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Início»Luxo»Tendências»Investir no Espaço? Talvez os ganhos estejam mais perto de casa…
Tendências

Investir no Espaço? Talvez os ganhos estejam mais perto de casa…

Rita Iberico NogueiraDe Rita Iberico NogueiraAgosto 21, 2026
Órbita espacial
A economia espacial cruza hoje lançamentos, comunicações, inteligência artificial, defesa e dados, multiplicando as oportunidades de investimento muito para lá dos foguetões.
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A estreia histórica da SpaceX em bolsa deu escala financeira à nova corrida espacial. Para o investidor, porém, as melhores oportunidades podem estar muito mais perto da Terra do que numa viagem a Marte.

O sino de abertura da Nasdaq ainda mal tinha acabado de tocar quando a SpaceX passou a valer acima de dois biliões de dólares. A empresa de Elon Musk entrou em bolsa a 12 de junho, a 135 dólares por ação, depois de captar 75 mil milhões de dólares na maior oferta pública inicial de sempre. Com o exercício da opção adicional atribuída aos bancos colocadores, a operação acabaria por render 85,7 mil milhões. O mercado recebeu-a como se recebe um foguetão: olhos no céu, telemóveis levantados e pouco tempo para contas de cabeça.

O entusiasmo teve combustível. As ações subiram 19% na estreia e chegaram a negociar 67% acima do preço da oferta. Depois veio a gravidade. Em agosto, perderam os ganhos, chegaram a cair abaixo dos 135 dólares e voltaram a aproximar-se dos 140. A sequência, condensada em poucas semanas, resume o investimento espacial melhor do que qualquer apresentação: a oportunidade é real, a volatilidade também.

A SpaceX fechou 2025 com receitas de 18,7 mil milhões de dólares e um prejuízo líquido de 4,94 mil milhões. Os primeiros resultados publicados após a entrada em bolsa trouxeram sinais mais robustos. No segundo trimestre de 2026, as receitas quase duplicaram para 7,8 mil milhões de dólares e o prejuízo encolheu para 541 milhões. A conta que merece maior atenção, contudo, está do lado do investimento: as despesas de capital atingiram 18,4 mil milhões num único trimestre, dos quais 15,8 mil milhões foram destinados à inteligência artificial.

Quem compra hoje uma ação da SpaceX já não está a comprar só lançamentos, Starship ou Starlink. Está a adquirir uma combinação pouco ortodoxa de transporte espacial, telecomunicações, inteligência artificial e infraestrutura de computação, com a ambição adicional de instalar centros de dados em órbita. A empresa chama-lhe integração vertical. Para o investidor, significa que o risco e a avaliação deixaram de caber numa única indústria.

Órbita espacial

O negócio está cá em baixo

A imagem mais sedutora da economia espacial continua a ser a da Lua, de Marte ou de uma futura mina num asteroide. O dinheiro, por enquanto, faz-se sobretudo entre a órbita baixa e a superfície terrestre. Comunicações por satélite, navegação, previsão meteorológica, observação de culturas, gestão de frotas, seguros, cartografia, defesa e monitorização de infraestruturas já dependem de ativos colocados acima das nossas cabeças.

A NovaSpace avaliou a economia espacial global em 626,4 mil milhões de dólares em 2025 e projeta que ultrapasse um bilião em 2034. O Fórum Económico Mundial e a McKinsey chegam a 1,8 biliões em 2035, partindo de uma definição mais ampla, que contabiliza uma parcela maior da atividade económica possibilitada por dados e serviços espaciais. A diferença entre as duas projeções é instrutiva: antes de acreditar num número de mercado, convém perceber o que foi colocado dentro dele.

Os dados europeus ajudam a retirar o nevoeiro. Segundo a Agência Espacial Europeia, o mercado upstream – fabrico de naves, satélites e serviços de lançamento – valia cerca de 75 mil milhões de euros em 2025. O segmento downstream, formado por comunicações, observação da Terra e serviços ligados aos sistemas globais de navegação, aproximava-se dos 490 mil milhões. Dentro deste último, a navegação representava 77% do valor. A parte mais volumosa da economia espacial não é a viagem; é a informação que regressa.

