O conflito no Golfo não travou a vontade de viajar, mas mudou a forma de escolher destinos, voos e datas. Portugal beneficia do desvio, num verão em que segurança e ligações diretas pesam tanto como o preço.
Durante décadas, a aviação comercial fez o mundo parecer cada vez menor. Uma escala no Dubai, em Doha ou em Abu Dhabi permitia ligar a Europa à Ásia, ao Índico ou à Oceânia com uma facilidade que transformou os grandes aeroportos do Golfo em verdadeiras praças centrais da mobilidade internacional. Bastaram alguns meses de instabilidade para recordar que a geografia continua a ter consequências.
O conflito na região está a redesenhar rotas, a encarecer operações e a alterar o modo como os viajantes tomam decisões. A vontade de viajar permanece, mas chega agora acompanhada por uma atenção redobrada à segurança, à flexibilidade das reservas e à existência de alternativas caso o itinerário seja interrompido.
O estudo How conflict in the Gulf is remapping global travel, publicado pela McKinsey & Company, descreve uma procura resistente, embora bastante menos espontânea. Os consumidores não estão propriamente a desistir das férias. Estão a reservar mais tarde, a escolher destinos percebidos como seguros e, em alguns casos, a trocar viagens de longo curso por opções mais próximas de casa.
O efeito começa a ser visível na ocupação hoteleira. Algarve, Porto e Alentejo surgem entre os destinos europeus que registaram evoluções positivas entre março e abril de 2026, enquanto o tráfego de passageiros em ligação através dos principais aeroportos do Médio Oriente caiu cerca de 53%. O verão continua em movimento; simplesmente já não segue o itinerário previsto.
A segurança entrou no itinerário
O preço, a conveniência dos horários e a qualidade do hotel costumavam dominar a escolha das férias. A segurança ganhou entretanto um peso decisivo. Entre 60% e 70% dos consumidores inquiridos nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha afirmaram estar a ajustar os seus planos para os seis meses seguintes devido à situação no Médio Oriente. Nos três mercados, a perceção de segurança aparece à frente da conveniência e do preço entre os fatores que mais influenciam a decisão.
A mudança não significa necessariamente ficar em casa. Nos Estados Unidos, onde a alteração de comportamento é mais acentuada, alguns viajantes estão a substituir destinos internacionais por viagens domésticas, a mudar de meio de transporte ou a recorrer novamente a agentes de viagens. Depois de anos a reservar voos, hotéis e experiências autonomamente, uma parte do mercado volta a valorizar a presença de alguém capaz de confirmar informações, interpretar riscos e resolver imprevistos.
O caso italiano ajuda a perceber a aparente contradição entre o desejo de viajar e a hesitação na hora de pagar. A 20 de maio, 74% dos consumidores italianos consultados pela McKinsey pretendiam viajar durante o verão de 2026, mas 63% ainda não tinham concluído todas as reservas. Mais de metade, 56%, reconhecia que a situação geopolítica tinha afetado os seus planos; apenas 3% cancelara totalmente a viagem. Outros 24% preferiam esperar por notícias antes de fechar datas e itinerários.
Esta prudência está a encurtar as janelas de reserva e a dificultar as previsões dos hotéis, operadores e companhias aéreas. Um quarto que parecia vendido com três meses de antecedência pode agora ser reservado a poucas semanas, ou mesmo a poucos dias, da chegada. Os modelos construídos sobre padrões históricos perdem precisão quando o contexto internacional muda de uma semana para a outra.
Também o turismo de gama alta revela uma vulnerabilidade particular. Segundo a consultora, a procura por hotéis de topo tende a reagir de forma mais intensa às crises do que o turismo doméstico ou de grande escala. O viajante com maior poder de compra dispõe de alternativas e pode mudar rapidamente de destino, transferindo férias, celebrações familiares ou viagens privadas para outra geografia sem abandonar a intenção de viajar. O estudo da McKinsey identifica esta sensibilidade como um dos desafios enfrentados pela hotelaria do Golfo.
Portugal no caminho do desvio
O Mediterrâneo está a captar parte da procura que procura permanecer perto da Europa ou evitar ligações através do Médio Oriente. Entre março e abril de 2026, e em comparação com o mesmo período do ano anterior, a ocupação hoteleira aumentou 5,7 pontos percentuais no Algarve, 3,3 pontos percentuais no Porto e 2,7 pontos percentuais no Alentejo.
O movimento não se limita a Portugal. Tânger registou uma subida de 9,9 pontos percentuais, Alicante avançou 8,0 pontos, Agadir cresceu 7,5 pontos e Marbella ganhou 7,1 pontos. A proximidade, o clima, a familiaridade cultural e a possibilidade de chegar através de um voo direto estão a favorecer destinos que oferecem uma experiência internacional sem obrigar a atravessar os corredores aéreos mais expostos à instabilidade.
