A Sogrape comprou a quinta. O Arinto já cá estava. Em Bucelas, Fernando da Cunha Guedes e Luís Cabral de Almeida explicam como se constrói um grande branco com 800 anos de vantagem.
A vinha existe desde 1218. O Arinto cresceu ali antes de ter nome. O Duque de Wellington parou naquele vale durante as invasões francesas, talvez atraído pela mesma razão que levou Shakespeare a mencionar Bucelas no seu Henrique VI: os vinhos tinham fama para lá das fronteiras portuguesas. Tudo isso é passado. O que muda com a chegada da Sogrape, em 2019, é a decisão de que esse passado não chega.
A Quinta da Romeyra ocupa cerca de metade da área vitícola de Bucelas, a única denominação de origem em Portugal exclusivamente dedicada a vinhos brancos. Uma região pequena, singular, construída sobre solos calcários e uma casta Arinto capaz de envelhecer como poucos brancos portugueses. E que esteve, durante demasiado tempo, fora do circuito.
Fernando da Cunha Guedes, Presidente da Sogrape, assumiu o projeto com a clareza de quem sabe que liderar uma quinta com aquele peso histórico obriga a mais do que preservar: obriga a reinventar sem trair. Em paralelo, Luís Cabral de Almeida, enólogo com passagem pelo Douro, Dão, Argentina e Alentejo, chegou à Romeyra em 2023 com o desafio de compreender os 22 tipos de solos mapeados na propriedade e de os traduzir em vinhos com identidade própria. O resultado mais recente é o Vinha dos Fósseis, um branco de parcela nascido de solos jurássicos com fósseis marinhos, lançado com cinco anos de evolução em garrafa, como se fazia com os grandes brancos de outros tempos.
O rebranding, a nova grafia Romeyra, o “y” devolvido à identidade original, o portfólio reorganizado do Prova Régia ao ultra-premium. Tudo aponta na mesma direção: fazer de Bucelas uma referência contemporânea nos grandes vinhos brancos portugueses. Não uma nostalgia. Um argumento.
"Estava claro que não estávamos apenas a investir numa propriedade”
Quando a Sogrape adquiriu a Quinta da Romeyra, em 2019, o que encontrou primeiro: uma propriedade vitícola com enorme potencial, um património histórico por recuperar ou uma região à espera de nova atenção?
Fernando da Cunha Guedes: Devo admitir que encontrámos algo raro e, ao mesmo tempo, um projeto que exigiu da Sogrape a ambição e o compromisso necessários para estar à altura do seu potencial. Em 2019 deparámo-nos com uma propriedade de enorme valor vitícola e histórico, mas que ainda não refletia plenamente tudo aquilo que podia representar para Bucelas e para os vinhos portugueses. Encontrámos uma quinta com mais de 800 anos de história, situada naquela que é uma das mais singulares regiões vitivinícolas do país e o berço da casta Arinto.
Mas encontrámos também uma herança que ultrapassa os limites da própria propriedade. Bucelas é uma região cuja notoriedade atravessou séculos, tendo sido celebrada por Shakespeare e apreciada pelo Duque de Wellington, figuras que ajudam a ilustrar a relevância internacional que estes vinhos já tiveram. Sendo a Quinta da Romeyra responsável por cerca de metade da área vitícola da denominação, a dimensão da responsabilidade tornou-se igualmente evidente. Estava claro que não estávamos apenas a investir numa propriedade: estávamos a assumir um papel ativo na valorização e projeção futura de uma das regiões históricas mais emblemáticas para a produção de vinhos brancos em Portugal.
A Quinta tem registos que remontam a 1218 e cruza-se com episódios relevantes da história portuguesa, incluindo ligações à monarquia britânica e às invasões francesas. Que histórias ou descobertas mais vos surpreenderam neste processo?
Fernando da Cunha Guedes: O que mais nos surpreendeu foi perceber que a história da Quinta da Romeyra é, em muitos momentos, a história da própria afirmação dos vinhos portugueses além-fronteiras. Ao aprofundarmos o conhecimento sobre a propriedade, fomos encontrando sucessivas evidências da relevância que Bucelas teve ao longo dos séculos: desde os primeiros registos históricos do Arinto ligados ao Império Romano, às referências de Shakespeare ao vinho da região na peça Henrique VI, passando pelas ligações à Coroa inglesa e pela admiração que o Duque de Wellington nutria pelos vinhos de Bucelas.
Mais do que episódios curiosos, estes momentos mostram-nos algo muito importante: Bucelas, e a Quinta da Romeyra em particular, nunca precisou de inventar uma história. A sua reputação foi construída ao longo de séculos, assente num território singular e numa casta extraordinária. Poucas propriedades em Portugal têm uma continuidade entre passado e presente tão evidente. E isso reforça a nossa convicção de que estamos perante um património que merece ser preservado e projetado para o futuro.
