Viajar melhor já não é só viajar com mais conforto. É viajar com menos fricção, menos espera e mais tempo recuperado. Manoel Suhet, da bTd Travel & Jets, explica como a IA está a redesenhar a fronteira entre aviação comercial e privada.
Viajar com conforto continua a ser importante. Viajar sem fricção tornou-se essencial. É nesta deslocação subtil que o luxo nas viagens começou a mudar de linguagem. O desconforto raramente está onde se pensa. Nas viagens de gama alta, deixou há muito de estar no assento ou no serviço de bordo. Está antes dele: na espera, no processo, na soma de pequenas fricções que consomem horas a quem menos as pode desperdiçar. Filas, balcões, verificações repetidas, tempos mortos disfarçados de normalidade.
Para Manoel Suhet, fundador e CEO da bTd Travel & Jets, é aqui que o luxo contemporâneo revela as suas falhas. “O viajante de luxo mudou radicalmente”, afirma. Viaja mais, cruza continentes com naturalidade, alterna compromissos profissionais e pessoais sem fronteiras óbvias. E deixou de aceitar que o preço pago não se traduza em fluidez. “Hoje não procura apenas conforto; procura tempo, eficiência, personalização e impacto positivo”, explica à Fora de Série.
A contradição é conhecida. As cabines premium evoluíram, os materiais melhoraram, o serviço afinou. Em terra, porém, tudo continua praticamente igual. “A qualidade das business e first class melhorou, mas a experiência do aeroporto é a mesma.” Daí a frase que atravessa toda a conversa: “o maior ativo do viajante de luxo não é o dinheiro. É o tempo.”
“A IA não substitui o toque humano; amplifica-o”
Na bTd, a inteligência artificial não entra como promessa futurista nem como ornamento tecnológico. Funciona como infraestrutura invisível. “A Inteligência Artificial não chega para substituir o toque humano; chega para ampliar o que o humano faz melhor.”
É ela que analisa milhões de variáveis em segundos, cruza disponibilidade, tarifas, históricos, emissões, fornecedores e documentação. Um volume de informação impossível de gerir apenas com experiência acumulada. Quando o sistema estabiliza a complexidade, entra o humano. Não para repetir dados, mas para interpretar contextos, ler culturas, perceber dinâmicas familiares ou profissionais e ajustar decisões sensíveis.
É neste equilíbrio que surge a Bella, a agente de IA da bTd, desenvolvida nos EUA e já em testes avançados. Reconhece o cliente via WhatsApp, consulta o histórico, identifica preferências e constrói itinerários completos em segundos. Voos comerciais, hotéis, jatos privados, transfers, restaurantes, alterações de última hora. Tudo num único fluxo. Sem plataformas paralelas. Sem chamadas redundantes. A tecnologia faz o pesado. O humano dá sentido.
“Private-share será para a próxima década o que o codeshare foi para os anos 90”
O conceito que dá título a esta conversa nasce de um dado pouco discutido: cerca de 40% dos jatos privados fretados voam vazios. Aviões em reposicionamento, emissões sem passageiros, tempo desperdiçado. A partir desta realidade, a bTd criou um sistema capaz de ligar esses lugares ociosos a passageiros que já viajam em executiva ou primeira classe.
O que antes parecia incompatível começa a tornar-se operacional. A IA permite prever reposicionamentos, integrar operadores privados, automatizar segurança e documentação e sugerir pricing em tempo real. Surge assim um terceiro território na aviação, híbrido, entre o comercial e o privado, pensado para maximizar conforto e, sobretudo, tempo.
“Se um cliente pode ganhar quatro a seis horas numa viagem internacional apenas evitando o aeroporto, isso muda completamente a equação”, sublinha Suhet. O impacto não é apenas individual. As companhias aéreas passam a poder oferecer um produto ultra-premium sem operar jatos. Os operadores privados reduzem a ociosidade e aumentam receita. O sistema torna-se mais eficiente.
Nos Estados Unidos, esta convergência já deixou de ser teórica. A aquisição da Wheels Up pela Delta ou os investimentos em eVTOLs mostram que as fronteiras estão a esbater-se. “O private-share será para a próxima década o que o codeshare foi para os anos 90”, antecipa.
“Eficiência antes de compensação”
A sustentabilidade entra nesta equação sem retórica. “Eficiência antes de compensação.” Reduzir voos vazios significa reduzir emissões reais. O sistema da bTd calcula automaticamente o CO₂ por itinerário, permite compensação imediata via parceiros certificados e já contribuiu para mais de 90 toneladas métricas de CO₂ compensadas em empty legs e empty seats optimizados.
Não se trata de moralizar a viagem premium, mas de a desenhar melhor. A empresa prepara-se para integrar eVTOLs e outras soluções de mobilidade de baixo impacto, numa lógica de ecossistema que privilegia eficiência estrutural.
Mesmo num segmento onde o preço não é central, a poupança existe. Mas assume outra forma. “Para o viajante de alta renda, poupar não é gastar menos. É gastar melhor.” Menos redundâncias, menos decisões mal sincronizadas, menos desperdício invisível. E, acima de tudo, mais tempo devolvido.
“A viagem torna-se um organismo vivo”
Quando fala do futuro, Suhet não descreve luxo ostensivo nem gadgets deslumbrantes. Fala de desaparecimento. Da logística, das etapas intermédias, do atrito acumulado. Reservas feitas por voz, texto ou imagem. Reorganização automática em caso de atraso. Malas recolhidas em casa e entregues no hotel. Check-ins invisíveis. Quartos que reconhecem o hóspede.
“A viagem torna-se um organismo vivo, que se adapta sozinho.” A tecnologia passa para segundo plano. O viajante volta ao centro. A experiência torna-se fluida, inteligente, sustentável e, paradoxalmente, mais humana, porque tudo o que distrai deixa de existir.
Talvez seja esta a definição mais honesta de luxo em movimento. Menos coreografia. Menos ruído. Mais tempo. E uma nova forma de chegar lá.






