Seis doutorandos de Oxford, um circuito na Suécia e a ambição de transformar emoção em dados. A Polestar quer provar que o prazer de condução existe – e que a ciência consegue comprová-lo.
Sentir um carro. Essa frase tão usada pelos entusiastas do automóvel, tantas vezes associada ao rugido de um motor a combustão, ao cheiro a gasolina, à vibração que sobe pela coluna de direção – sempre foi território da subjetividade, do intraduzível, do gosto pessoal. Pois bem: a Polestar decidiu atacar esse território com o rigor de um laboratório. Em parceria com o SDG Impact Lab da Universidade de Oxford, a marca sueca de veículos elétricos de performance lançou um estudo-piloto com um objetivo tão ambicioso quanto desconcertante – demonstrar que o prazer de condução pode ser definido e quantificado através de sinais mensuráveis no cérebro e no corpo.
A pergunta não é retórica. E a resposta, se for encontrada, pode mudar para sempre a forma como os engenheiros desenvolvem os automóveis do futuro. Uma iniciativa que é, ao mesmo tempo, um exercício de posicionamento de marca e uma aposta científica genuína. A Polestar não se limitou a financiar uma investigação académica que ficará guardada numa gaveta de Oxford. Montou uma equipa multidisciplinar de seis Innovation Fellows – doutorando nas áreas da Engenharia e da Psicologia Experimental -, apoiada por académicos sénior da universidade, e colocou-a a trabalhar em conjunto com os seus próprios engenheiros. O cruzamento entre o rigor académico e a expertise automóvel passou a ser estrutural.
Quando o motor cala, o que fica?
A questão de fundo que este projeto tenta responder é mais incómoda do que parece à primeira vista. Durante décadas, o prazer de condução esteve ancorado em estímulos sensoriais muito concretos: o som do motor a subir de rotações, o cheiro dos travões a trabalhar no limite, o ronco grave de um V8 em plena aceleração. Com a eletrificação, esses estímulos – que eram simultaneamente performativos e emocionais – desapareceram ou transformaram-se radicalmente. O silêncio dos veículos elétricos, que muitos celebraram como virtude, deixou exposta uma lacuna emocional que a indústria ainda não sabe, ao certo, como preencher.
É nesse vácuo que a Polestar se posiciona. A aceleração em linha reta – o 0 a 100 km/h que dominou décadas de comunicação automóvel – está a tornar-se uma métrica cada vez mais irrelevante num mundo em que praticamente qualquer veículo elétrico de gama média é capaz de deixar para trás um desportivo a combustão dos anos 90. O que distingue, então, um carro que se conduz com prazer de um que apenas transporta pessoas do ponto A ao ponto B? A Polestar e Oxford acreditam que a resposta está no cérebro – literalmente.
O estudo vai monitorizar as respostas fisiológicas, cognitivas e comportamentais de condutores ao volante de um Polestar de alta performance, cruzando dados de atividade cerebral com informação biométrica e comportamental. A ambição: determinar se as sensações associadas à excitação de conduzir são observáveis, analisáveis e quantificáveis. Dito de outra forma – perceber se “sentir um carro” tem uma assinatura neurológica identificável.
A ciência ao volante de um Polestar 5
O veículo escolhido para os testes não é aleatório. O Polestar 5 – o Gran Turismo de quatro portas que representa o produto mais focado em performance que a marca alguma vez lançou – é o laboratório em movimento deste estudo. Construído sobre a Polestar Performance Architecture, em alumínio para reduzir o peso e afinar as respostas dinâmicas, o Polestar 5 foi desenvolvido com sistemas específicos de controlo de tração, suspensão, travagem e pneus pensados para criar uma experiência de condução distinta. É, por outras palavras, o argumento físico de que a performance elétrica pode ser outra coisa que não velocidade bruta.
Os testes em circuito decorrem em junho de 2026 no Gotland Ring, na Suécia. O estudo tem duração definida – até 31 de julho de 2026 – e os resultados estão previstos para o outono, numa apresentação formal na Universidade de Oxford. Paralelamente, a Polestar vai documentar o processo através de uma série de conteúdos em quatro partes, prevista para o terceiro trimestre deste ano.
Christian Samson, Head of Product Attributes da Polestar, não esconde as implicações práticas do projeto: os dados recolhidos poderão ser integrados diretamente no trabalho das equipas de engenharia, como uma camada adicional no aperfeiçoamento da dinâmica e dos atributos de performance dos seus automóveis. Ou seja, se a ciência confirmar que determinadas configurações de suspensão ou de resposta do acelerador ativam os circuitos cerebrais do prazer de forma mais intensa, essa informação entra no processo de desenvolvimento. A emoção torna-se, assim, um parâmetro de engenharia.
Do lado de Oxford, o Professor Alexander Betts, Pro-Vice-Chancellor e co-fundador do SDG Impact Lab, sublinha a dimensão de impacto real que esta parceria representa. O SDG Impact Lab – criado em 2021 com a convicção de que os doutoramentos de Oxford devem contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas – encontrou na Polestar um parceiro que combina a dimensão da inovação tecnológica com um compromisso declarado com a sustentabilidade. A marca sueca tem metas públicas e ambiciosas: reduzir para metade as emissões de gases de efeito de estufa por veículo vendido até 2030 e atingir a neutralidade carbónica em toda a cadeia de valor até 2040.
Medir o indizível
A investigação que a Polestar e Oxford se propõem fazer é uma tentativa de tornar mensurável aquilo que os apaixonados por automóveis sempre disseram ser impossível de explicar a quem não sente. Essa é, simultaneamente, a sua força e o seu risco. O prazer de condução é uma experiência subjetiva, moldada por contexto, memória, expectativa, disposição do momento. Pode a ciência capturá-la com elétrodos e sensores biométricos?
A hipótese de trabalho da equipa de Oxford é que sim – ou, pelo menos, que é possível identificar padrões neurofisiológicos consistentes que correspondam ao que os condutores descrevem como prazer, envolvimento, entusiasmo. Se esses padrões existirem e forem replicáveis, a consequência é transformadora: a indústria automóvel passaria a ter uma ferramenta objetiva para avaliar e otimizar uma dimensão que, até agora, dependia de focus groups, testes de condução e intuição dos engenheiros.
Para a Polestar, o que está em jogo é ainda mais específico. A marca precisa de provar que a eletrificação não mata o prazer de condução – transforma-o. Que o silêncio pode ser tão intenso quanto o rugido. Que a resposta instantânea de um motor elétrico, a forma como o torque chega sem preparação e sem hesitação, cria uma experiência cognitiva e emocional diferente, mas igualmente válida e potencialmente superior. E que essa diferença pode ser medida, demonstrada, comunicada com a autoridade de uma publicação científica de Oxford.
É uma jogada inteligente num mercado em que a guerra das especificações técnicas perdeu muito do seu poder de sedução. Enquanto os concorrentes continuam a disputar cavalos e kilowatts, a Polestar está a disputar neurónios. O campo de batalha mudou. E parece que o prazer, afinal, tem coordenadas.






