Num atelier banhado por luz natural e perfumado por memórias antigas, Lourenço Lucena compôs o perfume Fora de Série enquanto desfiava as histórias, as influências e as camadas de uma carreira pouco comum na perfumaria portuguesa. A fragrância é apenas o pretexto; o essencial está no caminho.
Fotografia: Gonçalo F. Santos
A manhã em Lisboa chega filtrada por vidros antigos. Lá fora, o bairro ainda se espreguiça, o trânsito não ganhou velocidade, o ruído é mais de passos do que de motores. Por dentro, o atelier de Lourenço Lucena recebe essa luz como um primeiro ingrediente. Instala-se sobre as bancadas de madeira, atravessa líquidos de cores translúcidas, devolve reflexos suaves dos frascos vintage resgatados de antigas farmácias. No fundo da sala, uma coluna discreta deixa sair uma faixa lenta, sem refrão óbvio, guitarra e piano em cadência contida. Não é banda sonora decorativa: é parte da maneira como Lourenço trabalha.
“Eu respiro música”, dirá mais tarde. “Acordo com ela, cozinho com ela, crio com ela.” No espaço, tudo confirma essa afirmação. Há vinis encostados a uma parede, um sistema de som de alta fidelidade e um prazer quase físico em ter som limpo a preencher o ar.
No centro do atelier, dominando a sala com uma presença silenciosa, está o órgão de perfumaria. Não é instrumento musical, mas poderia ser: uma estrutura de madeira com prateleiras em leve anfiteatro, onde se alinham frascos por famílias olfativas, como se fossem secções de uma orquestra. Citrinos num lado, madeiras noutro, florais agrupados, especiarias em bateria, gourmands mais abaixo, moléculas sintéticas e “batotas” ligeiramente afastadas, prontas para entrar apenas quando o criador decide que precisam de aparecer. Ali, cada frasco é uma nota. Cada prateleira, um andamento possível.
É nesse cenário que nasce o perfume Fora de Série. Mas antes de agarrar na primeira pipeta, Lourenço senta-se. Gosta de começar pelas perguntas.
Uma revista à mesa de um perfumista
“Se a Fora de Série fosse uma pessoa, como seria?”, pergunta, mais para fazer pensamento do que para obter uma resposta imediata. A conversa avança devagar, como se ambos estivéssemos a folhear a revista página a página, mas em voz alta.
Falamos da exigência editorial, da curadoria que afasta o ruído de fundo, dos leitores que não procuram estrondo, mas substância. Falamos do passado ligado à economia, quando era quase vista como publicação masculina, e da realidade de hoje, em que as métricas digitais revelam uma ligeira maioria de leitoras — mulheres que apreciam profundidade e tempo para ler.
A certa altura, Lourenço Lucena faz uma síntese que poderia ser briefing ou diagnóstico: “Vocês identificam o novo bom. Não o novo só porque é novo.” Toma nota mental desse ponto. A partir daí, começa a construir um mapa: frescura, mas não leviandade; solidez, mas sem rigidez; conforto, mas sem doçura excessiva; um lado feminino evidente, mas sem cair no cliché; e essa necessidade de ser uma revista que se guarda, que se revisita, que se recomenda a alguém com a frase “tens de ler isto”.
É sobre esse mapa que avança.
“Vamos por partes”, diz. “A curadoria pede uma nota com alguma ousadia, algo que acorde. A atenção ao mundo e às novidades precisa de citrinos maduros, elegantes. A solidez do projeto exige madeiras. A relação próxima que têm com os leitores pede conforto, baunilha talvez. O lado feminino pede uma flor, mas não óbvia. E como estão sempre a adaptar-se — do digital ao papel, dos artigos longos às newsletters, do site aos podcasts que estão na calha, ao que vier a seguir — faz sentido ter uma nota aquática, fluida.”
Enquanto fala, a música muda, sem que ninguém toque em nada. Um tema dá lugar a outro, o ritmo mantém-se calmo. O atelier parece afinar-se com a conversa.
