No Polémico, em Lisboa, a criatividade não vem embrulhada em discurso nem em solenidade. Vem em pratos pensados para partilhar, num ambiente descontraído, onde a cozinha de autor se leva a sério apenas no que importa: o sabor.
Não há segredos milagrosos. Há método, instinto e uma boa dose de irreverência bem afinada. No Polémico, a receita é simples. Convém seguir os passos, mas sem medo de provar pelo caminho.
Não porque abdique de técnica ou ambição, mas porque escolheu outro caminho: o do fun dining, onde a comida de autor se cruza com prazer imediato, informalidade e vontade de voltar. A mesa é pensada para partilhar, os pratos circulam, os comentários também. Se fosse uma receita, esta seria simples na forma e exigente na execução.
Ingredientes
Comece por juntar 100 gramas de chef criativo, ainda jovem, mas já com mão segura. Aqui chama-se António Lobo Xavier. Tem pouco mais de vinte anos, formação feita fora, passagens por cozinhas exigentes e uma clareza rara sobre o que quer cozinhar. Cresceu rodeado de comida, produz vinho verde na quinta da família e traz esse lado direto, quase agrícola, para a forma como pensa os pratos. A técnica está lá. A vontade de impressionar pelo excesso, não.
Acrescente uma equipa jovem q.b., coesa, curiosa, pouco interessada em hierarquias rígidas. O Polémico nasce da vontade de vários sócios da mesma geração, todos envolvidos no projeto, todos com margem para testar ideias e mudar de rumo. Mexa até obter um ambiente onde se afina mais do que se impõe.
Incorpore uma base sólida de cozinha de autor, mas recuse o discurso pesado. Aqui a criatividade não se traduz em pratos que pedem legenda nem em construções artificiais. Traduz-se em decisões. Tempere tudo com uma colher generosa de descomplexo. Sem este ingrediente, nada liga.
Preparação
Leve a lume médio num espaço amplo, confortável, sem teatralidade. A sala do Polémico não pede silêncio nem reverência. A decoração é clean, contemporânea, funcional. Não distrai. Não pesa. As mesas convidam à conversa e à partilha, ao gesto espontâneo de pedir “vamos provar isto juntos”.
Enquanto isso, envolva lentamente o ambiente. O serviço ajuda. Há atenção, conhecimento e simpatia natural. Explicam quando faz sentido, recomendam sem empurrar, percebem quando devem dar espaço. O ritmo é solto, como convém a um restaurante que fala fluentemente a linguagem do fun dining, mesmo quando não a escreve em lado nenhum.
Deixe a carta mudar com as estações. Nada de menus fossilizados. Aqui, a ementa renova-se com frequência, obrigando a cozinha a manter-se desperta e o cliente curioso. Prove. Ajuste. Volte a provar.
Finalização
Retire do lume e concentre-se no essencial: os pratos.
No Polémico, há uma entrada que merece memória própria: o tártaro de novilho com nori estaladiço. A carne chega limpa, bem cortada, magistralmente temperada, no ponto certo. Mas é o nori que faz o golpe final. Finíssimo, crocante, salino, estala nos dentes e transforma completamente o prato. Um contraste feliz, inteligente, viciante. Daqueles que fazem pensar, sem exagero, que se jantaria vinte doses daquilo sem qualquer resistência.
A partir daí, a carta mantém coerência. Os pastéis de massa tenra de berbigão com aioli de coentros são perigosamente fáceis de comer e ideais para partilhar. O arroz de forno com lula traz conforto e profundidade, daqueles pratos que pedem silêncio no primeiro garfo e conversa logo a seguir. A fraldinha, tratada com respeito e sem adornos inúteis, confirma que aqui o sabor manda.
Nas sobremesas, nada de finais preguiçosos. A releitura do bolo de bolacha joga com memória e técnica, sem cair na nostalgia fácil. Fecha o jantar com critério.
Tudo isto servido por uma equipa que gosta do que faz e sabe disso. A criatividade está lá, evidente. Mas nunca atropela o sabor. E essa escolha, hoje, é tudo menos óbvia.
Empratamento
No final, coloca-se no centro do prato o reconhecimento que ajuda a confirmar o percurso: o Polémico venceu o People’s Choice Award dos TheFork Awards 2025, eleito pelo público como uma das aberturas mais relevantes do ano. Um prémio atribuído por quem lá vai, por quem partilha pratos, por quem volta.
Não muda a receita. Confirma-a.
Morada: Rua do Sol ao Rato nº61A, Lisboa
Contacto: +351 937 007 750
Horário: Terça a quinta, 19h30–00h00; Sexta e sábado, 19h30–01h00; Encerra domingo e segunda


















