Roma continua lá, como sempre. O que mudou foi o motivo para lá voltar: VENUS, de Joana Vasconcelos, no PM23. Uma exposição que cruza arquivo Valentino, cidade e uma Valquíria monumental.
Não se trata de um evento para “ver se der”. Trata-se de ir a Roma com um objetivo concreto. Uma exposição que organiza o fim-de-semana em torno de uma ideia. O PM23 é o espaço cultural criado pela Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti. Instalado num edifício histórico profundamente ligado à história da maison Valentino, o local assume-se como plataforma cultural e social, com uma programação que cruza património, criação contemporânea e responsabilidade coletiva. Este contexto importa. VENUS não acontece num cubo branco neutro, mas num lugar carregado de memória, mesmo no coração da cidade. E é para lá que queremos ir.
Uma exposição que não é sobre moda — mas também não foge dela
À primeira vista, o ponto de partida parece simples: Joana Vasconcelos entra no arquivo Valentino. O resultado é tudo menos óbvio. VENUS não é uma exposição de moda nem uma retrospetiva travestida de instalação. É um percurso fluido, não linear, onde obras emblemáticas da artista convivem com criações de alta-costura selecionadas do arquivo de Valentino Garavani.
Ao todo, a exposição reúne doze obras de Joana Vasconcelos e trinta e três criações de Valentino. O encontro não é ilustrativo nem reverencial. É uma conversa entre linguagens. Moda enquanto ideia. Técnica enquanto cultura. Cor, volume e bordado enquanto vocabulário comum.
O percurso estende-se para além das paredes do PM23. A cidade entra em jogo através de uma constelação de intervenções públicas que espalham a presença de Vasconcelos por Roma: uma peça na própria Piazza Mignanelli, outra na Terrazza del Pincio e uma terceira junto ao Ara Pacis. Roma deixa de ser cenário e passa a ser matéria ativa da exposição.
Valkyrie VENUS, a peça que sustenta tudo
No centro da exposição está Valkyrie VENUS. Uma instalação monumental, com cerca de treze metros, concebida especificamente para este espaço. A obra nasce na sala absidal do palazzo, como extensão simbólica de vestidos de alta-costura, e desdobra-se pelo espaço com braços, volumes e texturas.
Acima da escala, impressiona o processo. Valkyrie VENUS foi construída através de um projeto participativo de grande dimensão, envolvendo mais de duzentas pessoas em Roma e em Lisboa. Estudantes, artesãos, pacientes hospitalares, mulheres apoiadas por associações sociais, reclusas de um estabelecimento prisional feminino. Centenas de horas de trabalho manual, milhares de módulos de croché, uma obra feita de muitas mãos.
Este método faz parte do significado da peça. A Valquíria transforma o gesto artesanal num ato coletivo, quase político, sem nunca perder a força visual. A arte surge aqui como lugar de transmissão de saber, de cuidado partilhado, de resistência silenciosa.
Ao longo do percurso, outras obras de Vasconcelos reforçam esta lógica: Marilyn, os saltos altos feitos de panelas e tampas; Strangers in the Night, sobre arquétipos femininos; Full Steam Ahead, uma flor mecânica construída com ferros de engomar; Garden of Eden, um ambiente imersivo onde figuras míticas se cruzam. Em diálogo, os vestidos de Valentino surgem como contraponto disciplinado, rigoroso, obsessivo no detalhe.
Joana Vasconcelos, sem rótulos de exportação
Há muito que Joana Vasconcelos deixou de precisar da fórmula “artista portuguesa com carreira internacional”. O seu percurso fala por si. Museus, palácios, bienais, instituições de peso. Mas mais relevante do que a lista é a coerência.
A sua obra trabalha o artesanal como linguagem contemporânea. Assume o decorativo sem pedir desculpa. Usa o humor como ferramenta crítica. E recusa a ideia de que escala e pensamento são incompatíveis. VENUS encaixa naturalmente neste percurso. É uma continuação lógica, agora com um arquivo de alta-costura como território de investigação.
A relação com o universo da moda não é nova no seu trabalho. Já existia, por exemplo, na colaboração com a Dior, onde criou para um desfile uma valquíria monumental a partir de tecidos da maison. Na boutique Dior de Lisboa, na Avenida da Liberdade, uma valquíria atravessa a escadaria de alto a baixo. O que muda nesta exposição é a profundidade do diálogo. Não se trata de inspiração superficial, mas de uma imersão real num legado estético e técnico.
Valentino Garavani, o fim de um capítulo e a permanência de um código
VENUS ganhou uma dimensão adicional em janeiro de 2026, com a morte de Valentino Garavani, aos 93 anos. Um dos nomes maiores da alta-costura italiana, responsável por codificar uma ideia de elegância que atravessou décadas sem se diluir.
Valentino foi mestre da cor, do corte, do bordado. Criou uma linguagem reconhecível sem cair na caricatura. O célebre encarnado tornou-se assinatura, mas o seu verdadeiro legado está na disciplina do detalhe e na forma como elevou o trabalho artesanal a cultura duradoura.
Esta exposição não transforma Valentino numa figura de altar. Pelo contrário. Permite olhar para o seu arquivo como matéria viva, capaz de ser reinterpretada, questionada, deslocada. Joana Vasconcelos entra nesse universo sem submissão. E é precisamente isso que torna o encontro interessante.
Um fim-de-semana em Roma
A proposta é simples. Chegar a Roma e ir direto ao PM23. Passar tempo na exposição. Deixar que a escala da Valquíria e a proximidade dos vestidos façam o seu trabalho. Sair e perceber que a própria praça já faz parte da experiência.
No dia seguinte, subir ao Pincio, ver Roma de cima, encontrar outra peça da exposição. Descer até ao Ara Pacis e fechar o círculo. Sem correr. Sem checklist. Com a cidade a responder ao que se viu no dia anterior.
Roma continua a ser Roma. Mas, por agora, tem um motivo adicional para ir. E não é pequeno.
Morada: PM23 — Palazzo Mignanelli, Piazza Mignanelli nº23, Roma, Itália
Contacto: info@piazzamignanelli23.com
Datas e horários: Até 31 de maio de 2026 – Todos os dias, das 11h00 às 20h00 (última entrada às 19h30)
Bilhetes: 18 euros

