Do Algarve a Paris, com uma semanada em perfumes
Antes de chegar à bancada, recua no tempo. Há uma razão para esta maneira de olhar para marcas e pessoas. A história de Lourenço Lucena é uma longa sequência de camadas sensoriais.
Cresceu entre o cheiro a iodo das praias de inverno no Algarve, a lucia-lima que cobria o muro da casa dos avós e o aroma do estrume e do couro no picadeiro onde começou a montar a cavalo. “Tenho muito presente a memória de entrar no picadeiro e sentir aquele misto de feno, pele, metal, pó. É o tipo de cheiro que nos molda sem darmos conta”, recorda.
Aos 12 anos, a semanada servia não para cromos ou guloseimas, mas para duas coisas: música e perfumes. Comprava vinis e, alternadamente, um frasco de fragrância, fascinado pela forma como um líquido invisível podia construir uma identidade. Lembra-se do primeiro aroma Yves Saint Laurent que teve, comprado numa perfumaria em Paço de Arcos com o pai — e da música que o acompanhava nessa fase. “Era como montar uma playlist de quem eu queria ser.”
Seguiu Comunicação Empresarial, depois Design Gráfico, depois uma pós-graduação em Gestão de Imagem. Trabalhou em agências, chegou a dirigir grandes contas, geriu equipas, enfrentou deadlines e reuniões atrás de reuniões. Mas algo o puxava sempre para os sentidos — não apenas para a imagem, também para o som, para o tacto, para o gosto, para o cheiro.
Numa conferência em Amesterdão, ouve uma investigadora falar do efeito de aromas em centros comerciais. Bastou combinar perfume no ar com música adequada ao público e medir o resultado: as pessoas ficavam mais tempo, exploravam mais, compravam diferente. “Voltei para Portugal obcecado com isto”, conta. A partir daí, começou a empurrar clientes e agências para o universo da multissensorialidade — e começou a criar identidades sonoras e olfativas para marcas, que foram percebendo que a experiência não se esgota no que se vê.
Ainda assim, faltava algo. “Mandava briefings para as fábricas de perfumes, esperava semanas, chegavam amostras e nada batia certo com o que eu tinha na cabeça. Em tudo o resto eu já conseguia controlar criativamente as coisas. No aroma, dependia sempre de terceiros.” A solução foi radical: aprender ele próprio a compor perfumes.
Paris foi o destino óbvio. Escreveu a escolas, pediu hipóteses. Uma diretora abriu-lhe a porta, mas com um problema logístico: “São três anos, em modo intensivo. Teria de deixar tudo e viver aqui.” Casado, com filhos, empresa, vida em Lisboa, não era opção. Em vez de desistir, foi falar com ela cara a cara. Explicou o contexto, insistiu. A escola adaptou o modelo: condensou a formação em blocos, ele passou dois anos e meio a viajar mensalmente, uma semana aqui, duas semanas de trabalho prático em casa, regressos cíclicos. “Foi uma espécie de Erasmus tardio, mas com muito mais responsabilidade.”
No final, trazia o diploma de compositor de perfumes e a entrada na Société Française des Parfumeurs, onde continua a ser o único português membro. Trazia também um outro tipo de ouvido. “A formação afina a escuta. A música sempre esteve lá, mas ganhei um nariz treinado, quase como se me tivessem dado um novo sentido.”
O órgão de perfumaria como partitura
De volta ao atelier, aproxima-se do órgão como quem se aproxima de um piano. Escolhe primeiro as notas que correspondem ao que falámos. A baunilha vem para cima da bancada. “É a minha assinatura, está praticamente em todas as composições”, admite. Explica que a baunilha verdadeira, a de fruta e vagem, não tem nada a ver com o aroma artificial fácil que tantas vezes encontramos em pastelaria industrial. “A má baunilha é quase caricatura. A boa é profunda, terrosa, complexa.”
Depois, os citrinos. Bergamota para a elegância, tangerina para a alegria mais instintiva, yuzu para a diferença. “O yuzu tem este lado de cítrico oriental, limão 2.0, digamos. É invulgar, como eu gostaria que a revista fosse percepcionada: reconhecível, mas com algo que se destaca da massa.”
