A Rua Áurea (também conhecida como Rua do Ouro) leva o nome a sério. Desde 1760, por decreto real, esta artéria da Baixa pombalina ficou associada aos ourives e joalheiros de Lisboa. A ligação ao ouro faz parte da identidade da rua, da sua vocação antiga, da forma como certas cidades conservam, nas fachadas e nas montras, a memória dos ofícios que as fizeram.
No número 157, a história acrescentou outra camada. Em 1819, abriu ali a primeira oficina de selos e carimbos do país, a E.E. de Sousa e Silva, mais tarde detentora do alvará da Casa Real Portuguesa. Durante dois séculos, aquele espaço pertenceu a uma ideia de precisão: gravar, marcar, autenticar. Depois, como acontece tantas vezes quando os ofícios envelhecem sem sucessão, o proprietário anterior preparava-se para a reforma e a casa corria o risco de desaparecer da vida ativa da rua.
Foi nessa passagem de testemunho que entrou a Portugal Jewels. Para Alexandre Gomes e Joana Bastos Gomes, irmãos e terceira geração de uma família ligada à ourivesaria desde 1955, a decisão não nasceu apenas da localização. “As três coisas estão ligadas, mas o que nos puxou mais foi a memória”, dizem, referindo-se à rua, à história e à possibilidade de recuperar uma parte da cidade. “Quando o vimos, foi paixão à primeira vista. Tínhamos ali a oportunidade de escrever o capítulo seguinte de uma história que, de outra forma, fechava portas.”
A dimensão sentimental existe, mas o gesto tem uma leitura muito concreta. Uma loja fechada seria apenas mais uma baixa na longa lista de espaços históricos perdidos em Lisboa. Uma loja recuperada mantém uma porta aberta, uma memória visível e uma razão para entrar.
Uma loja com alma de casa
A nova loja da Portugal Jewels na Rua Áurea é a segunda recuperação patrimonial da marca em dois anos. Em 2025, tinha já reaberto a antiga Barbearia Campos, no Largo do Chiado, fundada em 1886, preservando balcões e mobiliário originais dentro de uma joalharia em funcionamento. O projeto, desenvolvido com a LADO Arquitetura e Design, venceu em Londres o prémio Store Design of the Year nos Creative Retail Awards. Uma pequena grande vitória para quem percebe que a memória, quando é bem tratada, não fica presa ao passado.
A Rua Áurea prolonga esse caminho. “No fundo, é coerência. O que defendemos é o melhor da tradição portuguesa, e isso vale tanto para as jóias como para os espaços onde as mostramos. Uma loja nova e asséptica diria muito pouco sobre quem somos.” A frase funciona como antídoto para a tentação das lojas impecáveis e sem pulso, essas caixas neutras onde tudo parece preparado para agradar a todos e quase nada fica na memória.
Aqui, a intenção foi outra. A fachada manteve o que podia ser mantido. Os painéis de vidro exteriores foram repintados à mão, num estilo de época fiel ao desenho do início do século XX. No interior, surgiram pilares pombalinos que estavam escondidos, mobiliário de antiquário restaurado, Chita de Alcobaça, cestaria de vime e cerâmica Ratinho. Ricardo Preto assina o projeto, a sua primeira loja de joalharia, e quis criar a sensação de entrada numa casa portuguesa, não numa loja convencional.
A imagem é feliz porque afasta o ouro da redoma. A Chita de Alcobaça traz o estampado das casas de campo e dos enxovais. A louça Ratinho convoca mesas de família. O vime e os móveis antigos retiram ao espaço qualquer frieza de exposição. A joalharia portuguesa nasceu muitas vezes desse universo doméstico: festas, mães, avós, cofres, romarias, casamentos, fotografias antigas. O desafio passa por dar presença a essa memória sem a transformar num cenário imóvel.
Joana e Alexandre dizem que a linha foi traçada pelo uso. “Queríamos uma loja a funcionar todos os dias, com o à-vontade de quem entra numa casa.” A marca aparece de forma discreta, porque, num espaço assim, “são as jóias que falam mais alto. O resto é contexto”. A frase resume o equilíbrio do projeto: preservar sem congelar, decorar sem mascarar, vender sem apagar a história que já estava ali antes.
Mudar tudo menos a técnica
A Portugal Jewels nasceu como marca em 2017, mas a história familiar recua a 1955, em Gondomar, à oficina do avô José Martins Barbosa. Serralheiro desde os 12 anos, começou a criar jóias por volta dos 25 e montou uma das maiores oficinas da região, ainda hoje em funcionamento. A geração seguinte trouxe a distribuição. Rosa Amélia Barbosa, mãe de Joana e Alexandre, fundou a empresa em 1990 e foi uma das poucas mulheres a trabalhar nesse lado do setor.
A terceira geração trouxe marca, narrativa, escala e ambição. Joana e Alexandre são engenheiros, formados no Técnico, com anos de consultoria em Lisboa, Copenhaga e Londres. Em 2017, identificaram uma lacuna: a ourivesaria tradicional portuguesa existia, os artesãos existiam, as técnicas existiam, mas faltava uma marca capaz de lhes dar leitura contemporânea. “A base estava toda lá. Faltava uma marca, um nome, um discurso a dar sentido a todo aquele saber. Foi isso que a nossa geração trouxe.”
