A piscina sonora do Six Senses Douro Valley é apenas um dos detalhes que tornam esta propriedade singular. Mas o que fica mesmo é o som silencioso de um serviço que raramente se encontra em Portugal.
Ouvi música debaixo de água. Nitidamente, com ritmo e melodia intactos, como se o rio Douro tivesse decidido inventar a sua própria banda sonora. A piscina interior do Six Senses Douro Valley tem terapia de som subaquática – é uma das instalações da Vitality Suite – e esta descoberta, feita nos primeiros minutos de spa, acabou por definir o tom de tudo o que se seguiu: um lugar onde o detalhe é a regra, não a excepção.
O hotel Six Senses Douro Valley fica na Quinta Vale de Abraão, em Samodães, a 125 quilómetros do Porto, numa estrada que vai estreitando à medida que o Douro vai aparecendo. A chegada faz-se por um caminho serpentino ladeado por ciprestes, e a primeira coisa que se vê é a vista – os socalcos de vinha, o rio lá em baixo, o céu a fechar o horizonte. Uma vista impossível de descrever com rigor. O melhor que se pode fazer é parar para olhar.
A quinta tem história desde 1464, quando um escudeiro do rei D. Afonso V arrendou a vinha a um judeu de Lamego chamado Abraão Farah – e foi esse nome que ficou. Séculos depois, nos finais do século XIX, Laura Pereira Leitão e o marido Alfredo Passanha instalaram-se definitivamente aqui e transformaram a propriedade na mais moderna do vale: foi a primeira casa do Douro a ter luz elétrica, aquecimento central e campainhas elétricas nos quartos. O gerador que alimentou essa revolução doméstica está hoje no Museu da Eletricidade, em Lisboa.
Quanto à floresta, Alfredo Passanha mandou-a plantar como se mandasse fazer um ramo de flores – só que em vez de flores, encomendou árvores inteiras ao viveirista Vilmorin, em Paris. Cedros do Atlântico, faias roxas, abetos, espinheiros, espécies exóticas que chegaram por encomenda postal e cresceram durante décadas até se tornarem umas das mais altas de Portugal.
Em 1938, a floresta foi classificada de “Interesse Público” e sobreviveu mesmo a um decreto da II Guerra Mundial que obrigou os proprietários florestais a vender madeira ao Estado. A floresta de Vale de Abraão ficou de fora.
Agustina Bessa-Luís fixou-a em romance em 1991. Manoel de Oliveira filmou-a em 1993 e ganhou prémios em Cannes. Em 2007 abriu como hotel Aquapura. Em 2015, o Six Senses chegou e transformou-a no seu primeiro hotel europeu.
A piscina que toca música e outras surpresas do spa
O Six Senses Spa Douro Valley tem 2.200 metros quadrados. Dez salas de tratamento, todas com janelas para jardins secretos ou para o vale do rio. A Vitality Suite inclui sauna convencional, sauna de infravermelhos, banhos de vapor, laconium, sauna de ervas – o conjunto completo de variações térmicas que fazem sentido numa estadia de dois ou três dias. Experimentei todas. A que mais surpreende continua a ser a mais simples de descrever: a piscina interior, aquecida, com jatos de massagem, cromoterapia e a tal terapia de som subaquático. Mergulha-se e ouve-se música. Não é uma sensação, não é vibração – é som, com frequência e timbre, transmitido pela água.
A área de fitness fica escondida atrás de vidros foscos com vista para a floresta centenária, e tem equipamentos da TechnoGym e da LifeFitness. Há um estúdio para yoga aéreo, meditação, TRX e HIIT, e a oferta de aulas a pedido com personal trainers especializados.
O Alchemy Bar – uma mesa enorme com ingredientes, potes e utensílios distribuídos por armários – é o espaço onde os hóspedes aprendem a fazer produtos de beleza à base de ingredientes naturais. Sais aromatizados, óleos essenciais, esfoliantes. O workshop é uma das experiências de assinatura do Six Senses e sai-se dele com frascos para levar e a sensação de ter feito algo com as mãos.
O Earth Lab é outra coisa. Não é cosmética nem bem-estar no sentido imediato do termo – é uma espécie de regresso ao princípio. O workshop de sal aromatizado começa na horta da quinta: as ervas apanham-se ali mesmo, com as mãos, antes de as levar para dentro. Depois vem o almofariz de pedra, e o sal, e o movimento circular que toda a gente conhece de alguma memória muito antiga que não sabe bem de onde vem.
É um gesto lento que exige atenção total. O cheiro de alecrim acabado de esmagar ocupa o espaço inteiro. O tempo para, de forma genuína e silenciosa. Sai-se com um frasco pequeno e a sensação ligeiramente perturbadora de que isto era assim antes de tudo o que veio a seguir, e de que talvez devesse continuar a ser.
No Nail Bar, servem-se bebidas enquanto se faz a manicure. Cada cadeira de pedicure tem um suporte especialmente desenhado para segurar um copo de vinho. Este pormenor, que poderia parecer uma extravagância, é afinal uma declaração de princípios: o prazer acontece agora.
O jantar sob as estrelas, o pequeno-almoço e a história da floresta
A refeição mais comentada no Six Senses Douro Valley é o pequeno-almoço. Dito assim parece uma provocação, mas quem lá esteve percebe imediatamente. A Open Kitchen serve um pequeno-almoço de quinta que começa na fruta – local, da época, laminada com uma generosidade que embaraça qualquer hotel de cidade – e continua sem se perceber bem onde pára. A diversidade é obscena no melhor sentido: sumos naturais, compotas feitas com frutos da região, legumes que sabem ao que são.
