Para assinalar uma década de portas abertas, o Palácio Chiado recupera algumas das entradas e pratos principais mais marcantes da sua história. Até dezembro, um regresso por mês reconta, à mesa, a evolução gastronómica da casa.
Dez anos depois de abrir portas, o Palácio Chiado regressa aos pratos que ajudaram a definir o seu percurso. Não como exercício de nostalgia, mas como uma leitura do que resistiu ao tempo, ao ritmo da cidade e às mudanças de conceito dentro da própria casa.
Ao longo desta década, o espaço construiu uma identidade que vai além da imponência do edifício ou da localização privilegiada. A consistência da proposta gastronómica, aliada a uma certa ideia de experiência, permitiu-lhe manter relevância num cenário onde a novidade tende a sobrepor-se à memória.
No ano em que assinala dez anos de atividade, o espaço escolhe revisitar essa trajetória a partir daquilo que melhor a conta: os pratos que ficaram. Depois de uma primeira iniciativa comemorativa com visitas temáticas conduzidas pelo investigador e professor André Ferreira, o Palácio Chiado avança agora com um novo capítulo da celebração. De março a dezembro, regressam à carta dez entradas e dez pratos principais que marcaram o percurso do restaurante, apresentados ao ritmo de uma entrada e um prato por mês.
Em vez de transformar o aniversário num desfile de best sellers, a casa opta por uma leitura mais cuidada do seu próprio arquivo gastronómico. O passado regressa, sim, mas filtrado pelo presente e pela linguagem atual da cozinha.
Um endereço que mudou sem perder a cena
A história do Palácio Chiado explica parte do seu lugar na cidade. Quando abriu portas, o conceito assentava num modelo de food court com sete propostas distintas, fórmula que lhe permitiu captar públicos variados e afirmar-se rapidamente como ponto de encontro. Com o tempo, o espaço foi-se reconfigurando até assumir plenamente a identidade de restaurante em nome próprio, consolidando uma assinatura mais coerente e uma experiência mais integrada.
Esse percurso não apagou o essencial. O Palácio Chiado continua a distinguir-se por uma combinação distintiva em Lisboa: património histórico, escala cénica e uma ambição gastronómica suficientemente sólida para não viver apenas da fotogenia da morada. Num edifício onde a arquitetura impõe presença, a cozinha foi encontrando a sua forma de não ficar reduzida a figurante.
Talvez seja por isso que esta revisão de pratos faça sentido neste momento. Ao recuperar criações que se tornaram notáveis pela popularidade ou pelo tempo que permaneceram no menu, o restaurante faz também uma espécie de inventário emocional da sua própria evolução. Não se trata apenas de repetir receitas que funcionaram. Trata-se de reconhecer que, num espaço com vida longa, certos pratos passam a ser referências internas, memórias partilhadas, pequenos marcos de fidelização.
Uma década contada a partir daquilo que se serve
O arranque desta série comemorativa fez-se sob o signo da carne. Para março, o chef André Pinto escolheu evocar alguns dos pratos mais memoráveis desta família gastronómica, propondo uma dupla que cruza familiaridade e atualização técnica.
À entrada surgiu um bife tártaro com mousse de foie gras e pão sourdough. A combinação joga com códigos clássicos de indulgência e precisão, convocando frescura, untuosidade e uma certa ideia de conforto elegante. No prato principal, a escolha recai sobre uma terrine de rabo de boi com puré de cenoura e laranja, molho hoisin, mini milho e pickle de nabo. A composição aponta para uma base francesa, mas abre-se a notas mais contemporâneas e internacionais, numa construção pensada para trabalhar profundidade, acidez e contraste.
O próprio André Pinto enquadra esta primeira etapa da iniciativa como um regresso às carnes que ajudaram a desenhar a identidade da casa desde o primeiro dia. “As sugestões comemorativas dos 10 anos, em Março, foram influenciadas pelos diferentes pratos de carnes presente nos menus desde o primeiro dia. O Rabo de Boi, considerado um verdadeiro best seller, surge aqui com uma nova abordagem. Como entrada, fiz a minha versão de um tártaro de novilho, reforçando essa ligação à tradição gastronómica que marca a identidade do espaço”, explica o chef.
Rever o que resistiu ao tempo, perceber o que ficou na memória dos clientes e devolver esses pratos à mesa, um a um, é também uma forma de afirmar consistência. Numa cidade que muda depressa e onde tantos conceitos aparecem e desaparecem com o entusiasmo de uma abertura e a resistência de um story patrocinado, dez anos já dizem bastante. No caso do Palácio Chiado, dizem sobretudo que o lugar conseguiu manter relevância sem abdicar da sua dimensão cénica.
As celebrações dos dez anos não ficam por aqui. Esta é a segunda ação anunciada para o aniversário do edifício histórico da Baixa lisboeta, com novas iniciativas prometidas para os próximos meses. Até lá, a mesa vai sendo o palco principal desta revisitação, prato a prato, mês a mês, como convém a uma casa que escolheu contar a sua história com apetite.
Morada: Rua do Alecrim, n.º 70, Lisboa
Tel.: 210 101 184
Email: geral@palaciochiado.pt
Horário: domingo a quarta, das 12h30 às 00h00; quinta a sábado, das 12h30 às 02h00.












