Fotografado por Tanara Stuermer antes de as tempestades de 2026 o atingirem, o cais da Carrasqueira chega ao Stork Club como paisagem, arquivo e retrato de uma comunidade que voltou a erguê-lo.
À superfície, vê-se um desenho que parece contrariar todas as regras: tábuas de larguras diferentes, estacas cravadas no lodo, pequenos abrigos de madeira e passagens que avançam sobre o estuário sem qualquer preocupação de simetria. Tudo nasceu de uma necessidade muito concreta – chegar aos barcos quando a maré recua – e talvez venha daí a força visual do Cais Palafítico da Carrasqueira.
Tanara Stuermer chegou a este labirinto de madeira em 2025, quando desenvolvia “Pesca”, um projeto ainda em curso sobre os lugares, estruturas e pessoas ligados à atividade piscatória. A fotógrafa brasileira reconheceu naquela arquitetura improvisada uma familiaridade inesperada. As plataformas sobre estacas faziam-lhe lembrar construções vistas na Amazónia e noutros pontos do Brasil; o estuário do Sado abria, assim, uma ponte visual para geografias distantes.
As fotografias nasceram dessa primeira aproximação. O cais era então um possível capítulo dentro de uma investigação mais ampla. O inverno seguinte alterou-lhes o tempo e o significado.
Uma paisagem sem pose
Construído artesanalmente pela comunidade piscatória nas décadas de 1950 e 1960, o cais continua a desempenhar a função original. As estacas, ora enterradas na lama, ora rodeadas de água, acompanham as marés; as passagens prolongam-se por centenas de metros e permitem que os pescadores alcancem as embarcações durante a baixa-mar. A Câmara Municipal de Alcácer do Sal chama-lhe uma “obra-prima da arquitetura popular” e aponta-o como um dos lugares mais visitados do concelho. A descrição acerta na importância, mas a palavra “monumento” seria insuficiente. A Carrasqueira não é uma peça imobilizada para contemplação: é património vivo, lugar de trabalho e uma construção sujeita ao desgaste diário da água, do sal e do vento.
Stuermer interessa-se precisamente por territórios onde a vida reorganiza continuamente o cenário. O seu percurso começou na fotografia de rua, depois de os estudos de História e de teoria da imagem, no sul do Brasil, lhe terem revelado o poder documental do meio. A partir de 2009, fotografou momentos de vida e solidão no Rio de Janeiro; mais tarde, aproximou a imagem da abstração através de interferências, sobreposições e impressões em materiais opacos e translúcidos.
Essa investigação ajuda a compreender “Carrasqueira”. A imagem escolhida para o convite já recusa a paisagem postal: fragmenta o cais, sobrepõe reflexos, embarcações e volumes, e transforma uma estrutura reconhecível numa composição de memória incerta. O lugar permanece identificável, mas já não se oferece inteiro. Parece visto ao mesmo tempo no presente e depois de ter desaparecido.
A linguagem valeu à artista o Prémio Revelação FotoRio 2023 com a série “Altinha”. Stuermer foi ainda finalista do Open Call InCadaqués, em 2024, e da categoria Professional/Sport dos Sony World Photography Awards, em 2025; a sua obra integra a coleção “Un fonds photographique brésilien”, da Biblioteca Nacional de França.
Quando a tempestade muda as imagens
Na madrugada de 2 de fevereiro de 2026, ventos fortes e uma preia-mar particularmente intensa atingiram o cais. A água transpôs os chamados muros da maré, partiu acessos, arrastou redes e deixou boa parte das pequenas pontes para as embarcações destruída. O que tantas fotografias de viagem mostravam como cenário intemporal revelou a sua condição real: uma infraestrutura frágil, indispensável a quem trabalha no estuário e sem alternativa imediata para a comunidade piscatória.
O apelo à doação de estacas, tábuas, vigas e ferragens teve resposta. No início de março, a Junta de Freguesia da Comporta anunciava o arranque da reconstrução, com várias toneladas de madeira cedidas pela Carmo Wood e a participação direta dos pescadores, associações e instituições locais. A resposta fez da recuperação outro capítulo coletivo na história do cais.