Como se trabalha uma propriedade com tanta memória sem a transformar num exercício nostálgico?
Fernando da Cunha Guedes: A melhor forma de respeitar a história é garantir que ela continua a ser escrita e, neste caso, saboreada. A Quinta da Romeyra não é um monumento ao passado. É um projeto vivo. A nossa responsabilidade não é preservar a quinta numa redoma, é assegurar que continua relevante daqui a cinquenta ou cem anos. Isso significa investir na vinha, compreender melhor os solos, produzir cada vez melhores vinhos e atrair novas gerações de consumidores para manter viva a reputação histórica de Bucelas. Essa visão ganha expressão também na forma como queremos abrir a quinta ao mundo. A partir do final deste ano, a Quinta da Romeyra começará a receber eventos e experiências, criando novas formas de ligação entre as pessoas, o território e os seus vinhos. O passado dá-nos legitimidade. O futuro exige-nos ação.
"O 'Y' é um detalhe discreto, mas carregado de significado”
A mudança de nome, de Romeira para Romeyra, recupera uma grafia mais antiga. O que motivou esta decisão e o que representa esse "y" na nova identidade da marca?
Fernando da Cunha Guedes: A recuperação da grafia Romeyra foi uma forma de devolver à propriedade uma parte da sua identidade original. Os primeiros registos da Quinta remontam a 1218 e, ao longo da sua história, encontram-se várias referências a esta grafia antiga. Recuperar o “y” foi uma forma de honrar esse património e reforçar a autenticidade das suas origens. É um detalhe discreto, mas carregado de significado. Representa a ligação entre mais de oito séculos de história e a ambição de projetar a Quinta da Romeyra para o futuro, num contexto em que os consumidores valorizam cada vez mais vinhos com origem, identidade e autenticidade.
A Quinta da Romeyra representa cerca de metade da área vitícola da sub-região de Bucelas. Que responsabilidade traz essa escala num território tão pequeno?
Fernando da Cunha Guedes: Deter cerca de metade da área vitícola de Bucelas traz uma enorme responsabilidade. Quando uma única propriedade tem um peso tão relevante numa denominação de origem, as decisões que tomamos têm inevitavelmente impacto no presente e no futuro de toda a região.
Na Sogrape acreditamos que liderar implica cuidar, desenvolver e valorizar os territórios onde estamos presentes. Por isso, o nosso compromisso na Quinta da Romeyra vai muito além da produção de vinhos. Passa por contribuir para a afirmação de Bucelas, pela valorização do seu património vitícola e pela construção de um futuro sustentável para a região. Encaramos esta dimensão como um dever: ajudar Bucelas a ocupar o lugar que merece entre as grandes regiões de vinhos brancos de Portugal.
Durante muito tempo, Bucelas foi uma região histórica, mas talvez pouco presente na conversa contemporânea sobre grandes vinhos portugueses. O que falta para a colocar de novo no radar?
Fernando da Cunha Guedes: Curiosamente, nunca houve uma altura tão favorável para Bucelas. Em todo o mundo assiste-se a uma crescente procura por vinhos brancos com frescura, identidade, moderação alcoólica e capacidade de envelhecimento. E isso é precisamente aquilo que Bucelas oferece há séculos. A região possui uma especialização única em Portugal: uma denominação construída em torno do Arinto, uma casta extraordinária, capaz de produzir vinhos simultaneamente vibrantes na juventude e profundamente complexos com o tempo. A Quinta da Romeyra tem aqui um papel importante a desempenhar. O desafio não é criar relevância; ela já existe. O desafio é gerar reconhecimento. Fazer com que mais consumidores, críticos e profissionais redescubram aquilo que Bucelas sempre soube fazer tão bem. A região está perfeitamente alinhada com as tendências de consumo do futuro e o seu melhor capítulo ainda está por escrever.
A casta Arinto é o grande eixo deste projeto. O que torna o Arinto de Bucelas tão distinto face a outras expressões da mesma casta no país?
Luís Cabral de Almeida: O Arinto está hoje presente em várias regiões do país. Mas Bucelas é a sua origem e continua a ser, na minha opinião, uma das suas expressões mais completas. Aqui encontramos uma combinação muito particular de clima atlântico, solos maioritariamente calcários e séculos de adaptação da casta ao território. O resultado são vinhos com uma frescura e uma tensão naturais extraordinárias, mas também com uma capacidade de envelhecimento rara. O que mais me fascina no Arinto de Bucelas é precisamente esse equilíbrio entre energia e profundidade. São vinhos que dão prazer quando jovens, mas que ganham uma dimensão verdadeiramente excecional com o tempo.