Este detalhe altera a tese de investimento. Uma empresa capaz de lançar um foguetão concentra engenharia, capital e risco num evento de poucos minutos. Uma plataforma que vende imagens recorrentes a governos, seguradoras, agricultores ou empresas de logística pode construir receitas por assinatura, contratos plurianuais e margens de software. A primeira rende fotografias memoráveis. A segunda pode oferecer previsibilidade – palavra pouco cinematográfica, mas bastante estimada por qualquer carteira.

O capital privado já começou a seguir essa lógica. O índice da Seraphim Space registou 7,5 mil milhões de dólares investidos em empresas de tecnologia espacial no segundo trimestre de 2026 e 23 mil milhões nos 12 meses terminados em junho, mais do dobro do período homólogo. Defesa, comunicações seguras, gestão de tráfego orbital e infraestrutura em órbita deixaram de ser notas de rodapé. Passaram a ocupar o centro das rondas de financiamento.

Órbita espacial

As pás e picaretas da nova corrida

Procurar “a próxima SpaceX” pode ser a maneira menos imaginativa de entrar neste mercado. A corrida do ouro enriqueceu sobretudo quem vendia ferramentas, transporte e serviços aos mineiros; o espaço começa a produzir uma versão tecnológica da mesma história.

No acesso à órbita, a Rocket Lab construiu uma posição que já vai além do lançamento de pequenos satélites, acrescentando fabrico de componentes, plataformas espaciais e comunicações. A Firefly Aerospace e a europeia Avio representam outras formas de exposição ao transporte. O potencial é elevado, mas cada atraso, falha técnica ou revisão de calendário pode alterar receitas e avaliação de forma brusca.

Nas comunicações, a AST SpaceMobile procura ligar satélites diretamente a telemóveis comuns; Viasat, SES, Eutelsat, Globalstar e Iridium operam em diferentes segmentos de conectividade. A oportunidade nasce de um objetivo simples e valioso: levar rede a zonas onde as antenas terrestres não chegam e criar redundância quando a infraestrutura no solo falha. O risco está na intensidade de capital, na corrida ao espetro e na possibilidade de um concorrente com maior escala baixar preços antes de os novos operadores atingirem rentabilidade.

A observação da Terra oferece um caso de investimento menos teatral. Planet Labs e BlackSky vendem imagens e inteligência geoespacial; MDA Space combina satélites, robótica e sistemas de observação. Os clientes vão da agricultura à defesa, passando pela energia, logística, clima e seguros. Neste grupo, a qualidade da receita depende do peso de contratos recorrentes, da dimensão e solidez da carteira de encomendas e da capacidade de transformar imagens em decisões. Guardar milhões de fotografias do planeta não basta; o valor aparece quando o software encontra nelas uma mudança que alguém está disposto a pagar para conhecer.

Redwire, Voyager Technologies e Intuitive Machines ocupam terrenos ligados a estruturas, sistemas, estações comerciais e missões lunares. Astroscale trabalha na remoção e manutenção de objetos em órbita. Varda Space explora a produção farmacêutica em microgravidade e captou 187 milhões de dólares em 2025. Starcloud, avaliada em 1,1 mil milhões após uma ronda de 170 milhões em março deste ano, quer levar capacidade de computação para o espaço. Estes projetos aproximam-se da fronteira mais especulativa: podem abrir mercados inteiros, mas dependem de custos de lançamento mais baixos, tecnologia ainda por provar e procura que nem sempre existe fora dos diapositivos.

Os grandes grupos aeroespaciais e de defesa – Airbus, Thales, Leonardo, Lockheed Martin, Northrop Grumman ou L3Harris – oferecem uma entrada com receitas, contratos públicos e balanços mais maduros. A exposição ao espaço surge diluída por outras áreas, o que reduz a pureza temática e, em muitos casos, amortece o risco. As empresas especializadas prometem maior sensibilidade ao crescimento do setor; os conglomerados trazem fluxo de caixa e escala. A escolha depende de quanto futuro se pretende comprar e de quanta turbulência se aceita atravessar.

