Na Baixa de Lisboa, o chef nepalês Hari Chapagain serve pratos com três reconhecimentos em 2026: Michelin, Repsol e AHRESP. E as melhores chamuças que já provámos.
A primeira dentada diz tudo. A massa quebra com aquele estalo preciso que separa uma chamuça bem-feita de tudo o resto – crocante sem ser seca, com um interior de frango picado e especiarias que não picam, mas que ficam. E depois há o molho de hortelã: fresco, aromático, com aquela leveza que limpa o palato e convida à próxima garfada. Foi nesse momento, numa mesa do Oven, no número 232 da Rua dos Fanqueiros, em plena Baixa de Lisboa, que percebemos que estávamos perante qualquer coisa diferente. Diferente do que se espera quando se entra num restaurante com carta nepalesa e indiana. Diferente, até, do que Lisboa habituou a considerar cozinha de qualidade neste registo.
O Oven abriu em 2021 e em cinco anos construiu uma narrativa sólida: a de um restaurante que não cedeu à facilidade da fusão decorativa nem ao exotismo como argumento de venda. O chef Hari Chapagain, nascido no Nepal, criado entre memórias de uma família com raízes profundas nas tradições gastronómicas do subcontinente e com passagem por cozinhas de Espanha e de Lisboa antes de abrir o seu próprio espaço, quis fazer uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo: cozinhar bem. Com rigor, com identidade, com o respeito absoluto pelas origens de cada prato.
O resultado está à vista – e reconhecido por quem sabe. Em 2026, o Guia Michelin incluiu o Oven pela segunda vez consecutiva, o Guia Repsol validou a proposta, e, em junho, a AHRESP distinguiu Hari Chapagain com o prémio de Jovem Empresário, entregue no Casino do Estoril. Três reconhecimentos no mesmo ano, para um restaurante com trinta lugares sentados e uma equipa 100% nepalesa.
O forno que deu nome a tudo
O tandoor está ali, à vista de quem entra. Não escondido numa cozinha fechada, não tratado como mero equipamento operacional – mas como protagonista da sala, construído por medida em cobre e cerâmica, encomendado a um artesão em Nova Deli por Hari Chapagain antes sequer de ter as chaves do espaço. A história da encomenda – 400 euros enviados a um artesão desconhecido, um croqui desenhado à mão, uma viagem de 40 mil quilómetros até Lisboa – é o tipo de detalhe fundador que define a intenção de um projeto. Aqui não se cozinha “ao estilo de”. Cozinha-se com os instrumentos certos, nas temperaturas certas, com as especiarias que Hari vai buscar ele próprio ao Nepal em cada viagem ao país natal, das planícies de Terai aos picos dos Himalaias.
É do tandoor que saem os grelhados mais pedidos da casa: o Pahadi Chicken Sekuwa – frango marinado com ervas e especiarias das regiões montanhosas do Nepal – o Rack of Lamb Chop, o Tawa Fish, um robalo marinado e cozinhado na chapa que não tem nada de aparatoso e tudo de preciso. A textura fumada, o aroma das ervas, a suculência da carne que passou pelo calor intenso mas não perdeu os seus sucos – são estas as marcas de uma cozinha que domina o método antes de o exibir.
A carta divide-se em entradas, grelhados e pratos do chef – com clássicos como o Goat Curry, o Bhutuwa, o Majhikuna Fish Curry de inspiração numa aldeia rural do Nepal, e o Lagoon Jhinge Khichadi, que cruza camarão da costa de Moçambique com lentilhas pretas do Nepal. Mas voltemos ao início: às Chicken Samosas – chamuças, em bom português – que abriram e fecharam a nossa refeição, porque no final não resistimos a repeti-las, para prolongar na boca o sabor que as tinha inaugurado.