Esse discurso assenta numa regra que podia ser gravada à porta da loja: “mudar tudo menos a técnica”. A filigrana, o Coração de Viana, os Brincos à Rainha e as contas de Viana continuam a ser feitos como sempre se fizeram. O que muda é a escala, a cor, a forma de usar, o contexto. A tradição deixa a gaveta e regressa ao corpo.
O risco, admitem, é cair no folclore. “O folclore é tratar a tradição como uma fantasia, uma coisa para guardar e olhar. Nós queremos o contrário, jóias para usar hoje.” A distinção é importante. A Portugal Jewels não quer limpar a joalharia portuguesa até a tornar irreconhecível, mas também não quer deixá-la presa a uma ideia parada de portugalidade. O Coração de Viana continua a sê-lo mesmo quando muda de escala. A filigrana mantém identidade quando aparece no palco, na música, na moda, na cultura pop.
Os exemplos ajudam. O colar Ai Coração, usado por Mimicat na Eurovisão, implicou cerca de 40 horas de trabalho manual. O vestido criado para Bárbara Bandeira no videoclipe Marcha reuniu sete quilos de joalharia tradicional portuguesa, com Corações de Viana, Brincos à Rainha e filigrana, e foi avaliado em cerca de 90 mil euros. Não é joalharia tradicional colocada num altar. É joalharia portuguesa a disputar imaginário visual.
Dentro de Portugal, o maior preconceito continua a ser o mesmo: associar a ourivesaria portuguesa ao “ouro da avó”, antigo, pesado, guardado no cofre e reservado para casamentos. Fora do país, o problema é outro. Portugal ainda não é visto como país de joalharia. “Pouca gente sabe que o nosso ouro de 19,2 quilates é um dos mais puros do mundo”, dizem. A surpresa do público internacional, sentida também na Expo 2025, em Osaka, onde a marca representou Portugal como única marca do setor, é precisamente aquilo que os motiva.
A mão que ainda decide
Todas as peças da Portugal Jewels continuam a ser produzidas em Gondomar, através de cerca de doze oficinas independentes, cada uma especializada numa técnica. Algumas dedicam-se à filigrana, outras à cravação, outras a etapas específicas de peças que podem começar numa oficina e terminar noutra. A escala não vem da industrialização, mas da capacidade de ligar estes núcleos numa rede organizada. Parece simples dito assim. Na prática, é uma coreografia de mãos, prazos, saberes e pequenas imperfeições que nenhuma folha de Excel consegue domesticar por completo.
“Para nós, a manualidade é o produto, é aquilo que vendemos”, dizem Joana e Alexandre. A frase desloca a conversa do ornamento para o valor. Mesmo quando existe alguma mecanização no fabrico, uma jóia continua a depender da limagem, do polimento, dos encaixes, das articulações de elementos móveis e da cravação de pedras. É aí que a peça ganha temperatura. “Num mundo cheio de jóias todas iguais, a imperfeição do trabalho manual é o que mais nos distingue. É o nosso slow luxury.”
A expressão podia facilmente cair no léxico lustroso do luxo contemporâneo, onde tudo parece “slow” até prova em contrário. Neste caso, tem lastro. A marca identifica a filigrana como uma das técnicas que mais a preocupam. Leva anos a dominar, os mestres estão a envelhecer e entram poucos aprendizes. A gravação à mão, algumas técnicas de cravação e o esmalte enfrentam riscos semelhantes. O problema não é falta de procura, explicam, mas falta de transmissão.
A nova loja torna essa questão quase física. O espaço existia porque um mestre gravador passou ali a vida. Quando se reformou sem sucessores, um saber esteve perto de fechar portas com ele. A Portugal Jewels não recuperou a técnica da gravação daquela casa, mas recuperou a sua presença na cidade e transformou-a numa metáfora bastante eficaz sobre o que acontece quando os ofícios deixam de ter continuidade.
A escala, por isso, não é apenas uma palavra de gestão. Serve para tornar estes saberes visíveis e economicamente viáveis. Para que alguém queira aprendê-los. Para que as oficinas continuem a ter trabalho. Para que a filigrana não fique reduzida a demonstração turística ou peça de museu. Em 2025, a Portugal Jewels fechou o ano com cerca de quatro milhões de euros de faturação, um crescimento superior a 50% face ao ano anterior, vende em mais de 50 países e prepara novos passos em Portugal e fora dele.
A ambição já não cabe apenas em Lisboa. A marca prevê mais lojas em Portugal, em Lisboa e no Porto, e admite um primeiro ponto de venda fora do país, provavelmente uma pop-up para testar mercado, talvez em Paris. A frase final de Joana e Alexandre é assumidamente grande: “Queremos que, quando se fale de jóias, Portugal seja uma resposta óbvia.”
A Rua Áurea, com os seus painéis repintados à mão, a Chita de Alcobaça, os pratos Ratinho e as jóias feitas em Gondomar, não resolve sozinha esse destino. Mas ajuda a desenhar o caminho. Uma loja pode ser apenas uma loja. Esta prefere ser uma chave: abre uma casa de 1819, chama os ourives de volta à rua que lhes foi destinada e insiste numa forma de comércio que vende sem desmemoriar.
Morada: Rua Áurea nº157, Lisboa
Telefone: +351 927 009 955
Horário: todos os dias, das 10h00 às 19h00

















