Tem fama de viver de praias, resorts e pulseiras coloridas que dispensam a carteira durante uma semana inteira. Mas uma viagem pelo lado menos óbvio da maior ilha das Canárias mostra outra realidade: uma que é feita de produtores locais, cidades erguidas sobre lava, cetáceos residentes e um dos céus mais limpos do mundo.
Para milhões de europeus, Tenerife continua a ser sinónimo de férias sem sobressaltos, hotéis de grande dimensão, buffets intermináveis e dias passados entre a piscina e a espreguiçadeira. É uma fórmula que resulta há anos e continua a levar milhões de visitantes à ilha, mas que deixa muito por descobrir.
Foi dessa constatação que nasceu o Gen Explorer, uma campanha do Turismo de Tenerife que procura mostrar uma ilha diferente daquela que normalmente ocupa os folhetos das agências de viagens.
O ponto de partida é quase insólito. Existe uma variante genética, a DRD4-7R, associada à curiosidade e ao desejo de explorar, presente, segundo vários estudos, em cerca de uma em cada cinco pessoas.
A partir dessa ideia, a entidade de turismo organizou testes em Lisboa, Bilbau e Málaga, recebeu mais de 1700 candidaturas e escolheu três exploradores oficiais para percorrerem Tenerife através de um conjunto de experiências ligadas à natureza, à cultura e à economia local.
O objetivo nunca foi criar um itinerário fechado, muito pelo contrário. A proposta consiste em despertar uma forma diferente de viajar, privilegiando pequenos produtores, património, paisagem e atividades que valorizem a ilha. Foi esse percurso que acompanhámos durante três dias.
O Norte onde a ilha continua a viver
A primeira surpresa acontece ainda antes de chegar ao hotel. A estrada que liga o Aeroporto Norte a Santa Cruz não corresponde ao imaginário de quem espera encontrar uma sucessão de empreendimentos turísticos. De ambos os lados surgem moradias ajardinadas, algumas com varandas e alpendres que fazem lembrar bairros residenciais de Nova Orleães, uma paisagem inesperada para quem aterra numa ilha atlântica associada ao turismo balnear.
Os próprios habitantes resumem a diferença entre as duas metades da ilha numa frase repetida vezes sem conta: “o sul é para trabalhar, o norte é para viver.”
Durante séculos foi o norte que concentrou a maior parte da população, graças às melhores condições para a agricultura, e só a partir dos anos noventa, com a expansão da indústria turística, o sul ganhou protagonismo económico e demográfico, tornando-se o rosto mais conhecido de Tenerife.
A base da viagem foi o Iberostar Heritage Grand Mencey, em Santa Cruz, um hotel cujo nome recorda os antigos reis guanches que governavam a ilha antes da conquista castelhana. Um pormenor que acaba por resumir bem a filosofia desta viagem, que consiste em olhar para Tenerife muito antes do aparecimento dos primeiros resorts.
Baleias que escolheram ficar
O primeiro dia começou no mar, ao largo dos Acantilados de Los Gigantes, a bordo de uma embarcação autorizada para observação responsável de cetáceos, que revela que nem toda a vida marinha está só de passagem.
Ali vive uma das maiores comunidades residentes de cetáceos da Europa – calcula-se que cerca de quinhentas baleias-piloto tropicais e entre duas e três centenas de golfinhos permaneçam durante todo o ano naquele pedaço de costa. Não seguem rotas migratórias, já que encontraram ali alimento, abrigo e condições suficientes para nunca precisarem de partir.
Poucos minutos depois de deixarmos o porto, começaram a surgir à superfície. Os caldeirões tropicais flutuavam quase imóveis, interrompendo o silêncio apenas para recuperar o fôlego antes de mergulharem novamente.
À volta, Los Gigantes ajudam a perceber porque é que este litoral é um dos mais singulares do Atlântico, com escarpas que se elevam entre os 300 e os 600 metros de altura e que formam o terceiro maior paredão costeiro da Europa. As camadas horizontais denunciam sucessivas erupções vulcânicas; as marcas verticais mostram o caminho percorrido pela lava até solidificar.
Entre Los Gigantes e a extremidade oposta da ilha existe ainda uma linha imaginária que delimita uma vasta área marinha protegida, criada precisamente para preservar um dos ecossistemas mais ricos do arquipélago.
A ilha muda de clima à velocidade de uma curva
No dia seguinte, bastaram poucos quilómetros para perceber outra característica curiosa de Tenerife. Começa a chover, cinco minutos depois volta o sol, mais alguns quilómetros e regressa o nevoeiro… Os ventos alísios, quando encontram o relevo da ilha, condensam-se rapidamente, criando uma sucessão de microclimas que explica porque é que Tenerife consegue concentrar paisagens tão diferentes num espaço relativamente pequeno.
É também essa alternância que fez do Norte a principal zona agrícola da ilha durante séculos. Na subida para La Orotava sucedem-se vestígios dessa história. Primeiro, veio a cana-de-açúcar; depois, a vinha; mais tarde, a banana. Houve ainda uma época em que um pequeno inseto, a cochonilha, era cuidadosamente cultivado para produzir um pigmento vermelho utilizado para tingir tecidos de grande valor comercial.
O centro histórico de La Orotava conserva essa prosperidade antiga. Nesta localização continua a funcionar um dos moinhos tradicionais onde ainda hoje se produz gofio, a farinha torrada que permanece na base da alimentação das Canárias desde os tempos dos guanches.
