No dia 14 de Maio, o MAAT Central recebeu mais de noventa pessoas para uma conferência sobre sono e longevidade que reuniu ciência, clínica e uma pergunta inadiável: estamos a desperdiçar um terço da nossa vida?
O MAAT Central foi escolhido a propósito. O antigo motor elétrico de Lisboa – o edifício construído para gerar energia numa época em que isso ainda parecia um milagre – recebeu, no passado dia 14 de Maio, quase uma centena de pessoas para uma conferência que partiu de uma premissa desconcertante: a maior fonte de energia do organismo humano não é externa. É o sono. E a maioria de nós está, de forma crónica, em modo apagão.
A conferência Melhor Sono para Maior Longevidade, iniciativa da RR™ – TheUtmostSleep®, distribuidor exclusivo em Portugal das camas Hästens e Harrison Spinks, foi produzida pela Vanillaproject e contou com a Fora de Série como strategic media partner. Durante cerca de duas horas, seis especialistas – investigadores, médicos, clínicos – percorreram o tema em camadas, desde a biologia molecular do envelhecimento até aos dados epidemiológicos do sono em Portugal. O fio condutor era o mesmo ao longo de toda a tarde: dormir mal não é apenas um incómodo. É um mecanismo de aceleração do envelhecimento.
A tarde abriu com uma observação que sintetizou o espírito da conferência com precisão cirúrgica: passamos um terço das nossas vidas a dormir – ou devíamos. A maioria das pessoas passa esse terço a olhar para o teto, a convencer-se de que cinco horas chegam. A ciência já disse que não chegam. O problema é que continuamos a não ouvir.
A biologia do envelhecimento e o que o sono tem a ver com isso
A primeira intervenção foi de José Pedro Castro, investigador no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto – com colaboração na Harvard Medical School no estudo da longevidade humana excecional. A questão central que trouxe para a sala era simultaneamente científica e filosófica: conseguimos mesmo abrandar o envelhecimento? Ou até revertê-lo?
O ponto de partida foi o princípio: o envelhecimento biológico não é um evento – é um processo contínuo, que começa muito antes de qualquer sinal externo visível. O organismo acumula dano celular cedo, e a janela de intervenção é por isso muito mais ampla do que a medicina convencional historicamente considerou. Para compreender como esse processo pode ser contrariado, o investigador recorreu ao conceito de long-lived species – espécies animais com longevidades excecionais que partilham mecanismos biológicos identificáveis e, em parte, replicáveis.
Dois nomes concentraram a atenção da sala: a Rapamicina, um imunossupressor que tem mostrado resultados consistentes no abrandamento do envelhecimento em modelos animais, e o OSKM – um conjunto de fatores de reprogramação celular que, em contexto laboratorial, demonstrou capacidade de reverter marcadores epigenéticos do envelhecimento. A referência ao processo embrionário como modelo de rejuvenescimento foi um dos momentos mais densos da intervenção: o que um embrião tem que um adulto de cinquenta anos perdeu não é apenas tempo – é uma configuração epigenética que, sob condições controladas, pode ser parcialmente restaurada.
Mas antes de chegar a essa conclusão, José Pedro Castro teve o cuidado de responder a uma questão prévia com o humor certeiro de quem está suficientemente à vontade com a ciência para brincar com ela: quando começa, afinal, o envelhecimento biológico? “Quando nascemos? Quando somos concebidos? Alguns referem que é quando casamos…”, disse, e a sala respondeu com gargalhadas. A resposta científica veio a seguir – e foi igualmente direta.
A associação entre privação crónica de sono e aceleração da idade biológica é hoje mensurável – não como correlação vaga, mas como dado. Quem dorme sistematicamente menos do que o necessário apresenta marcadores biológicos de envelhecimento mais acelerado do que os seus pares com a mesma idade cronológica. A diferença pode ser de anos. Duas pessoas com a mesma data de nascimento podem ter idades biológicas muito diferentes – e o sono é um dos fatores que faz essa diferença.
Quatro perspetivas, uma convergência
O painel “Uma Visão Integrada para a Longevidade” reuniu quatro especialistas com formações distintas, moderados pela jornalista Cristina Peres. A diversidade era deliberada: o que a organização propôs foi exatamente isto – mostrar que a longevidade não pertence a nenhuma especialidade em particular, e que as respostas mais robustas surgem quando diferentes disciplinas convergem sobre o mesmo problema.
Carolina Costa, médica pediatra com percurso em pediatria e neonatologia no Reino Unido, formação complementar em Genomic Medicine pela Universidade de Cambridge, membro cofundadora da Sociedade Portuguesa de Medicina e Ciência da Longevidade e pediatra da rede Hospital da Luz, trouxe uma perspetiva que contrariou a ideia de que longevidade é um assunto de adultos. O conceito de rejuvenescimento embrionário e a sua relação com a epigenética começa antes do nascimento – e os primeiros mil dias de vida determinam padrões de saúde que se mantêm por décadas.