A apresentação refere cartas datadas de 1392, provenientes da Quinta, onde surgem referências à casta Arinto e à sua vindima. Que importância têm estes documentos na forma como constroem a narrativa da Romeyra?
Luís Cabral de Almeida: Do ponto de vista técnico, estes documentos demonstram, uma vez mais, que o Arinto é a casta rainha e praticamente única na região de Bucelas. Embora a legislação da denominação permita a utilização de pequenas percentagens de Esgana-Cão e Rabo de Ovelha, o Arinto é omnipresente e o verdadeiro protagonista. Esta exclusividade traz uma responsabilidade acrescida: produzir vinhos cada vez melhores, elevando a fasquia da região. O nosso grande objetivo é demonstrar essa qualidade excecional no copo e garantir que Bucelas se afirma como uma referência incontornável na conversa do setor e dos consumidores.
O Arinto é muitas vezes associado à frescura e à acidez. Que outras dimensões querem revelar através dos vinhos da Quinta da Romeyra?
Luís Cabral de Almeida: A acidez é, sem sombra de dúvida, a grande assinatura do Arinto. Mas na Quinta da Romeyra o desafio é ir mais além e dar uma nova dimensão a esta casta. Dispomos de condições naturais excecionais que nos permitem criar vinhos com uma complexidade, estrutura e tensão em boca fora de série. O portfólio desmistifica a ideia de que o vinho branco é monolítico. Desde o Prova Régia ao Vinha dos Fósseis, passando pelo Colheita, pelo Morgado de Santa Catarina e pelo espumante, oferecemos um leque que mostra uma versatilidade e um potencial de envelhecimento que o consumidor normalmente só associava aos tintos. Graças ao solo calcário e ao nosso microclima, conseguimos produzir vinhos com cerca de 12% de teor alcoólico, mas que mantêm uma maturação perfeita da uva, uma complexidade profunda e uma longevidade inigualável em Portugal.
"A história nasceu do vinho, e não o contrário"
Foi feito um estudo de microzonagem que identificou 22 tipos de solos na propriedade. O que mudou na forma de trabalhar a vinha depois desse levantamento?
Luís Cabral de Almeida: O estudo permitiu-nos conhecer a Quinta da Romeyra com um nível de detalhe que antes não existia. Mais do que identificar 22 tipos de solos, ajudou-nos a compreender o potencial de cada parcela e a tratá-la de forma cada vez mais individualizada. Hoje tomamos muitas decisões na vinha e na adega com base nesse conhecimento. O objetivo é respeitar a identidade de cada terroir e traduzir essa diferença para o vinho.
A Quinta tem uma parcela onde foram encontrados fósseis. Como aconteceu essa descoberta e em que medida ela deu origem ao vinho Vinha dos Fósseis?
Luís Cabral de Almeida: A descoberta dos fósseis foi consequência da nossa procura constante por compreender melhor a origem dos vinhos. Tudo começou na adega. Havia parcelas que, ano após ano, davam origem a vinhos com uma identidade muito própria, particularmente marcados pela tensão, frescura e precisão. Quando aprofundámos o estudo dessas vinhas, encontrámos uma forte presença de fósseis marinhos em solos calcários. Foi uma descoberta fascinante porque ajudou a explicar algo que já estávamos a observar no vinho. A história nasceu do vinho, e não o contrário. Primeiro surgiu a singularidade no copo; só depois procurámos compreender a sua origem.
Como se conta uma história tão singular, a de um vinho nascido numa vinha com fósseis, sem a reduzir a uma curiosidade de marketing?
Luís Cabral de Almeida: A melhor forma de contar essa história é através do próprio vinho. Os fósseis são um elemento fascinante porque ajudam a compreender a origem geológica daquela parcela, mas nunca foram o ponto de partida do projeto. O ponto de partida foi sempre a qualidade. Primeiro identificámos uma expressão única do Arinto. Só depois percebemos o que tornava aquele lugar tão especial. Por isso, os fósseis não são uma ferramenta de marketing. São mais uma peça para compreender um terroir excecional. No final, é sempre o vinho que tem de justificar a história.
O Vinha dos Fósseis foi apresentado como vinho de parcela e como expressão do melhor que a Quinta pode oferecer em anos excecionais. Que perfil tem este vinho e que lugar ocupará no portfólio?
Luís Cabral de Almeida: O Vinha dos Fósseis assume-se como o topo de gama do nosso portfólio. É um vinho desenhado para demonstrar uma capacidade de envelhecimento extraordinária e uma complexidade profunda, sustentadas por uma acidez vibrante que deriva diretamente dos nossos solos calcários. Partilhamos o mesmo tipo de matriz geológica que encontramos na Borgonha, a região berço dos maiores vinhos brancos do mundo. É essa identidade de solo que nos permite criar um Arinto com um carácter verdadeiramente diferenciador, marcado pela tensão e pela elegância. Para honrar este perfil e dar tempo ao vinho para se expressar, assumimos o compromisso de o lançar no mercado apenas após cinco anos de estágio em garrafa.