Vêm as madeiras: cedro como estrutura, vetiver como raiz misteriosa, sândalo como ligação entre calor e suavidade. “O vetiver de Java é mais fumado, o do Haiti mais terroso. Escolher um ou outro faz diferença em quem o vai sentir.” O raciocínio é sempre este: que sensação queremos provocar, que história contar, que memória despertar?
Nas especiarias, detém-se entre o gengibre e o cardamomo. “O gengibre dá o tal ‘pico’ que uma curadoria precisa. Não se pode ser morno. O cardamomo é mais aromático, mas aqui talvez seja demais.” Fica o gengibre, o cardamomo recua.
Para a feminilidade discreta, flores brancas. “Não queria jasmim a dominar a sala. Prefiro uma flor branca indefinida, aquela feminilidade que se sente, mas não se anuncia. A flor de laranjeira ajuda a fazer ponte com os citrinos.”
Finalmente, a nota aquática. Uma molécula sintética de nome quase impronunciável, que traz à composição um sopro de água e ar. “Gosto da ideia de fluidez. Vocês foram digitais, voltam ao papel, querem ir para podcast; o projeto mexe-se, adapta-se. Precisava de um elemento que lembrasse isso.”
Ao ritmo destas escolhas, a música continua. Sem que ele repare, troca de álbum. Fica mais jazz, menos voz. A concentração é agora total.
A matemática invisível dos perfumes
Sobre a bancada, a folha onde vai nascer a fórmula parece, à primeira vista, apenas uma tabela de números. Mas é ali que a história se organiza. Começa a distribuir unidades: duas para a nota aquática, um certo peso para os citrinos, outro para as madeiras, espaço para o floral, lugar reservado para a baunilha. A soma tem de dar um valor que depois consegue multiplicar até chegar aos 100% finais.
“Uma fórmula pode começar em 25 e ir até 100. Se esta estiver certa, basta multiplicar”, explica, enquanto soma em voz baixa. Já lhe aconteceu chegar ao fim com 102. Nesse caso, é preciso escola e humildade: “Tens de perceber quem está a gritar mais do que devia e cortar aí. É como editar um texto.”
Conta unidades com pipetas. Uma, duas, três gotas. Limpa a ponta com cuidado. Passa ao frasco seguinte. Nova pipeta. Em paralelo, vai preparando touches: aquela espécie de tiras de papel branco que, no jargão francês, se chamam mouillettes e que em Portugal, por graça, ele insiste em tratar por touches. “Chamar-lhes tirinhas de papel tira-lhes magia”, comenta.
Convida-nos a cheirar primeiro as matérias-primas isoladas, antes da composição. A bergamota limpa o nariz; a tangerina deixa a memória de um inverno luminoso; o yuzu desperta qualquer coisa de praia distante. As flores trazem um lado íntimo, quase de roupa acabada de lavar, mas com profundidade. O gengibre pica sem agredir. O vetiver traz chão. O sândalo amacia as arestas. A baunilha, quase impercetível, dá vontade de permanecer.
Enquanto isto acontece, a coluna muda para um tema mais ritmado. O movimento dele acompanha essa mudança, sem que se dê conta. A música está entranhada no processo.
Camadas de vida, camadas de perfume
As contas prosseguem. A composição ganha uma primeira versão. Cheiramos. O cítrico está à frente. “É normal. No início, manda sempre mais. Depois acalma”, tranquiliza.
Aproveita a pausa para retomar a conversa sobre tantos outros projetos. Fala do Anticiparte, o prémio que criou para jovens artistas plásticos em Portugal, e da PROPULSARTE, a associação que fundou para os apoiar. Fala da Blug, a agência que dirige desde 2001, que lhe permite continuar ligado à estratégia e ao design enquanto a perfumaria ocupa, cada vez mais, um lugar central.
Entre projetos de branding e experiências sensoriais, desenhou identidades olfativas para o Ritz Four Seasons, para o JNcQUOI, para hotéis, restaurantes, marcas de moda, imobiliárias. Em alguns casos, os perfumes chegam a ter 82 ingredientes diferentes, como aconteceu com a composição criada para a Vanguard, resultado de três perfumes distintos inspirados em Lisboa, Comporta e Algarve, depois combinados em proporções cirúrgicas. “É quase sinfonia: tens de segurar 80 vozes e fazer com que nada desafine.”
