No Palácio do Governador, o Po Tat apresenta uma cozinha de aventura que cruza Portugal e a Ásia. Uma carta que privilegia o produto local e convida a viajar pelos sabores da memória.
Belém, ponto de partida das grandes viagens marítimas, guarda no lugar onde hoje se ergue o Palácio do Governador a memória de séculos de descobertas. Dali partiram navegadores em direção ao desconhecido; hoje, é também daqui que se inicia uma nova travessia, agora pelo prato. No Po Tat, a cozinha assume-se como território de encontros e reinvenções, cruzando a alma portuguesa com sabores pan-asiáticos numa interpretação contemporânea das antigas rotas comerciais.
O nome do restaurante é também um manifesto. Po Tat é a tarte de ovos chinesa popular em Macau, inspirada no pastel de nata português — símbolo perfeito da ponte cultural entre Oriente e Ocidente. Inaugurado em 2024, o espaço reflete esse espírito híbrido e celebratório: cada prato conta uma história, cada refeição é uma viagem.
À frente da cozinha está o chef André Santos, acompanhado pelo sous-chef Manuel Maria, que acompanhou a visita da Fora de Série e descreveu o conceito como um triângulo de três vértices: produto português, inspiração pan-asiática e na epopeia dos Descobrimentos. “Nenhum tem mais valor do que outro, embora o produto português seja sempre o primeiro ponto de partida”, explica. Uma síntese que se sente em cada criação, onde ingredientes locais ganham nova vida através de técnicas e referências do Oriente.
Do rissol de lula ao parfait de manga: sabores que contam histórias
A experiência começa logo no couvert, com pão de massa mãe servido com manteiga temperada com sal, mel e especiarias asiáticas — um encontro imediato entre tradição e exotismo. Nos snacks, a gamba da costa curada com gaspacho de coco e lima abre caminho para frescura e leveza, enquanto os Rissóis de lula e berbigão à Bulhão Pato chegam bem quentes, revelando intensidade no recheio e um toque cítrico de lima que eleva o clássico português a outra dimensão.
Nas entradas, o Tiradito de lírio, cenoura fermentada e miso branco é intrigante e exótico, cruzando sabor e textura num prato que transporta de imediato para a Ásia. Já os Cogumelos ostra grelhados com inhame e amendoim, proposta vegan e um dos best sellers da casa, surpreendem pela riqueza de camadas e profundidade — um prato que não precisa de concessões para ser memorável. E talvez por isso tenha lugar-cativo na carta.
Entre os pratos principais, o Tamboril maturado com couve grelhada destaca-se pela suculência e pelo equilíbrio de texturas, enquanto o Caril verde de camarão com noodles de trigo sarraceno ou o Bibimbap de barriga de porco com feijão de soja e gochujang dão voz à diversidade da carta, que não se limita a um país ou estilo, mas a todo um território de encontros.
As sobremesas prolongam a viagem. O Parfait de manga e curcuma com merengue de yuzu e gelado de arroz negro conjuga leveza tropical com frescura cítrica, equilibrando acidez e doçura de forma inesperada. Já a Mousse de trigo sarraceno e amaranto, iogurte e caramelo de café é menos fotogénica, mas absolutamente surpreendente no paladar: um exemplo de sustentabilidade e criatividade ao transformar ingredientes comuns em final sofisticado.
E, no final, como cortesia, chega à mesa um estaladiço e ainda morno “Po Tat” — o pastel de nata reinventado que dá nome ao restaurante, lembrando a cada cliente a raiz cultural deste projeto.
O cenário reforça o conceito: inspirado nos oceanos e nos encontros culturais que moldaram séculos de história, o ambiente do Po Tat evoca mapas, travessias e descobertas, com salas que preservam a identidade do Palácio do Governador e uma esplanada que se abre às noites longas de verão. O Po Tat é uma experiência cultural e sensorial. Um lugar onde o produto português é celebrado em diálogo com a Ásia, num gesto que honra a memória e projeta a cozinha para o futuro.
Palácio do Governador — R. Bartolomeu Dias nº117, Lisboa
Tel.: 963 637 239
E-mail: reservations@potatrestaurant.com
Aberto todos os dias, das 19h30 às 22h30



