Uma refeição com nome e apelido
Quem nos guiou pela carta foi o Prabin. Mas dizer que nos guiou pela carta é redutor: o Prabin guiou-nos pela cultura nepalesa, com a generosidade de quem tem muito para contar e genuíno prazer em fazê-lo. Foi ele quem nos encaminhou para os Mo:Mo como entrada obrigatória – os dumplings tradicionais nepaleses, recheados com galinha e especiarias, servidos com um molho de tomate e sésamo com profundidade suficiente para segurar o prato sozinho. “São muito nepaleses”, disse. E são, de facto, uma das propostas mais representativas do que o Oven defende: autenticidade sem concessões ao gosto médio.
A recomendação estendeu-se às cervejas locais – e foi mais uma descoberta acertada. A Cobra, em particular, revelou-se uma companhia perfeita para os sabores da mesa: fresca, com aquele amargor contido que equilibra bem a intensidade das especiarias.
Entre um prato e outro, Prabin foi partilhando memórias do Nepal com a espontaneidade de quem não separa o que serve do que é: histórias coloridas do seu país, referências às origens de cada receita, preferências pessoais reveladas com naturalidade. Tudo isto com um sorriso permanente que não é postura de serviço – é feitio. O tipo de pessoa que transforma um jantar numa conversa e uma conversa numa razão para voltar.
Nos pratos principais, o Goan Tiger Prawn chegou à mesa com um aroma a leite de coco e especiarias que antecede a primeira garfada em vários segundos – e que não desilude quando ela chega. O camarão, suculento e bem temperado, navega num molho que equilibra a doçura do coco com a acidez do tamarindo e uma especiaria de fundo que não se identifica de imediato mas que não se esquece.
O Goat Curry foi a outra escolha, e a certa: um prato festivo no Nepal, com carne de cabra cozinhada lentamente em garam masala e especiarias, que chega à mesa com aquela densidade e aquele calor que são, em qualquer latitude, a definição exata de comida de conforto. Acompanhámos com arroz basmati e com o garlic naan – pão com alho e coentros, saído diretamente do tandoor – que teríamos comido às dúzias.
A fechar, o Everest Lava: tipo um petit gateau de doce de leite, com aquela tensão perfeita entre a crosta exterior e o interior cremoso que cede à pressão da colher. E depois, porque ainda sobrava espaço no estômago e algumas coisas merecem ser repetidas, voltámos às chamuças. Para garantir que o sabor com que a refeição começou fosse também o sabor com que terminava.
A sala que contraria o estereótipo
O Oven podia ter ido pelo caminho que tantos outros foram: toalhas de papel, iluminação descuidada, empratamento que serve para encher e não para impressionar. Esse restaurante “indo-nepalo-paki-bangla” que Lisboa conhece bem e que raramente surpreende. Não foi por aí. A sala, pequena e acolhedora, tem mesas e cadeiras de madeira sólida, paredes em azul escuro com pormenores em dourado mate. A iluminação é pensada, o empratamento tem cuidado e intenção – cada prato chega à mesa com uma apresentação que respeita o que está dentro dele. Um equilíbrio que funciona para qualquer mesa – o casal jovem, a família, o grupo de amigos estrangeiros fascinados com os elétricos lá fora. A decoração enquadra, não sobrepõe.
Hari Chapagain disse, a propósito do 5º aniversário: “A melhor homenagem que posso fazer ao Nepal é continuar a introduzir pratos tradicionais do meu país na carta do Oven.” É uma declaração de princípios que se traduz na mesa com uma clareza pouco comum. Em Lisboa, cidade que recebe bem a gastronomia do mundo mas nem sempre a trata com o respeito que merece, o Oven é um caso que merece atenção. E já está decidido: quando der saudade – e vai dar –, o Oven tem take-away de chamuças (e do resto da carta) através da Volup. É o plano de contingência perfeito para os dias em que a nossa casa precisar de reviver os sabores do Nepal.
Morada: Rua dos Fanqueiros, nº232, Lisboa
Reservas: 964 515 454 | ovenlisboa@gmail.com
Horário: 12h00–15h30 / 18h00–23h30 | Encerrado às quartas-feiras




















