Valentino morreu hoje, aos 93 anos, em Roma. Couturier absoluto, atravessou o século XX e entrou no XXI fiel a uma ideia intransigente de beleza — e a um vermelho que se tornou linguagem universal.
Valentino Garavani nunca acreditou que a moda fosse um comentário ligeiro sobre o presente. Para ele, criar significava inscrever algo no tempo — com método, exigência e uma relação quase moral com a beleza. Nascido em Voghera, no norte de Itália, em 1932, cresceu rodeado por um imaginário cinematográfico e operático que o marcou para sempre. Mais do que as histórias, interessava-lhe a encenação: o modo como um vestido podia alterar a postura de uma mulher, o modo como a luz tocava o tecido, o silêncio antes de uma entrada em cena.
Ainda jovem, percebeu que o seu destino não estava ali. Parte para Paris com uma ambição definida e uma sensibilidade rara. Forma-se na École des Beaux-Arts e na Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, onde aprende um ensinamento que nunca mais abandonaria: sem disciplina, o talento dissolve-se. Trabalha com Jean Dessès e Guy Laroche, absorvendo a ideia de alta-costura como arquitetura aplicada ao corpo. Muitos anos depois, já consagrado, diria numa entrevista: “A elegância não é espontânea. É construída.”
Paris ensinou o rigor, Roma deu-lhe o palco
No final dos anos 50, regressa a Itália e escolhe Roma por intuição. Roma oferecia história, teatralidade, contraste — tudo o que Valentino precisava para construir uma linguagem própria. Em 1960 abre o seu atelier na Via Condotti. Pouco depois conhece Giancarlo Giammetti. A relação, pessoal e profissional, torna-se fundacional. No documentário “The Last Emperor”, Giammetti resume essa simbiose com uma clareza desarmante: “Valentino vive para criar. Eu existo para que ele possa criar.”
A maison cresce de forma sólida, sustentada por uma clientela que procura permanência. Jacqueline Kennedy encomenda vestidos e confia-lhe momentos decisivos da sua vida pública, incluindo o casamento com Aristóteles Onassis. Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Sophia Loren tornam-se presenças constantes. Valentino compreende algo essencial: o vestido não deve impor-se. Deve acompanhar. “Um vestido nunca deve entrar numa sala antes da mulher”, repetia — frase que resume toda a sua ética criativa.
Ao longo dos anos 60, enquanto a moda começa a fragmentar-se em movimentos e manifestos, Valentino segue outro caminho. Em 1968, apresenta a White Collection: branco, marfim, bege, bordados precisos, o “V” integrado quase como um sinal secreto. Era uma afirmação silenciosa num mundo cada vez mais ruidoso. Num tempo de rupturas, Valentino escolhia a continuidade. No documentário, observa com ironia: “A moda adora destruir o que acabou de criar. Eu não.”
O vermelho como gesto definitivo
Mas se a contenção foi uma constante, houve uma exceção assumida: o vermelho. O Valentino red nasce não como golpe de marketing, mas como intuição emocional. Um vermelho profundo, quente, cinematográfico. “O vermelho é forte, é paixão, é vida”, explicava. “Uma mulher vestida de vermelho nunca é invisível.”
Na passadeira vermelha, os seus vestidos tornaram-se momentos fixos na memória coletiva. A partir dos anos 70 e 80, Valentino já era uma referência cultural. Enquanto outras casas se adaptavam ao ritmo industrial, ele insistia no tempo longo da alta-costura. Observava com cepticismo a transformação da moda em produto rápido. “Hoje fala-se mais de números do que de vestidos”, lamenta em “The Last Emperor”. “E isso entristece-me.” Não era nostalgia — era lucidez.
A sua relação com o século XXI foi consciente e distanciada. Nunca tentou parecer jovem. Preferiu ser fiel. Quando Julia Roberts surge nos Óscares com um vestido Valentino vintage, o gesto não é revivalismo: é continuidade. No documentário, Valentino comenta com emoção contida: “É isso que mais me comove — perceber que os vestidos vivem para lá de mim.”
Quando os pares confirmam o legado
Esse lugar singular que Valentino ocupou na moda foi reconhecido, ao longo das décadas, por pares que raramente concordam em tudo. Anna Wintour, antiga diretora editorial da Vogue norte-americana e uma das figuras mais influentes da indústria da moda nas últimas quatro décadas, acompanhou de perto a sua carreira e resumiu-o de forma simples e definitiva: “Valentino nunca seguiu tendências. Criou um ideal de beleza ao qual os outros tiveram de responder.” Não é pouco, num sistema que vive de ruptura permanente.
Também Giorgio Armani, outro decano da moda italiana, que morreu no ano passado, reconheceu nele algo cada vez mais raro: “Valentino representava uma ideia de elegância que não precisava de ser explicada. Era instintiva, mas construída com enorme rigor.” Entre ambos existia respeito mútuo e uma consciência clara de pertencerem a uma geração que acreditava na moda como linguagem cultural, não apenas como indústria.
Para Donatella Versace, Valentino foi sempre sinónimo de glamour no seu sentido mais nobre: “Ele fez as mulheres sentirem-se extraordinárias sem nunca as disfarçar.” Uma observação que toca num ponto essencial do seu trabalho: o vestido como amplificação da mulher, não como máscara.
A decisão de se retirar não foi precipitada. Em 2008, depois de um último desfile de alta-costura em Paris, encerra o ciclo. A câmara de “The Last Emperor” acompanha esse momento com respeito quase religioso. Valentino, já longe das passerelles, deixa uma das frases mais duras e mais elegantes do documentário: “Chega um momento em que é preciso sair com dignidade.” Não há dramatização. Há consciência.
Valentino Garavani morreu agora, aos 93 anos, em Roma. Com ele desaparece uma geração de criadores que não desenhava para o algoritmo nem para a tendência seguinte, mas para a memória. Criadores que acreditavam que a moda podia ser cultura, que um vestido podia conter uma noite inteira, que a beleza não precisava de justificar-se. Como ele próprio disse, numa frase que hoje soa a testamento: “A moda passa. A elegância, não.”























