Na bonita cidade de Coimbra, a Quinta das Lágrimas revisita três décadas de cozinha de autor com um menu que dialoga com a lenda de Pedro e Inês e com a herança desta casa singular.
Existem lugares que parecem ter aprendido a guardar silêncio para deixar as histórias falarem. Na Quinta das Lágrimas, esse murmúrio antigo ergue-se dos canais de água, das copas centenárias e das pedras do palacete setecentista.
Atravessar os jardins é regressar ao cenário onde se desenrolou um dos capítulos mais intensos da nossa memória coletiva: o amor proibido de D. Pedro e D. Inês de Castro, interrompido pela tragédia, perpetuado pela lenda e eternizado neste vale que se tornou metáfora de paixão e destino.
Ali, onde corre a Fonte das Lágrimas – que a tradição diz nascer das lágrimas de Inês -, o romantismo não se oferece de forma óbvia. Surge antes como um resíduo subtil, entranhado na paisagem, num verde tão profundo quanto os séculos que o moldaram. Talvez por isso este seja um dos jardins mais simbólicos de Portugal: lembra-nos que a beleza pode carregar feridas e que o tempo transforma memória em património.
Hoje, este cenário acolhe um hotel que se tornou referência internacional na hotelaria de charme. Membro da Small Luxury Hotels of the World, a Quinta das Lágrimas continua a ser, ao mesmo tempo, retiro e enigma; palco de descanso e guardiã de histórias. E é aqui que nasce o menu comemorativo dos 30 anos do restaurante Arcadas, uma viagem ao legado gastronómico desta casa.
Três décadas à mesa: o menu que honra o passado e olha para o futuro
Para assinalar o percurso do hotel e da sua cozinha, o chef Vítor Dias idealizou um menu que revisita receitas que marcaram os últimos trinta anos, reinterpretando-as com um olhar contemporâneo, mas sempre fiel à memória do lugar. Não é só uma celebração, trata-se de um gesto de continuidade: tal como a história de Pedro e Inês atravessou séculos, também esta ementa pretende atravessar gerações de cozinheiros e viajantes.
A experiência começa com uma sopa de peixe que reúne gamba do Algarve, peixe da lota e choco. Um caldo profundo, finalizado com milho crocante e algas que acrescentam textura e frescura -uma entrada que sintetiza a relação da casa com os sabores da região.
Segue-se C. L. P., prato que combina camarão, lavagante e pregado com abóbora em várias texturas e um creme de manteiga e ervas. Há algo de musical nesta composição, quase como se cada elemento ocupasse a sua própria pauta, encontrando equilíbrio num conjunto preciso e luminoso.
O momento de carne recupera um clássico da Quinta das Lágrimas: rabo de boi estufado lentamente, servido com cremoso de batata trufada, espinafres e cogumelos salteados. É um prato de profundidade e paciência, daqueles que pedem tempo, técnica e respeito pelo produto – justamente a filosofia que moldou a identidade gastronómica da casa desde os tempos de Albano Lourenço e Joachim Koerper.
A sobremesa fecha o ciclo com um ícone: leite-creme queimado tradicional, agora acompanhado por gelado de tomilho e crocante de papoila e sésamo. Uma composição delicada, que preserva a essência do original e lhe acrescenta leveza.
O menu tem o valor de 95 euros por pessoa (sem bebidas), com wine pairing por mais 35 euros . Estará disponível no Arcadas até março/abril de 2026.
Aos 30 anos, a Quinta das Lágrimas revisita o seu percurso culinário, bem como a relação íntima que construiu com Coimbra. É um espaço que vive entre a História e a contemporaneidade -discreto, sólido, atento aos detalhes. Um hotel que se prepara para celebrar, já em 2026, 700 anos de história documentada, reforçando a sua dimensão patrimonial e cultural.
Como a lenda de Pedro e Inês, que o tempo não apagou, também a cozinha do Arcadas se renova sem romper com as raízes que lhe dão sentido. E é isso que torna esta experiência tão especial: sentamo-nos à mesa para comer, mas é a história, feita de paixão e permanência, que nos recebe.
Rua António Augusto Gonçalves, Coimbra, Portugal
Reservas
Tel.: +351 239 802 380
E-mail: reservations@quintadaslagrimas.pt