Fala dos jantares perfumados que inventou há mais de uma década: experiências sensoriais em que escolhe um tema — uma marca, uma cidade, um país — e cria um perfume a partir desse universo. Depois, em colaboração com um chef, desenha um menu em que cada prato explora um ou dois dos aromas dominantes. Os convidados cheiram primeiro as touches, depois provam o prato e tentam identificar o que está em comum. Lisboa no Eleven, aromas de Moçambique no Polana Serena, um tributo a Vasco da Gama para a Montblanc, um Hermès à mesa no Algarve, um jantar futurista para a House of Beautiful Business — todos momentos onde música, aromas e gastronomia se cruzam em equilíbrio improvável.
“É curioso ver pessoas que nunca pensaram em cheiros a falar deles com rigor, a discutir o que é alegria em aroma, ou como se traduz elegância numa nota. A música também ajuda aí: abre espaço mental, afrouxa defesas.”
O mundo destilado e o mundo ideal
Há perguntas que só se fazem quando a confiança já se instalou. No meio do processo, arriscamos: se o mundo de hoje fosse destilado num perfume, que cheiro teria? Lourenço não hesita muito. “Cheiraria a óleo queimado, a confusão, a coisas que não combinam entre si. Seria um perfume desconfortável, com notas que não se falam, agressivo.” O riso que se segue não apaga a verdade da imagem.
E o mundo ideal? Aí, a resposta suaviza. “Cheiraria a harmonia. Notas frescas, verdes, orgânicas, ligadas à terra. Nada de excessos: nem demasiado doce, nem demasiado floral, nem demasiado cítrico. Uma coisa leve, tranquila, com raízes.” É também disso que fala quando explica o seu desejo pessoal de regresso ao essencial: ao papel depois de anos de hiper-digital, às coisas simples como uma manhã a apanhar porcini na Toscânia com um produtor local, à sensação de caminhar na floresta com uma vara de madeira como única tecnologia disponível.
Ao ouvi-lo, percebe-se que o trabalho que faz com aromas é, de certo modo, uma tentativa de recuperar essa ligação à fisicalidade — ao toque, ao cheiro, à presença.
A certa altura, inevitavelmente, a conversa chega à inteligência artificial. Fala-se de perfumes já criados com apoio algorítmico, de projetos que recorrem a IA para gerar fórmulas ou para hiperpersonalizar composições a partir da leitura da pele e do pH de cada pessoa. “Já está a acontecer e vai acontecer cada vez mais”, reconhece.
Mas não se mostra alarmado. Vê a IA como ferramenta de aceleração, não como substituto. “Pode ajudar a saltar etapas, a propor caminhos que eu não veria de imediato, a cruzar bibliotecas de dados gigantes. Mas não substitui isto que estamos a viver aqui: a conversa, o tempo, a pausa, a intuição, a leitura nas entrelinhas, o contexto emocional.”
Explica que, no seu processo, depois do briefing há sempre um manifesto olfativo. Um texto que ele próprio escreve, como resposta articulada ao que ouviu. Nesse manifesto, faz a ponte entre o que a pessoa ou marca diz que é e o que ele interpreta que seja. Só depois disso passa às matérias-primas. “É um bocadinho como trabalhar numa agência criativa: o briefing não basta, é preciso debriefing. A IA pode escrever manifestos, mas não viveu a conversa.”
Pausa. A música entra num tema mais lento. Ele sorri: “E a IA não cheira. Não sente um abraço, não sente calor de pele. Enquanto isso não for possível, teremos sempre margem.”
Preço, tempo e a coragem de se mandar fazer um perfume
A certa altura, a questão impõe-se: quanto custa ter um perfume só seu, criado de raiz por Lourenço Lucena? A resposta é franca: um processo de composição personalizado, com meses de convívio, conhecimento, idas e vindas, fica entre 17.500 e 30 mil euros, dependendo da complexidade. Esse valor inclui o tempo do perfumista, a investigação, as sessões, o estudo da personalidade, as experiências. A produção do perfume vem depois, à parte: frascos, velas, difusores, máquinas de aromatização para casa ou loja, tudo isso soma camadas adicionais.
