O Salgo, novo restaurante do chef Pedro Lisboa, chega a uma das franjas mais selvagens do litoral português com uma cozinha que começa antes da cozinha.
Pedro Lisboa tinha 27 anos e uma ideia muito clara do que queria fazer em Santo André. Quando a equipa do Amarello Hotel Praia Santo André lhe perguntou, numa das primeiras conversas, o que imaginava para um restaurante naquela região, respondeu sem hesitar: cozinha portuguesa e mediterrânica com raiz no território, nos pescadores, nos produtores de proximidade. Só depois soube que estava a dizer, palavra por palavra, aquilo que o projeto procurava. O Salgo nasceu assim, de uma coincidência que não era bem uma coincidência, mas antes o fruto de uma visão partilhada sobre o que faz sentido naquele sítio concreto do mundo.
O sítio é Santo André, na Costa Alentejana. Uma faixa do litoral português que os viajantes mais atentos conhecem bem mas que, durante décadas, ficou à margem do circuito gastronómico nacional. As praias são de cortar a respiração, a natureza está entre as mais preservadas do país, a Lagoa de Santo André é um ecossistema único onde as águas doce e salgada se misturam, mas restaurantes à altura dessa paisagem escasseavam. O Salgo abre portas com a ambição explícita de mudar isso, integrado no Amarello Hotel Praia Santo André, unidade de quatro estrelas da Tapestry Collection by Hilton inaugurada no verão de 2025, mas com uma identidade gastronómica completamente autónoma.
O próprio nome é uma declaração de intenções: Salgo nasce da fusão entre “sal” e “lagoa”, as duas forças naturais que definem o território. O conceito parte de uma ideia deceptivamente simples, a cozinha que começa antes da cozinha, antes de qualquer fogo, antes de qualquer técnica, lá onde o pescador sai de manhã cedo e o produtor conhece o nome de cada vinha. Cerca de 85 por cento do produto vem de fornecedores locais. As frutas e os legumes chegam de dois produtores de Santo André. O peixe vem de uma peixeira da zona. A carne, de um talho local. Pedro Lisboa diz que prefere sempre procurar primeiro dentro da região antes de olhar para fora, e explica porquê com uma razão que vai além do discurso de chef: “Se houver uma falta de stock num domingo, sei que vão sair de casa para trabalhar e ajudar.”
Uma carta que é também uma viagem pelo território
A carta do Salgo lê-se como um percurso pela Costa Alentejana, com paragens no mar, na lagoa, na terra e na horta. As entradas chegam com cheiro a maresia: Croquetes de Choco com Maionese de Poejo, Pataniscas de Polvo e Alho Negro, Pão Alentejano de Massa Mãe e Fermentação Lenta. Os petiscos e pratos leves têm o peso certo de uma tarde de verão à beira-mar: Lulas Grelhadas com Azeite de Ervas, Berbigão à Bulhão Pato (que experimentámos e adorámos), Pica Pau de Atum com Pickles Caseiros.
Nos pratos principais, o mar continua em primeiro plano: Polvo à Lagareiro, Dourada ao Vapor com Arroz de Lima e Coentros, Peixe do Dia Grelhado. Mas a carta estende-se também ao interior, com a Carne de Porco e Amêijoas com Migas de Tomate, referência obrigatória do Alentejo, e o Bife da Vazia com Poejo e Coentros Frescos. Para quem preferir a horta, o Arroz Cremoso de Cogumelos Selvagens cumpre com a mesma seriedade.
A categoria dos pratos de conforto merece atenção especial. O Arroz Malandrinho de Tamboril e Gambas (mais do que aprovado), a Açorda de Camarão e a Vitela de Comer à Colher com Puré de Batata são pratos pensados para ser partilhados, para desacelerar, para ficar à mesa mais tempo do que estava planeado. No Alentejo, isso é quase um programa de vida.
As sobremesas fecham o círculo com a mesma coerência. A Pera Assada em Crosta de Sal, Moscatel e Queijo é a candidata mais forte a prato de assinatura (provámos e repetimos), mas a Tarte Salgo tem também as suas pretensões, e o Arroz-Doce caseiro e o Jubileu de Morango e Poejo disputam o mesmo pódio com argumentos sólidos. A carta de vinhos privilegia o Alentejo e a Península de Setúbal, com produtores de Grândola, Vila Nova de Santo André, Évora, Mértola e Alter do Chão. Os cocktails, de autor, inspiram-se no território e no Atlântico, com um especial que muda todos os dias.
Um chef de 27 anos com a cabeça no sítio certo
Pedro Lisboa, natural do Porto, descobriu a gastronomia aos 16 anos, por acaso, quando o primeiro emprego o colocou na copa de um restaurante. A partir daí, a trajetória foi construída com consistência: o Douro, uma companhia de cruzeiros francesa, o Algarve, e finalmente a Costa Alentejana, onde encontrou, nas suas próprias palavras, “um local que posso dizer que é casa também.” Essa ligação ao território manifesta-se nas escolhas concretas, no tempo dedicado a conhecer os produtores locais, na decisão de construir relações de confiança com fornecedores que “saem de casa num domingo” quando é preciso.
A cozinha que assina é técnica sem ser hermética, portuguesa sem ser nostálgica, mediterrânica sem perder o fio à terra alentejana. O objetivo declarado é criar um ponto de encontro para a comunidade, um espaço onde os locais se sintam tão bem recebidos quanto os visitantes, uma mesa que honre as pessoas que receberam o chef com abertura e generosidade. Nesse sentido, o Salgo é um projeto com uma dimensão social genuína, algo que os melhores restaurantes de território sempre tiveram.
O rooftop e a razão para ficar mais tempo
À experiência gastronómica soma-se o rooftop, com vista desafogada para o Atlântico e para a Lagoa de Santo André. A carta de cocktails do rooftop é independente e foi pensada para prolongar o dia, para passar da refeição ao pôr do sol sem que ninguém queira ir embora. A menos de cinco minutos a pé da Praia da Costa de Santo André e rodeado por uma das zonas de natureza mais bem preservadas do litoral alentejano, o Salgo tem a geografia a trabalhar a seu favor, e sabe aproveitá-la.
O que faltava na Costa Alentejana era, precisamente, isto: um restaurante com ambição, com raiz, com identidade própria, que não tivesse vergonha de ser sério mas também não se levasse demasiado a sério. O Salgo parece saber muito bem o que é. E isso, no mundo da restauração, já é mais do que metade do caminho.
Morada: Rua do Hotel, Vila Nova de Santo André
Horários: Aberto todos os dias das 12h30 às 22h30
Reservas: +351 912 521 965
info@salgo.pt | salgo.pt