Poucos minutos depois, nos jardins do Marquesado de la Quinta Roja, surge uma das histórias mais inusitadas da viagem. No século XIX, a Igreja recusou o enterro cristão de Diego Ponte del Castillo, filho dos marqueses, por pertencer à maçonaria. A mãe respondeu mandando construir um mausoléu em mármore no meio do jardim, onde o filho acabou por repousar. O monumento continua ali, rodeado de vegetação exuberante, preservando a lembrança de uma época em que até a morte podia transformar-se numa disputa política.
É também nesta zona que cresce um dos maiores jardins botânicos de Espanha, com centenas de espécies trazidas de vários pontos do mundo, incluindo uma árvore particularmente familiar aos portugueses, o dragoeiro, que partilha com a Madeira as raízes atlânticas.
Todos os anos, as ruas transformam-se num enorme tapete efémero de flores e areias vulcânicas para celebrar o Corpo de Deus, uma tradição que continua a mobilizar a população local.
A despensa de Tenerife
À medida que a estrada avança em direção ao Maciço de Teno, a paisagem torna-se mais rural e o ritmo abranda. Durante muito tempo foi daqui que saiu boa parte dos cereais, das batatas e dos produtos agrícolas que abasteciam a ilha e ainda hoje muitos habitantes referem-se a Teno como a despensa de Tenerife.
É aqui, escondida entre montanhas, que funciona a pequena Quesería Naturteno. Sem qualquer aparato turístico, esta queijaria artesanal é famosa pelo produtor, pelas cabras que passam o dia em liberdade nas encostas e por um queijo que soma inúmeras distinções internacionais.
É então que se percebe uma das ideias centrais da campanha Gen Explorer… Viajar também pode significar escolher onde fica o dinheiro que se gasta. Neste caso, cada refeição, cada prova e cada visita representam rendimento direto para quem continua a produzir na ilha.
Cidades erguidas sobre lava
Em Garachico, a história está escrita na pedra negra que lhe serve de chão. Durante séculos, foi o principal porto de exportação de açúcar do arquipélago, até que, em 1706, uma erupção vulcânica alterou tudo – a lava destruiu grande parte da vila, fechou o porto e obrigou os habitantes a recomeçar.
Em vez de abandonarem o lugar, construíram-no de novo sobre a própria lava, transformando a tragédia geológica numa das paisagens urbanas mais singulares das Canárias. Hoje, as ruas de calçada, os edifícios senhoriais e as igrejas convivem em harmonia com as piscinas naturais de El Caletón, moldadas pela mesma erupção que quase apagou Garachico do mapa.
Quando a noite vale a viagem
Há cada vez mais lugares a transformar a chegada da noite numa experiência turística, e a imensidão do céu no Parque Nacional do Teide é o convite ideal. Classificado como Património Mundial pela UNESCO desde 2007, o vulcão, com cerca de 170 mil anos, apresenta durante o dia uma paisagem que parece saída de outro planeta. Os rios de lava solidificada desenham um território árido e silencioso, e cada caminhada leva-nos a imaginar a violência necessária para criar tamanha beleza.
Mas é depois do pôr do sol que o Teide revela a sua dimensão mais extraordinária.
A altitude, a reduzida poluição luminosa e as condições atmosféricas excecionais fizeram de Tenerife um dos primeiros destinos do mundo certificados pela Fundação Starlight para a observação do céu noturno.
Nessa noite, Júpiter surgiu acompanhado pelas suas quatro luas galileanas, perfeitamente visíveis, enquanto Vénus dominava o horizonte com um brilho incandescente. Entre uma constelação e outra, surgiu também uma curiosidade que resume, de certa forma, toda esta viagem.
A Estrela Polar, aquela que orienta navegadores e viajantes desde sempre, está longe de ser uma das estrelas mais luminosas do firmamento – ocupa apenas a 47ª posição nesse ranking. Nem sempre aquilo que mais orienta é aquilo que mais brilha.
Muito para lá da espreguiçadeira
O Turismo de Tenerife decidiu chamar Gen Explorer a esta campanha. O nome pode nascer de uma ideia genética, mas aquilo que importa é a vontade de mostrar uma ilha que raramente aparece nas brochuras das agências de viagens.
Os três exploradores escolhidos – Alba Mancera, Bruno Miguel da Cunha Henriques e Marta Trillo – ajudaram a construir um conjunto de experiências que continuará em evolução e onde não existe um percurso fechado nem uma lista obrigatória de lugares a visitar. Existe, isso sim, um convite para conhecer Tenerife sem pressa, privilegiando quem produz, preserva e continua a dar identidade ao território.
Ao longo de três dias, sucederam-se baleias que nunca abandonam estas águas, produtores que transformam leite em queijos premiados, cidades renascidas da lava, microclimas que mudam de paisagem em poucos quilómetros e um céu onde a escuridão ainda permite olhar para as estrelas.
A maior surpresa acabou por ser essa. Tenerife continua a ter praias, hotéis e resorts para quem os procura. Continua a ser um excelente destino para descansar, mas limitar a ilha a essa imagem talvez seja o maior equívoco que se pode cometer, porque há um Tenerife que só se mostra quando a pulseira deixa de ser o centro das férias.
