“É um luxo no sentido literal: supérfluo, mas carregado de significado para quem o procura”, admite. Quase sempre, quem o contacta para este nível de personalização procura mais do que um cheiro exclusivo. Procura um espelho.
No caso da Fora de Série, o processo é diferente. O perfume não é para uma única pessoa, é para uma comunidade de leitores — ainda que imaginada — que partilha uma certa forma de estar. A responsabilidade, curiosamente, não é menor.
O momento em que o corpo decide
De regresso à bancada, a fórmula já passou por várias encarnações. A primeira tinha citrinos demasiado luminosos; a segunda ganhou profundidade com o chá preto; a terceira mistura duas composições anteriores, numa espécie de acorde-mestre. Entre uma e outra, Lourenço ajusta quantidades, risca, reescreve, volta a contar. Em paralelo, a música dá-lhe uma cadência mental que, de alguma forma, se infiltra no resultado final.
O conceito que partilha, talvez o mais intrigante de todos, é aquele momento físico em que sabe que acabou. Não é uma decisão cerebral. Não é olhar para a fórmula e dizer “está equilibrada”. É um impulso involuntário. “Sinto quase uma repulsa. Não é nojo, é libertação. É o corpo a afastar-se da composição, a dizer: não toques mais. Agora deixa-o ir.”
Até esse instante, tudo é hipótese. Depois dele, tudo é consequência.
Não chega a esse ponto na sessão que partilhamos. Falta um ajuste, mais tempo, talvez mais distância. E está tudo bem. “O tempo de espera também ajuda. É como uma pintura a óleo: permite ir e voltar até sentires que aquela pincelada era a última.”
Ainda assim, já há uma identidade clara. O perfume Fora de Série é, nesse momento, um conjunto de certezas provisórias. Abre fresco, com citrinos que não gritam, apenas iluminam. A seguir, evolui para madeira e chá, uma espécie de biblioteca com janela aberta. Há conforto, mas não doçura fácil. Há feminilidade, mas nada de óbvio. Há um ligeiro pico, quase um parágrafo mais acutilante na revista, que sacode o leitor da cadeira.
Ele cheira, fecha os olhos. “Vejo isto como um perfume que pode viver bem num lobby de hotel, numa redação, numa casa. É discreto, mas presente. E, sobretudo, é coerente com o que conversámos sobre a revista.”
O frasco ainda não existe, o nome ainda não foi escrito, a ficha técnica ainda está em rascunho. Mas a narrativa está lá. E é essa narrativa que importa.
Um criador entre sentidos
À saída, o sol já virou ângulo. A luz que entra no atelier é mais quente. A música mudou para outro registo, qualquer coisa entre jazz e electrónica, difícil de rotular. No ar, permanece um traço do perfume em construção, misturado com memórias de outros que ali foram feitos: o figo discreto de um hotel lisboeta, o aroma de madeira polida que pensou para um banco, o eco aromático de um jantar na Toscânia onde o menu seguia o rasto de um perfume com mel e louro.
Percebe-se, nesse instante, que a história que viemos contar não é apenas a da criação de um aroma para a Fora de Série. É a de um homem que fez da comunicação o seu terreno natural — primeiro com palavras, imagens e marcas, depois com música e arte, hoje com perfumes que são, na verdade, ensaios sensoriais sobre quem somos.
A fragrância Fora de Série será, em última análise, um flanco desse percurso. Um capítulo novo numa biografia que continua a crescer. Um cheiro que se descobre como se lê um bom texto: sem pressa, com curiosidade, sabendo que o que mais interessa está sempre numa camada abaixo da superfície.
O resto é silêncio. E uma música que continua a tocar mesmo depois de sairmos, como aqueles perfumes que só percebemos verdadeiramente quando já estamos a caminho de casa.