Os dados devem, contudo, ser lidos com alguma prudência. Uma subida da ocupação não prova que todos estes visitantes tivessem inicialmente planeado viajar para o Golfo, para a Ásia ou para o Índico. Revela, sim, uma coincidência relevante entre a perturbação das grandes rotas intercontinentais e o crescimento de destinos alternativos, sobretudo em torno do Mediterrâneo.
Para Portugal, a oportunidade é real, mas não automática. A perceção de segurança coloca o país numa posição favorável; a diversidade da oferta ajuda a responder a diferentes motivações. O Algarve oferece praia, golfe e hotelaria consolidada. O Porto combina cidade, gastronomia e acesso ao Douro. O Alentejo reúne território, património, baixa densidade e unidades capazes de atrair quem procura privacidade.
O risco está em confundir uma vantagem conjuntural com uma conquista definitiva. Um destino escolhido porque parece seguro ou conveniente terá ainda de justificar a decisão através da qualidade da experiência. Serviço, mobilidade, capacidade aeroportuária, informação clara e consistência dos preços serão determinantes para converter visitantes ocasionais em procura recorrente.
A McKinsey aconselha, aliás, os hotéis a resistirem a políticas de descontos indiscriminados. Reduzir preços pode produzir ocupação imediata, mas torna mais difícil recuperar margens e posicionamento quando o mercado estabiliza. A recomendação passa por acompanhar os sinais de procura com maior frequência, definir limites mínimos de preço e criar propostas ajustadas a segmentos específicos.
Os voos diretos ganham poder
A reorganização torna-se especialmente clara nos aeroportos. Entre março e abril de 2026, o número de passageiros internacionais que fizeram ligação através dos principais hubs do Médio Oriente diminuiu 5,1 milhões em relação ao período homólogo de 2025. A quebra, próxima de 53%, está a empurrar passageiros para outros aeroportos ou para ligações diretas que dispensam escalas na região.
Istambul ganhou importância como ponto de conexão alternativo. Companhias chinesas aumentaram os voos diretos para a Europa e, em conjunto com as transportadoras turcas, acrescentaram mais de quatro mil ligações às programações previstas entre junho e novembro de 2026. Esse reforço representa cerca de 56% de toda a capacidade adicional introduzida pelas dez companhias que mais cresceram no período.
A conclusão interessa diretamente aos destinos turísticos. Depois de analisar mais de 90 variáveis relacionadas com a procura internacional, a McKinsey identificou o número de lugares disponíveis e a existência de voos diretos como os dois fatores com maior influência na capacidade de atrair visitantes estrangeiros em viagens de lazer. A promoção pode despertar interesse, mas é a conectividade que transforma curiosidade em reservas.
Os destinos dependentes de escalas no Golfo estão a sentir o efeito inverso. Seychelles e Maldivas, por exemplo, registaram uma redução significativa das chegadas desde o início do conflito. Uma ilha pode permanecer intacta e desejada, mas perde competitividade quando o caminho para lá chegar se torna mais demorado, caro ou incerto.
As restrições do espaço aéreo e a subida do combustível acrescentam outra pressão. Num exercício ilustrativo — não numa previsão generalizável — a McKinsey calcula que um voo entre Londres e Bombaim poderá enfrentar um aumento de custos de 63% face ao período anterior à perturbação. Se a companhia transferir essa despesa para o passageiro, o preço do bilhete poderá subir entre 13% e 44%.
O impacto no Golfo é muito mais severo. Entre março e abril, o Dubai registou uma quebra homóloga de 75% nas receitas de alojamento, correspondente a cerca de 1,54 mil milhões de euros à taxa de referência atual. Abu Dhabi perdeu 49%, o Qatar 43% e Riade 42%. A conversão para euros tem por base a taxa do Banco Central Europeu de 24 de agosto de 2026.
A posição geográfica e a infraestrutura acumulada poderão permitir uma recuperação dos grandes hubs do Médio Oriente quando a situação estabilizar. Alguns operadores da região estão mesmo a aproveitar este período para renovar produto e preparar o regresso da procura. A McKinsey estima que, se a evolução seguir um padrão semelhante ao observado no início da pandemia, a recuperação possa demorar entre seis e nove meses. A comparação tem limites: uma crise de segurança pode deixar marcas mais duradouras na perceção dos viajantes.
Portugal ganhou, por agora, maior visibilidade no mapa das alternativas. Mantê-la dependerá da capacidade de transformar uma vantagem circunstancial em confiança continuada: melhores ligações, operações preparadas para reagir, informação transparente, produto consistente e preços defendidos. A geopolítica pode entregar passageiros. Não lhes dá, por si só, uma razão para voltar.

