A melhor salada de tomate coração de boi que comi na vida foi neste terraço, de manhã. Faz todo o sentido: o Douro tem um festival dedicado ao tomate, e a região produz esta variedade com uma intensidade de sabor que os supermercados ainda andam a tentar imitar. Os vegetais do Six Senses vêm da horta orgânica da própria quinta. Quando o chef leva os hóspedes a apanhar os legumes antes de os cozinhar, é uma cadeia curta levada a sério – e o prato chega à mesa com essa história dentro.
À noite, o restaurante Vale de Abraão tem azulejos do século XVIII, lareira, teto de cortiça e chão em granito. O menu muda com a estação, e há sempre uma componente de harmonização com vinhos do Douro que o sommelier apresenta com a seriedade e a leveza certas. O terraço, com a fonte central e as mesas à luz das velas, é o sítio para os jantares românticos de Verão. A pérgola coberta de vinha do Garden Barbecue – aberta de Maio a Outubro – tem o cheiro certo e o ambiente que não precisa de mais nada: carne, peixe e vegetais grelhados, legumes acabados de colher na horta ali ao lado.
Na Wine Library – o coração do resort, como lhe chamam – mais de 700 referências de vinhos do Douro e de todo o país estão organizadas com a seriedade de uma adega e a informalidade de uma sala de estar: sofás de couro, prateleiras com livros sobre a região, uma mesa comprida com uma caixa de luz embutida para provas. O dispensador Enomatic permite provar vinhos raros a copo, mediante um cartão especial entregue no check-in. Todos os dias às 18h30 há uma prova de vinhos – muitas delas conduzidas pelos próprios enólogos e produtores das quintas da região.
Em frente à Open Kitchen, a fonte do terraço tem no centro uma estátua que a família Serpa Pimentel baptizou de “O Gigante”. Na verdade, é Hércules a dominar uma serpente. A história do fantasma também é boa: o tal “Almirante” era afinal um capataz da propriedade que usava uma capa para afugentar rapazes que vinham roubar uvas. Assim entrou no folclore local. Há uma fotografia na parede da Open Kitchen que o imortalizou, juntamente com os outros membros da família Serpa Pimentel.
E depois há a floresta – a mesma que Passanha encomendou a Paris como quem oferece flores. Quatro hectares, centenária, com ninhos de descanso pendurados nas árvores e locais pré-definidos para piqueniques. Olhar para cima, naquele verde alto e silencioso, provoca tonturas do melhor tipo.
O serviço que exige tudo e parece custar nada
O que distingue o Six Senses Douro Valley do conjunto dos melhores hotéis do país – e a lista não é longa – é o serviço. Não o serviço enquanto protocolo ou enquanto script de formação hoteleira, mas o serviço enquanto disposição. A equipa trata os hóspedes como família, com a naturalidade com que as boas famílias tratam os seus convidados: sem cerimónia excessiva, com atenção genuína ao que cada pessoa precisa.
Aqua e Foxy, os dois cães da propriedade – mascotes oficiais com vida que muitos humanos invejariam –, são parte dessa atmosfera. Os animais de estimação são bem-vindos no Six Senses Douro Valley, com menu próprio e condições de alojamento pensadas para o efeito. Para quem viaja com cão, este detalhe vale a escolha do hotel.
A quinta tem 71 alojamentos distribuídos por diferentes alas – os quartos Quinta, com vista sobre o vale e o rio; os quartos e suites Vineyard, mais modernos; e os quartos Valley, instalados no antigo armazém de vinhos da propriedade, com sala comum, lareira e piscina partilhada. As Pool Villas, de um ou dois quartos, têm piscina privativa aquecida. A piscina exterior tem 25 metros, deck de madeira e espreguiçadeiras que se alinham com as cores das oliveiras e do jardim orgânico.
A sustentabilidade é aqui uma prática documentada, anterior a qualquer argumento de marketing: toda a água consumida no hotel é filtrada e engarrafada na própria propriedade, e metade das receitas dessa venda vai para o Fundo de Sustentabilidade, que apoia a Bagos d’Ouro (uma associação que acompanha crianças do vale até à universidade), os Afonsinhos (equipa de futebol que usa o bom aproveitamento escolar como critério de acesso), a AEPGA (preservação dos burros de Miranda, que estiveram em vias de extinção) e o GPAR e a ASPA (proteção animal na região da Régua).
Nos socalcos que sobem até ao horizonte, as castas autóctones do Douro – inscritas em esteios de ardósia nos corredores do hotel – produzem vinhos que se bebem na sala ao lado. O circuito fecha-se com uma elegância acidental, construída com cuidado, ao longo de anos e de gerações, sem outro propósito que durar.
Morada: Quinta Vale de Abraão, Samodães, Lamego, Portugal
Telefone: +351 254 660 600
E-mail: reservations-dourovalley@sixsenses.com
Preços: A partir de 700€ por noite nos quartos Quinta; suites e villas a partir de 1.100€. Preços variáveis conforme a época e o tipo de alojamento.
Como chegar: A 125 km do Aeroporto Francisco Sá Carneiro (Porto), aproximadamente 1h30 de viagem. Possibilidade de transfer privado organizado pelo hotel.



























