entre os nossos e os outros. Sentir que já faz parte dos nossos é uma das coisas mais valiosas que este trabalho me deu.
Se pudesse fazer um vinho sem nenhuma condicionante – território, casta, mercado, preço – o que é que fazia?
Para ser completamente diferente de tudo o que falámos até agora: um espumante. Adoro espumantes. Para festejar a vida.















