As viagens estão a mudar de forma silenciosa, mas estrutural. Um novo perfil de viajante emerge: mais seletivo, mais consciente e menos interessado em acumular destinos do que em justificar cada partida.
Durante décadas, viajar foi um exercício quase automático. Escolhia-se um destino, acumulavam-se pontos no mapa e regressava-se com a sensação de missão cumprida. Essa lógica não desapareceu por completo, mas começou a perder relevância à medida que o próprio viajante mudou. O que está em curso não é uma nova tendência isolada, mas uma transformação estrutural na forma como as pessoas pensam, planeiam e vivem uma viagem.
O relatório Travel Trends 2026 do Barceló Hotel Group, baseado num universo de mais de 9000 viajantes europeus, ajuda a sistematizar essa mudança e revela um padrão consistente: a passagem de um turismo orientado para a quantidade para um turismo orientado para o significado.
Essa mudança torna-se evidente logo na fase de inspiração, onde o digital continua a desempenhar um papel central, mas já não com a mesma lógica superficial que dominou a última década.
A inspiração continua digital, mas a decisão tornou-se mais exigente
O TikTok consolidou-se como uma ferramenta relevante na descoberta de destinos e experiências, funcionando como uma espécie de radar emocional que capta tendências, lugares e narrativas. No entanto, o tipo de conteúdo que gera impacto já não é o mesmo. Quase metade dos viajantes considera mais útil o conteúdo que apresenta experiências reais, recomendações práticas e relatos pessoais, o que demonstra uma preferência por formatos mais autênticos e menos encenados.
Este detalhe é menos inocente do que parece. O que está em causa não é apenas a estética do conteúdo, mas a relação de confiança entre quem vê e quem recomenda. O viajante tornou-se mais crítico, mais informado e, sobretudo, menos disponível para decisões baseadas em imagens perfeitas mas vazias de contexto.
Relatórios recentes da McKinsey e da Skift apontam para a mesma conclusão: a jornada de decisão fragmentou-se e tornou-se mais racional. O impulso inicial pode nascer numa rede social, mas dificilmente se transforma em reserva sem validação adicional. O processo passou a incluir comparação, leitura de reviews, cruzamento de fontes e uma avaliação mais cuidada do que se espera da experiência.
Para as marcas, isto significa que a inspiração deixou de ser suficiente. É necessário construir coerência ao longo de todo o percurso do cliente, desde o primeiro contacto até à experiência final no destino.
A experiência deixou de ser um complemento e passou a ser o ponto de partida
Uma das mudanças mais claras identificadas no relatório é a inversão da lógica tradicional de planeamento. Cerca de 40% dos viajantes afirma organizar a viagem a partir das experiências que quer viver, e não do destino em si.
Esta alteração, aparentemente simples, tem implicações profundas. O destino deixa de ser o centro da decisão e passa a ser uma consequência. O que orienta a escolha é a expectativa de vivência: aprender, descansar, explorar, provar, conhecer.
A Organização Mundial do Turismo tem vindo a sublinhar esta transição para um turismo mais orientado para o significado, onde o valor da viagem está menos associado ao número de locais visitados e mais à intensidade da experiência. A ideia de “ver tudo” dá lugar à vontade de “viver melhor”.
Neste contexto, o papel dos hotéis e operadores turísticos está a ser redefinido. Deixam de ser fornecedores de serviços para se posicionarem como mediadores do território. Plataformas como o Barceló Experiences refletem essa evolução, ao integrarem ofertas que ligam diretamente o viajante ao contexto local, à cultura e às pessoas do destino.
Esta mudança obriga o setor a repensar a sua proposta de valor. Já não basta oferecer conforto e localização. É necessário oferecer contexto e significado.
Whycation: quando a viagem se torna uma decisão pessoal
Entre as várias tendências identificadas, a whycation destaca-se por traduzir de forma clara a nova relação do viajante com o tempo. Viajar deixa de ser apenas uma pausa e passa a ser uma escolha consciente de reconexão.
Segundo o estudo, 43% dos inquiridos associa a viagem à necessidade de interromper a rotina e recentrar prioridades, o que revela uma mudança na forma como o tempo livre é encarado.
Este movimento está alinhado com uma tendência mais ampla observada em relatórios internacionais, nomeadamente da Accor e da Virtuoso, que apontam para a integração do bem-estar em todas as dimensões da experiência de viagem. O wellness deixa de ser um segmento específico para se tornar uma expectativa transversal, presente tanto em destinos de natureza como em contextos urbanos.
O luxo, neste cenário, redefine-se de forma subtil. Deixa de estar associado à abundância de opções e passa a relacionar-se com a capacidade de controlar o tempo, escolher o ritmo e criar espaço para a pausa. Não se trata de fazer mais, mas de fazer com intenção.
Um viajante mais complexo, entre a introspeção e a ligação
Outra leitura relevante do relatório é a coexistência de duas tendências que, à primeira vista, parecem contraditórias: o crescimento das viagens a solo e a valorização das viagens multigeracionais.
Por um lado, viajar sozinho ganha expressão como forma de autonomia e descoberta pessoal. Cerca de 40% dos viajantes destaca a conveniência, a flexibilidade e a possibilidade de personalização como fatores determinantes.
Por outro, as viagens em família assumem-se como um investimento emocional. A maioria dos inquiridos — 77% — refere a criação de memórias partilhadas como principal motivação.
Estas duas tendências não se anulam. Pelo contrário, coexistem e refletem um viajante mais complexo, que alterna entre momentos de introspeção e momentos de ligação. Esta dualidade obriga o setor a abandonar segmentações simplistas e a trabalhar com perfis mais dinâmicos e menos previsíveis.
Gastronomia: da criatividade à origem
A gastronomia mantém-se como um dos fatores decisivos na escolha de um destino, mas a forma como é valorizada mudou significativamente. Cerca de 40% dos viajantes considera-a relevante, não apenas pela qualidade dos pratos, mas pela sua capacidade de traduzir a identidade local.
Conceitos como heritage ingredients e quilómetro zero tornam-se centrais, refletindo uma procura por autenticidade, proximidade e sustentabilidade. O interesse desloca-se da criatividade isolada para a história que cada ingrediente carrega, para a ligação ao território e para a forma como a tradição é reinterpretada.
Esta evolução acompanha uma tendência global já identificada por entidades como a World Food Travel Association, que aponta para um aumento do interesse por experiências gastronómicas enraizadas na cultura local. Comer deixa de ser apenas um momento de prazer para se tornar uma forma de compreensão do destino.
Uma indústria obrigada a acompanhar
As conclusões do relatório não deixam grande margem para dúvidas. O viajante tornou-se mais seletivo, mais informado e menos disponível para experiências genéricas. A decisão de viajar continua a existir, mas passou a exigir coerência, autenticidade e, sobretudo, uma razão clara.
Para a indústria, isto representa um desafio significativo. Durante anos, o crescimento foi alimentado por volume, facilidade de acesso e expansão de oferta. Hoje, a diferenciação passa por algo mais difícil de construir: relevância.
O turismo continua a vender experiências, mas já não pode limitar-se a produzi-las. Precisa de as justificar. E isso implica uma mudança de postura, de discurso e de estratégia. O viajante deixou de perguntar “para onde vou?” e passou a perguntar “porquê ir?”. E é nessa pergunta que se joga o futuro do setor.