A arquitetura do sono num cérebro em desenvolvimento não é um tema pediátrico circunscrito: é a fundação sobre a qual se constroem, ou não, os hábitos que irão definir a saúde metabólica, imunológica e mental na vida adulta. O impacto do sono insuficiente em crianças a nível cardiometabólico, inflamatório e de saúde mental é documentado – e sistematicamente subestimado nas consultas de rotina pediátrica.
Joana Costa, médica especialista em medicina preventiva e de longevidade, co-fundadora da B-Life Clinic e presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina e Ciência da Longevidade, introduziu na conversa as aging clocks – ferramentas de medição da idade biológica que permitem, hoje, aferir com precisão o ritmo de envelhecimento de cada pessoa. O conceito de P4 medicine – medicina preditiva, preventiva, personalizada e participativa – foi apresentado como a redefinição em curso do que significa cuidar da saúde: não reagir à doença, mas antecipar o dano, medir o envelhecimento e construir estratégias individualizadas com base em biomarcadores concretos. Blood biomarkers, metabolomics, saúde intestinal, data tracking – a medicina de longevidade opera já com uma granularidade que torna obsoleta a noção de protocolo universal.
Filipe Serra de Oliveira, ortopedista e cirurgião de anca no Hospital CUF Tejo, onde coordena a Unidade de Ortopedia da Anca, com fellowship do Royal College of Surgeons em cirurgia conservadora e artroplastia da anca, foi provavelmente a presença mais inesperada do painel – e, por isso, uma das mais reveladoras. A articulação entre epigenética, postura, ciclo dia-noite e longevidade passou pela sua especialidade de forma surpreendentemente orgânica: nascemos e morremos deitados, e o que acontece entre esses dois momentos – incluindo cada noite de sono, cada postura adotada, cada cirurgia de anca evitada ou necessária – compõe um arco de saúde músculo-esquelética que é, simultaneamente, um arco de longevidade.
A transição que descreveu – da medicina interventiva para a medicina preventiva, do tratamento para a otimização postural nas 24 horas do dia – está ancorada em 65 milhões de anos de evolução da marcha humana. O sono, neste quadro, não é passividade. É parte da mecânica de recuperação que torna possível todo o resto.
Portugal dorme mal. E sabe porquê
A última intervenção foi de Sofia Gomes, médica psiquiatra e autora de “O Sono dos Portugueses” – o livro que mais sistematicamente mapeou o estado do sono no país. A escolha para encerrar a parte científica da tarde não foi aleatória: Sofia Gomes trouxe para a conversa o que todos os dados anteriores precisavam – contexto nacional, epidemiologia concreta e respostas práticas.
Portugal dorme mal. Não como impressão – como facto documentado. O país está entre os que apresentam maior prevalência de sono insuficiente na Europa, e parte da explicação não é comportamental: é geográfica. O fuso horário português não coincide com o ritmo circadiano natural da população. Vivemos biologicamente numa hora que não é a nossa, e pagamos essa dívida todas as manhãs quando o despertador toca. A consequência desta assimetria é direta: quem se deita tarde sacrifica o sono profundo; quem acorda cedo sacrifica o sono REM. Quem dorme pouco perde sempre nos dois lados – e não há recuperação total possível numa única noite de sono mais longo.
As funções do sono que Sofia Gomes enumerou confirmaram e aprofundaram o que tinha sido dito ao longo da tarde: consolidação da memória, regulação metabólica, função imunológica, equilíbrio hormonal, saúde mental. A privação crónica não atua sobre um sistema – atua sobre todos, em simultâneo, com efeitos cumulativos que a medicina convencional ainda tende a tratar como sintomas isolados em vez de reconhecer o denominador comum. As dicas práticas que encerraram a sua intervenção – higiene do sono, horários consistentes, gestão da luz artificial, temperatura ambiente – têm a aparência de conselhos simples. A ciência que os sustenta não é simples de todo.
A questão que ficou suspensa na sala, sem resposta fácil, foi precisamente esta: se sabemos tudo isto, porque continuamos a tratar o sono como uma variável negociável?
No encerramento, o arco da tarde foi sintetizado com a clareza que o tema exigia: tudo o que foi dito ao longo de quase duas horas convergiu num ponto que a RR™ soube identificar antes de qualquer tendência de mercado. Melhorar o sono é a intervenção de longevidade mais poderosa e mais acessível que existe – e começa, literalmente, onde nos deitamos. Os materiais naturais, a arquitetura do colchão, o suporte postural não são detalhes de conforto. São decisões de saúde. É essa a filosofia que une a Hästens — casa sueca fundada em 1852, que continua a produzir camas artesanais com materiais naturais sem tratamento químico – e a Harrison Spinks, com mais de 170 anos de história britânica e a mesma convicção de fundo: a cama não é mobília. É infraestrutura de saúde.
Aos aperitivos que se seguiram, a conversa continuou. As camas estavam disponíveis para experimentar. Mais de noventa pessoas saíram do MAAT com uma certeza que não tinham quando entraram: dormir bem não é preguiça. É estratégia.










