Oito relógios da coleção privada da Vacheron Constantin chegam a Lisboa para contar uma história de 270 anos: do esmalte cloisonné ao movimento mais fino do mundo.
Numa tarde de junho, na boutique da Vacheron Constantin na Avenida da Liberdade, um relógio de bolso de 1928 partilha o mesmo espaço com um mostrador de esmalte champlevé de 2015. Separam-nos quase um século de relojoaria, dois continentes de inspiração e pelo menos uma dúzia de técnicas diferentes. O que os une é uma ideia que a maison genebrina persegue desde que Jean-Marc Vacheron abriu a sua oficina, aos 24 anos, em Saint-Gervais: a de que a criatividade não tem ponto de chegada, apenas direções a explorar.
“Explore All Ways Possible” – o título da exposição patente na boutique lisboeta até ao final de junho – é, literalmente, o programa de trabalho que a Vacheron Constantin tem seguido ao longo de quase 270 anos de produção contínua. Oito peças da coleção privada da maison, selecionadas para ilustrar esse percurso, chegaram a Lisboa para mostrar o que acontece quando uma manufatura relojoeira decide que os limites existem para ser redesenhados.
Os quatro pontos cardeais como princípio criativo
A exposição organiza-se em torno de uma ideia geográfica: Norte, Sul, Este e Oeste como eixos de inspiração. Não é uma divisão arbitrária. Desde o início do século XIX, com as viagens comerciais iniciadas por François Constantin pelos mercados europeus e depois além-fronteiras, cada destino deixou um rasto visível nas criações da maison. O cliente do Cairo não queria o mesmo que o colecionador de Nova Iorque; o clima do Brasil impunha exigências que Genebra não conhecia. A Vacheron Constantin respondeu a cada um desses desafios com um relógio diferente.
O representante do Norte é um relógio de pulso de 1950 (Ref. 4308), em ouro amarelo de 18 quilates, cujo mostrador em esmalte cloisonné exibe uma caravela a sulcar um mar de ondas revoltas. As chamadas “Cornes de Vache” – asas decorativas em forma de chifre de vaca – completam uma composição que une a técnica da miniatura esmaltada ao léxico visual da navegação. É um relógio que conta a história da coleção Overseas antes de ela existir: a massa oscilante da terceira geração dessa linha traz hoje gravada uma rosa dos ventos em ouro de 22 quilates, símbolo da orientação pelo céu que os marinheiros usavam antes do GPS.
O Sul chega sob a forma de um relógio de bolso de 1959, apelidado pelos colecionadores italianos de “Disco Volante” — disco voador, pela forma como a caixa biselada ao estilo “fio de faca” parece flutuar no espaço. A sua espessura extraordinária é possível graças ao lendário Calibre 1003, apresentado em 1955 para celebrar o bicentenário da casa. Com 1,64 mm de espessura e apenas 120 componentes, é o movimento mecânico de corda manual mais fino do mundo – um recorde que se mantém até hoje, passadas mais de sete décadas. O “Disco Volante” herda essa obsessão pela finura e pela elegância minimalista que os mercados tropicais, paradoxalmente, souberam apreciar.
O Este é o mais teatral dos quatro pontos cardeais nesta exposição: um relógio pingente de 1925, fabricado em colaboração com a Verger Frères de Paris, em ouro amarelo incrustado com coral, madrepérola, esmalte preto e ouro branco cravejado de diamantes. A influência japonesa é declarada, o resultado é extravagante no melhor sentido – uma jóia que mede o tempo, ou um relógio que é, antes de mais, uma obra de arte. A abertura ao Oriente começou a meados do século XIX, quando a industrialização da produção, nomeadamente a introdução do pantógrafo por Georges Auguste Leschot, permitiu à Manufatura olhar para novos mercados. Os relógios que daí resultaram absorveram técnicas decorativas – laca, engaste de pedras preciosas, motivos arquitetónicos asiáticos – que a Alta Relojoaria europeia ainda não dominava.
Quando a técnica é a linguagem
Além da exploração geográfica, a exposição dedica espaço a duas dimensões que definem a identidade mais funda da maison: a exploração arquitetónica e a exploração intercultural.