Foi nesse intervalo que Stuermer regressou às fotografias de 2025. Já não pertenciam apenas a “Pesca”. Guardavam o cais anterior à destruição e convertiam-se, involuntariamente, num arquivo da Comporta antes das grandes tempestades de 2026. A mudança é subtil, mas decisiva: uma imagem feita para observar passa também a preservar.
Pierre Passebon percebeu de imediato essa deslocação. O galerista francês, que com o decorador Jacques Grange recebe a exposição no Stork Club, escreve que o choque da tempestade lhe mostrou como uma paisagem julgada imutável pode desaparecer. Para Passebon, estas fotografias são “uma homenagem à Carrasqueira e à fragilidade dos lugares que julgamos eternos”.
O título da exposição é, por isso, seco e certeiro: “Carrasqueira”. Dispensa metáforas porque o nome transporta o cais, a aldeia, a memória piscatória e a região que entretanto se tornou uma das geografias mais desejadas do país. Num território tantas vezes reduzido a uma ideia cuidadosamente polida de verão, Tanara Stuermer devolve à Comporta a lama, o trabalho e a precariedade que também a formam.
Uma bola no ar e um cais de pé
A inauguração, marcada para 7 de agosto, inclui ainda a assinatura de “Altinha”, o novo livro de Tanara Stuermer, publicado pelas Éditions Loco. À primeira vista, o futebol de praia do Rio de Janeiro parece viver longe das tábuas da Carrasqueira. A ligação surge no modo como os corpos e as comunidades se organizam para impedir uma queda.
Altinha é um jogo nascido nas praias cariocas nos anos 1960. Os participantes mantêm a bola no ar sem recorrer às mãos e, ao contrário do futebol convencional, não jogam uns contra os outros. Cooperam para cumprir o mesmo objetivo: evitar que a bola toque no chão. Stuermer fotografou essa cadeia de movimentos como uma coreografia, decompondo-a através de imagens sobrepostas e impressões em papel translúcido, num trabalho que convoca os estudos de movimento de Eadweard Muybridge e Étienne-Jules Marey.
O livro prolonga fisicamente essa investigação. Com 24 por 30 centímetros, 116 páginas e cerca de 60 reproduções impressas em tricromia, combina papéis de transparências diferentes, sobrecapa e uma abertura recortada na capa. O texto é da historiadora e especialista em fotografia brasileira Marly Porto e a conceção gráfica pertence ao L’atelier d’édition. Os dez primeiros exemplares numerados são acompanhados por uma impressão intitulada “Menino Anja”.
Stuermer encontra no jogo um espírito de solidariedade semelhante ao que reconheceu na reconstrução da Carrasqueira. De um lado, vários jogadores impedem que a bola caia; do outro, uma comunidade volta a levantar sobre a lama os caminhos que a maré levou. A comparação poderia parecer demasiado perfeita, não fosse sustentada por duas realidades muito concretas. A arte entra justamente nesse espaço: não para embelezar a resistência, mas para tornar visível a rede de relações que mantém corpos, lugares e memórias de pé.
Entre 8 de agosto e 5 de setembro, as fotografias regressam ao território onde nasceram. Depois de Paris, onde o universo de “Pesca” foi apresentado na Galerie du Passage, “Carrasqueira” encontra no Stork Club uma escala íntima e uma proximidade impossível de reproduzir noutro lugar. O cais fica a poucos quilómetros. A maré continua a subir e a descer. A paisagem mudou, as imagens também.
Exposição “Carrasqueira”, de Tanara Stuermer
Datas: 8 de agosto a 5 de setembro de 2026
Local: Stork Club, Avenida 18 de Dezembro, nº12, Carvalhal
Horário: terça-feira a sábado, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 19h00
Telefone: (+351) 914 094 255











