Independência sempre foi bandeira de Giorgio Armani, mas o seu testamento abre a porta a LVMH, L’Oréal ou EssilorLuxottica — ou a uma entrada em bolsa — num enredo que marca o fim de uma era.
Durante meio século, Giorgio Armani fez da independência um princípio sagrado. Agora, a revelação do seu testamento mostra uma reviravolta surpreendente: a casa fundada com Sergio Galeotti deverá vender parte do capital ou, em alternativa, avançar para uma entrada em bolsa. Uma mudança estrutural para uma marca que sempre se manteve à margem das consolidações que redesenharam o mapa do luxo.
De acordo com documentos consultados pela Reuters e pela Bloomberg, os herdeiros terão de vender 15% da empresa no prazo de 18 meses após a morte do criador, seguida de uma fatia entre 30% e 54,9% para o mesmo comprador, no espaço de três a cinco anos. Se tal não acontecer, a opção será uma oferta pública inicial.
O testamento dá preferência a três parceiros de peso: LVMH, o maior conglomerado de luxo do mundo; L’Oréal, que detém a licença de beleza da Armani; e EssilorLuxottica, responsável pela produção de óculos para Giorgio Armani, Emporio Armani e Armani Exchange. A possibilidade de recorrer a outros grupos com ligações comerciais também não é excluída.
Reações imediatas
À Vogue Business, a EssilorLuxottica declarou estar “orgulhosa da confiança que o Sr. Armani depositou no grupo e na sua gestão”, sublinhando que avaliará cuidadosamente a perspetiva de evolução em conjunto com o conselho. Já LVMH e L’Oréal optaram por não comentar.
O comité executivo da Armani, que agora será liderado por Leo Dell’Orco — colaborador histórico e braço-direito de Armani — e pela família, reforçou que as decisões estratégicas foram desenhadas pelo próprio criador antes da sua morte. A Fundação Giorgio Armani, criada em 2016, assegurará pelo menos 30% do capital, cabendo-lhe propor o novo CEO e zelar pelo cumprimento das diretrizes do fundador. Dell’Orco concentra cerca de 40% dos direitos de voto, enquanto Silvana Armani e Andrea Camerana assumem também parcelas relevantes.
O fim da independência?
Para muitos analistas, o documento marca “o fim de uma era”. Giorgio Armani foi um dos últimos grandes designers-empresários que controlavam integralmente a sua casa. Em 2024, o grupo faturou 2,3 mil milhões de euros — menos do que Prada ou Gucci, apesar de uma notoriedade global comparável — e viu os lucros pressionados por um setor em retração. O EBITDA caiu cerca de 25% nesse ano, reforçando a urgência de um plano sucessório estruturado.
Estudos de mercado, como o do banco Berenberg, avaliam hoje a Armani entre cinco e sete mil milhões de euros. Segundo Mario Ortelli, da Ortelli & Co., a escolha de potenciais compradores reflete uma procura de “rede de segurança” que permita à marca preservar autonomia relativa sob a alçada de gigantes com receitas anuais acima de 26 mil milhões de euros. Já Luca Solca, da Bernstein, alerta que a integração não está isenta de riscos: “Armani é icónica, mas LVMH tem experiências amargas no passado, como Donna Karan. Um IPO seria uma via viável, mas exigiria uma liderança forte e uma estratégia de crescimento coerente.”
Armani planeou a sua sucessão como desenhava um fato: com precisão milimétrica. A sua decisão é tão pragmática como simbólica — aceitar que a independência, valor que sempre defendeu, já não é suficiente para garantir a continuidade de uma marca global. Entre os corredores de Milão e os conselhos de administração de Paris, Nova Iorque e Genebra, joga-se agora o próximo capítulo de um império estético que sempre foi sinónimo de disciplina, elegância e autonomia.