O relógio de “Horas Saltantes” de 1995 (Ref. 43040) pertence à primeira categoria. A complicação das horas saltantes – em que as horas não avançam de forma contínua, mas saltam de posição a cada 60 minutos – foi originalmente desenvolvida para relógios de bolso, regressando à moda na década de 1990. O que torna este modelo singular não é a complicação em si, mas a maneira como ela se expressa: um mostrador em guilhoché com um mecanismo de leitura “misterioso” dos índices de minutos, alojado num Calibre 1120 de corda automática com apenas 2,45 mm de espessura. Uma das arquiteturas mais planas dos movimentos automáticos já produzidos, apresentada num relógio que parece desafiar a física pela forma como concentra tanta informação num espaço tão reduzido.
A exploração intercultural tem o seu momento mais expressivo num Métiers d’Art Savoirs Enluminés de 2015, parte de uma série limitada a 20 peças que se inspira no Bestiário de Aberdeen – um manuscrito do início do século XIII que combinava ciência e ficção na descrição de animais reais e imaginários. A peça em exposição apresenta um Alción – ave marinha associada à serenidade e ao domínio das águas – executado em esmalte champlevé e esmalte miniatura sobre um mostrador em ouro amarelo de 22 quilates. A gravação na parte inferior reproduz a caligrafia medieval do manuscrito original. O Calibre RA 12”’ – 1120 AT, que aciona uma indicação retrógrada das horas, completa uma criação que transita livremente entre a iluminura medieval, a ourivesaria e a relojoaria de alta precisão.
A surpresa que viaja e o explorador que mede o tempo
O relógio “Surprise” de 1928, também fabricado em colaboração com a Verger Frères, ocupa uma categoria própria: a da inovação que nasce da necessidade prática. Concebido como relógio de viagem e de bolso, o mecanismo do tipo persiana – sistema de abertura por pressão em ambos os lados que protege o vidro – foi patenteado numa época em que os cruzeiros transatlânticos eram o modo de transporte desejado pela burguesia europeia. O relógio em ouro amarelo com motivos geométricos em esmalte verde é um objeto de 1928 que continua a parecer moderno: a geometria do Art Déco envelheceu bem, e a solução técnica da caixa com persiana antecipa a engenharia de proteção que as décadas seguintes tornariam standard nos relógios de expedição.
O “Explorador do Mundo” que encerra a exposição é o Royal Chronometer de 1967 (Ref. 6694), apelidado de “Batman” pelos colecionadores. O Chronomètre Royal tem uma história que começa em 1907, quando a Vacheron Constantin apresentou um relógio de precisão robusto e legível, destinado tanto à competição cronométrica quanto ao uso diário em condições adversas. A América Latina foi o mercado que mais contribuiu para a reputação deste modelo: a resistência à humidade, às variações de temperatura e à oxidação era uma exigência real, não um argumento de marketing. O Royal Chronometer de 1967 herda esse ADN funcional num corpo em ouro branco que é, ao mesmo tempo, instrumento e objeto de contemplação.
Na boutique da Avenida da Liberdade, a maison tem utilizado regularmente o espaço para apresentar peças históricas da sua coleção privada – um gesto que transforma o ponto de venda num lugar de encontro com a história da relojoaria. A exposição “Explore All Ways Possible” segue esse modelo: não é uma montra de produtos disponíveis para compra imediata, mas um convite a perceber o que está por trás de cada decisão estética e técnica que a Vacheron Constantin tomou ao longo de quase três séculos. O lema “Fazer melhor, se for possível, e isso é sempre possível” foi formulado em 1819 numa carta de François Constantin ao seu sócio. As oito peças reunidas na Avenida da Liberdade demonstram que a formulação era um programa de trabalho que cada geração de relojoeiros genebrinos levou a sério, em todas as direções. A entrada é livre.
Morada: Avenida da Liberdade, nº192A – Lisboa
Horário: segunda a sábado, das 10h00 às 20h00
Tel.: +351 938 450 082
Entrada livre, até ao final de junho de 2025