A Romeyra está ainda a definir o seu portfólio e a descobrir a sua identidade. Que certezas já existem e que decisões continuam em aberto?
Luís Cabral de Almeida: O caminho está traçado e as dúvidas sobre o potencial desta propriedade são poucas. Hoje temos uma certeza absoluta: a Quinta da Romeyra possui condições únicas para produzir grandes vinhos brancos a partir do Arinto, desde espumantes a brancos jovens, até vinhos com grande potencial de guarda. O trabalho desenvolvido confirmou a enorme diversidade de terroirs da propriedade e permitiu construir um portfólio que expressa essa riqueza através de diferentes estilos. Naturalmente continuaremos a aprender mais sobre a quinta ao longo do tempo. Mas a identidade do projeto está claramente definida: produzir vinhos que revelem a autenticidade de Bucelas e o extraordinário potencial do Arinto.
O Arinto de Bucelas tem reconhecida capacidade de envelhecimento. Querem afirmar a Romeyra também como produtora de grandes brancos de guarda?
Luís Cabral de Almeida: Sem dúvida. É uma das grandes ambições da Quinta da Romeyra. O Arinto de Bucelas tem uma capacidade de envelhecimento reconhecida há séculos e acreditamos que existe ainda muito potencial por explorar. Vinhos como o Vinha dos Fósseis são a demonstração dessa visão. Queremos criar vinhos que não sejam apenas apreciados na juventude, mas que evoluam e ganhem complexidade ao longo dos anos. Quando falamos dos grandes vinhos brancos do mundo, a capacidade de envelhecimento é uma característica fundamental. Bucelas tem todas as condições para participar nessa conversa.
A adega tem vindo a ser modernizada, mantendo elementos como barricas e tonéis de carvalho francês. Como equilibram precisão técnica, respeito pelo lugar e carácter artesanal?
Luis Cabral de Almeida: Os melhores vinhos nascem normalmente do equilíbrio entre tradição e inovação. A tecnologia ajuda-nos a compreender melhor a uva e a preservar a identidade de cada parcela. Mas decisões há que continuam a depender da experiência, da sensibilidade e do conhecimento acumulado ao longo dos anos. O nosso trabalho consiste precisamente em encontrar esse equilíbrio: usar toda a precisão técnica disponível sem perder o carácter humano que dá identidade ao vinho.
Que papel poderá ter a Quinta da Romeyra na valorização de Bucelas, tanto junto do consumidor português como nos mercados internacionais?
Fernando da Cunha Guedes: A Quinta da Romeyra pode desempenhar um papel muito importante na valorização de Bucelas, pela sua dimensão e pela capacidade de atrair atenção para a região. O investimento que estamos a fazer tem a ambição de afirmar a Romeyra como uma referência nos grandes vinhos brancos portugueses e contribuir para que Bucelas recupere a notoriedade que historicamente teve. As grandes regiões vitivinícolas afirmam-se quando conseguem oferecer uma experiência completa do seu território. Nesse contexto, os eventos que iremos receber na quinta podem desempenhar um papel muito relevante, dando visibilidade aos vinhos, à história e à singularidade da casta Arinto. Quanto mais pessoas visitarem a região e contactarem diretamente com a sua identidade, maior será o reconhecimento, em Portugal e além-fronteiras. As grandes marcas ajudam a construir grandes regiões.
Quando imaginam a Romeyra dentro de dez anos, que lugar gostariam que ocupasse nos vinhos portugueses?
Fernando da Cunha Guedes: Gostaríamos que a Quinta da Romeyra fosse reconhecida como uma das grandes referências dos vinhos brancos portugueses e, idealmente, como uma referência internacional para quem procura vinhos de origem, autenticidade e longevidade. Mas, mais do que o reconhecimento da marca, gostávamos que Bucelas ocupasse novamente o lugar que merece no panorama vitivinícola nacional e internacional. Se daqui a dez anos mais consumidores, críticos e profissionais falarem naturalmente de Bucelas quando discutem grandes vinhos brancos do mundo, sentiremos que cumprimos a nossa missão.
Prova Régia | 100% Arinto DOC Bucelas
Quinta da Romeyra Colheita 2025 | 100% Arinto DOC Bucelas
Espumante Quinta da Romeyra Bruto | 100% Arinto, Método Clássico
Morgado de Santa Catherina Reserva | 100% Arinto DOC Bucelas
Vinha dos Fósseis 2021 | 100% Arinto DOC Bucelas | lançamento com 5 anos de garrafa











