De Xangai a Lisboa, passando pela gentrificação e pelos podcasts que nos envergonham. Rodrigo Moita de Deus regressa com olho clínico, frase curta e nenhuma paciência para o óbvio.
O que será.
Por estes dias tenho andado pelo Oriente. Dei por mim, rodeado de milhares de turistas, de todo o mundo, a admirar o skyline de Xangai. E as luzes. E os leds. O skyline de Xangai não é muito diferente do Dubai, Abu Dhabi, Kuala Lumpur ou Tóquio. É só maior e mais impressionante. São dezenas, centenas, de coloridos arranha-céus. Foi aí que me ocorreu um estranho pensamento: isto alguma vez passaria no plano diretor municipal de uma autarquia portuguesa? Não. Mesmo que passasse, seria possível construir algo assim?
Muito recentemente tivemos a discussão pública do projeto das torres da Foz, no Porto. Uma nova avenida e três torres (com uns modestos 80 metros) da autoria do arquiteto Norman Foster. O PDM da cidade permite, o projeto foi aprovado e, mesmo assim… mesmo assim tivemos abaixo-assinados dos moradores, discussão durante a campanha eleitoral e um presidente eleito que prefere… reavaliar o projeto aprovado. No final do dia, vão pedir a um dos arquitetos mais famosos do mundo que retire uns andares das torres porque “fica mal”.
Ainda bem que temos gente capaz de explicar a Norman Foster o que fica “bem” e o que fica “mal”. Na década de oitenta houve a mesma polémica com a construção das amoreiras. Hoje é um ícone da cidade. Uns anos mais tarde tivemos a mesma “novela” com o Centro Cultural de Belém. O “mamarracho” que colocaram à frente dos Jerónimos. Hoje é um monumento nacional classificado. E a lista de obras feitas polémicas é quase tão interminável como aquelas que ficaram por fazer. Imagino que o Marquês de Pombal tenha enfrentado os mesmos “conservadorismos” para a reconstrução da baixa. Mas ele era menos sensível às críticas. Deve ser por isso que lhe fizeram uma estátua.
O que é.
Temos um novo clássico. Chegar a maio e começar a dizer mal do turismo e dos turistas e tudo o que representam. Da mercearia que virou concept store, do bitoque que virou tosta de abacate, da bica que agora é cappuccino, do prédio que agora tem alojamento local. Até existe definição técnica: gentrificação. Termo utilizado para aquele suspirozinho meio nostálgico dos tempos em que trocámos a mercearia pelo Corte Inglês, que abacate só em Nova Iorque, em que o cais do Sodré estava entregue aos marinheiros e às meretrizes e que não podíamos passear na Rua Augusta depois das nove da noite.
Lisboa e Porto, de repente, viraram urbes europeias. Com gente de diferentes línguas, cores e feitios a encher as ruas. E nós queixamo-nos. Lisboa e Porto, de repente, viraram aquilo que íamos procurar a Amesterdão, Berlim ou Londres. E nós queixamo-nos. A gentrificação trouxe a regeneração urbana e geracional. Velhos edifícios que ganharam nova vida. Devolutos que passaram a estar ocupados. Bairros históricos que ganharam juventude. E nós queixamo-nos.
Somos capazes de passar horas na fila para ver a Sagrada Família em Barcelona, mas ficamos horrorizados com as “massas” à porta dos Jerónimos. Queixamo-nos, embirramos, buzinamos aos tuktuk e suspiramos para o lado que “isto está impossível”. Estávamos tão bem com as nossas cidades paradas no tempo. Saudosismo do bem.
O que seria.
Há uns anos fiquei viciado num podcast chamado “the rest is history” – parece que não está diretamente relacionado com o nosso “e o resto é história”. Vai daí comecei a consumir podcasts internacionais sobre quase tudo: história, saúde, astronomia, ciência. Sobre tudo. E o que mais impressiona? A qualidade. De produção, de conteúdos e a capacidade de transmitir com simplicidade conhecimento complexo. Vulgo acessibilidade. Curioso como sou fui ver quem eram.
Se não reconhecerem imediatamente os nomes dos apresentadores de alguns destes podcasts, procurem referências e admirem-se. É comum encontrar académicos respeitáveis, de instituições ainda mais respeitáveis, num registo muito mais próximo do entretenimento que da enfadonha cátedra. O termo para esta coisa é “divulgação de ciência”. Na prática a capacidade de transmitir com simplicidade conhecimento denso e complexo. Um dom tantas e tantas vezes subestimado por cá. Pior que isso. Quem o faz, é muitas vezes olhado de lado pelos seus pares.
Em Portugal, um “bom” professor é o mais difícil nas notas. E quanto mais arcaico no léxico e intrincado na formulação, maior a reputação. O que é estranho, para quem ganha a vida a “ensinar” outros. Mas as exceções existem. Temos o popular linguista Marco Neves ou o pioneiro matemático Jorge Buesco entre outros.
Nos Estados Unidos da América ou no Reino Unido a capacidade de chegar a grandes públicos, de explicar o complexo com simplicidade, é critério de avaliação para os académicos. Julgo que por cá a coisa funciona ao contrário.
Rodrigo Moita de Deus é empresário, escritor e consultor. Foi um dos fundadores do blog 31 da Armada e cronista da Fora de Série entre 2009 e 2016. Está de volta às nossas páginas.







