As perdas de 2024 na Sotheby’s revelam um mercado de arte em retração, mas também expõem fragilidades internas na gestão. Numa travessia difícil, o futuro da casa depende da capacidade de equilibrar finanças e prestígio.
A Sotheby’s encerrou 2024 com perdas antes de impostos de 248 milhões de dólares (cerca de 210 milhões de euros), mais do dobro do resultado negativo de 2023. A receita de comissões e fees caiu 18% (para 813 milhões), enquanto as vendas totais recuaram 23%, fixando-se em 6 mil milhões de dólares (pouco mais de 5 mil milhões de euros). É um dos piores resultados da sua história recente, agravado pela quebra da procura no segmento de topo: em termos globais, as vendas de belas-artes caíram 12% e os lotes acima de 10 milhões de dólares encolheram quase 40%.
A travagem na Ásia, sobretudo em Hong Kong, e a incerteza macroeconómica nos Estados Unidos explicam parte da equação. Mas não toda. A outra parte vem de dentro da própria casa, e levanta a questão: até que ponto os resultados de 2024 são consequência de um ciclo mais frio no mercado ou resultado direto da estratégia de gestão adotada nos últimos anos?
O peso da dívida e o capital do Golfo
A resposta imediata de Patrick Drahi, proprietário da Sotheby’s desde 2019, foi procurar liquidez. Em 2024, entraram cerca de mil milhões de dólares de novo capital, maioritariamente provenientes do ADQ, fundo soberano de Abu Dhabi, que passou a deter 24% da Sotheby’s. O reforço serviu para amortizar quase 800 milhões de dívida e financiar a nova sede em Nova Iorque.
A dívida líquida de longo prazo recuou assim para 2,76 mil milhões, mas o gesto foi lido de duas formas: como estabilização financeira, mas também como sinal de que a Sotheby’s perdeu autonomia. A associação ao ADQ abre perspetivas estratégicas na região do Golfo, cada vez mais relevante no mercado global de arte e luxo, mas confirma igualmente a dificuldade da casa em resistir sozinha ao estrangulamento financeiro.
A gestão Drahi em debate
A herança de Patrick Drahi na Sotheby’s é controversa. Em 2019, ao adquirir a casa por 3,7 mil milhões de dólares, privatizou uma instituição histórica, fundada em Londres em 1744 e durante décadas listada em bolsa em Nova Iorque. O que prometia ser uma nova era de expansão transformou-se num debate sobre prioridades.
O foco na eficiência financeira traduziu-se em cortes de custos, reorganizações internas e indemnizações que, só em 2024, custaram 29,2 milhões. O movimento foi acompanhado de saídas de executivos-chave e da perceção de que a cultura curatorial que sempre sustentou a marca estava a ser erodida. Num negócio em que reputação e confiança são moeda forte, essa perceção é quase tão grave como a quebra de resultados.
Mais arriscada ainda foi a decisão de alterar profundamente o modelo de comissões. Ao tentar simplificar as taxas cobradas a compradores e vendedores, a Sotheby’s enfrentou forte resistência do mercado. O recuo, meses depois, foi inevitável. Mas deixou uma cicatriz: a sensação de que a casa perdeu previsibilidade num terreno onde a estabilidade das regras é parte do contrato psicológico com consignadores e colecionadores.
Christie’s: o contraste inevitável
O paralelo com a Christie’s é incontornável. A rival encerrou 2024 com 5,7 mil milhões de dólares em vendas, apenas menos 6% do que no ano anterior, e com as vendas privadas a disparar 41%. Mesmo tendo enfrentado um ciberataque de grande escala, conseguiu preservar margens e transmitir uma mensagem de continuidade.
O contraste é simbólico. Enquanto a Sotheby’s transmite incerteza, a Christie’s reforça a sua imagem de porto seguro num mercado em retração. Essa diferença ajuda a explicar por que motivo muitos colecionadores optaram por canalizar as suas peças através da Christie’s em vez da Sotheby’s.
Um buyer’s market em construção
Para os compradores, o momento atual é de oportunidade. Estimativas mais realistas, maior flexibilidade em termos de pagamento e desconto em peças blue-chip são sinais de um buyer’s market. Para os consignadores, a situação é mais exigente: vender implica negociar garantias, aceitar margens mais estreitas ou optar por canais privados que assegurem discrição e melhores condições.
O pêndulo está, assim, a deslocar-se das grandes vendas públicas para as vendas privadas em regime boutique, cada vez mais relevantes na estratégia das casas de leilões. Aqui, a Sotheby’s precisa de recuperar terreno perdido para a Christie’s, que já consolidou uma base sólida neste formato.
Novo capital, nova sede, novo ciclo?
Em paralelo com o reforço de capital, a Sotheby’s prepara a mudança para o Breuer Building, em Nova Iorque, com reabertura prevista para 8 de novembro de 2025. A nova sede, um ícone modernista da Madison Avenue, pretende ser um centro cultural, com galerias, hospitalidade e uma experiência de cliente que vá além da compra e venda em leilão.
O simbolismo é claro: reposicionar a Sotheby’s como destino global e reconquistar o prestígio que, mais do que os números, sustenta a sua longevidade. Mas a mudança de morada só será convincente se vier acompanhada de uma estratégia clara para recuperar confiança — tanto junto de consignadores como de colecionadores.
O que observar nos próximos 18 meses
• Ásia como incógnita central: uma retoma no mercado asiático será decisiva para reabrir o pipeline de lotes de topo.
• Estabilidade nas comissões: depois da reversão, espera-se previsibilidade; sem ela, o risco de fuga de consignadores mantém-se.
• Mais engenharia de risco: garantias e irrevocable bids vão continuar a ser usados para proteger resultados.
• Capital do Golfo: a presença do ADQ pode significar mais vendas single-owner ligadas a famílias e colecionadores do Médio Oriente.
• Marca e experiência física: o Breuer Building será teste à capacidade da Sotheby’s de unir tradição, modernidade e hospitalidade.
A Sotheby’s chega a 2025 numa encruzilhada. O mercado abrandou, mas a principal rival mostra que é possível resistir com quedas controladas e reforço nas vendas privadas. O ADQ trouxe estabilidade, mas também perguntas sobre autonomia. A mudança para o Breuer promete um novo ciclo, mas só terá impacto se acompanhada de uma visão curatorial sólida e de uma política de comissões estável.
Mais do que números, está em causa a identidade da Sotheby’s: será que consegue continuar a ser vista como guardiã da história e da cultura, ou tornar-se-á apenas mais um ativo financeiro? A resposta será dada não apenas no martelo que desce, mas na forma como reconquista a confiança de quem coloca o seu património em leilão.