Portugal já tem um lugar neste mapa, embora ainda sobretudo fora da bolsa. O país terminou 2025 com 87 empresas ligadas ao setor, reforçou para 204,8 milhões de euros a contribuição para a Agência Espacial Europeia entre 2026 e 2030 e elevou de 137 para 417 milhões o financiamento da agenda NewSpace Portugal. Em agosto, a Neuraspace, criada em Coimbra, anunciou 15,6 milhões de euros de novo financiamento, reunindo Lince Capital, Explorer Investments, Armilar Venture Partners e verbas do PRR. O seu negócio – inteligência artificial aplicada à gestão de tráfego e à prevenção de colisões em órbita – explica bem onde pode surgir valor: não no objeto que sobe, mas no serviço que garante que continua operacional.

Órbita espacial

O risco também viaja a grande velocidade

Os fundos cotados permitem repartir a exposição por várias empresas, mas não eliminam a concentração. A 18 de agosto, os norte-americanos Tema Space Innovators ETF (NASA) e VanEck Space ETF (WARP) tinham cerca de 21% dos ativos aplicados na SpaceX. O primeiro cobrava uma comissão anual de 0,75%; o segundo, 0,50%. Para um investidor de retalho na União Europeia, estes veículos domiciliados nos Estados Unidos podem não estar disponíveis por não fornecerem o documento de informação exigido pelo regime PRIIPs.

O formato UCITS oferece alternativas europeias. O VanEck Space Innovators UCITS ETF (JEDI), lançado em 2022, tinha uma comissão total de 0,55% e cerca de dois mil milhões de dólares sob gestão em agosto. O ARK Space & Defence Innovation UCITS ETF (ARKX), registado também em Portugal e gerido ativamente, cobrava 0,75%; a SpaceX representava 9,09% da carteira a 17 de agosto, ao lado de empresas como Kratos, L3Harris, AMD, Rocket Lab, Amazon e Nvidia. Essa composição exige atenção: um fundo que se apresenta como espacial pode conter uma dose relevante de defesa, semicondutores, comércio eletrónico ou inteligência artificial. O nome do tema nunca substitui a leitura das posições.

As ações individuais dão controlo sobre a seleção, mas concentram o impacto de uma falha de lançamento, de uma emissão de capital ou da perda de um contrato público. Os fundos de venture capital permitem chegar a empresas privadas, normalmente com mínimos elevados, períodos longos de imobilização e pouca liquidez. Já os grandes grupos industriais reduzem o risco específico, embora uma missão bem-sucedida tenha pouco efeito nas contas consolidadas. Nenhuma destas portas conduz ao mesmo lugar.

Cinco perguntas ajudam a limpar o entusiasmo antes de investir. A empresa tem receitas comerciais ou vive de demonstrações e contratos-piloto? Quanto capital terá de levantar até atingir fluxo de caixa positivo? Que percentagem da faturação depende de um único governo ou cliente? A carteira de encomendas é firme, financiada e executável? A vantagem tecnológica sobreviveria a uma descida de preços imposta pela SpaceX ou por um concorrente chinês?

A lista de riscos não termina no balanço. A órbita terrestre é um recurso finito. A Agência Espacial Europeia alerta que a densidade de objetos ativos em algumas faixas já se aproxima da densidade de detritos, enquanto as manobras de prevenção de colisões consomem combustível e interrompem a recolha de dados. Ciberataques, restrições à exportação, dependência de componentes, regulação ambiental e militarização acrescentam outras variáveis. O mesmo problema cria, naturalmente, um mercado para quem o souber resolver – de software de tráfego orbital a serviços de remoção, reparação e prolongamento da vida dos satélites.

A economia espacial amadureceu o suficiente para deixar de ser tratada como ficção, mas não o bastante para dispensar disciplina. A melhor empresa do setor pode não transportar turistas, tocar na Lua ou escavar um asteroide. Pode limitar-se a garantir uma ligação durante uma catástrofe, identificar uma fuga de metano, antecipar uma colisão ou transformar uma imagem de satélite numa decisão de milhões. Marte conserva o poder de sedução. O fluxo de caixa continua a ter a última palavra.

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