Nove encomendas. Nenhuma igual. O Morgan Midsummer Coupé, desenvolvido com a Pininfarina, é o automóvel mais exclusivo do ano – e uma das últimas carroçarias verdadeiramente artesanais que o mundo verá.
O Midsummer Coupé representa o culminar de uma jornada criativa extraordinária. O que começou como uma celebração da carroçaria artesanal e da colaboração evoluiu para um dos projetos mais ambiciosos e recompensadores que a Morgan já realizou. Esta frase, dita pela própria marca britânica, resume com precisão o que está em jogo. Mas para compreender a magnitude do que a Morgan acaba de apresentar, é preciso recuar.
Fundada em 1910 por H.F.S. Morgan, a empresa continua a fabricar automóveis na sua histórica fábrica de Malvern, aberta em 1914, segundo técnicas artesanais que se mantêm centrais à identidade da marca. Enquanto o mundo da indústria automóvel abraçava a robotização, Malvern preservou o metal conformado à mão, os painéis de alumínio moldados por artesãos, as estruturas em madeira de freixo. Porque nenhum processo automatizado replica a inteligência tátil de um artesão experiente a trabalhar uma superfície curva até ela atingir a tensão visual certa. Mais de 117 anos depois, a Morgan continua a construir artesanalmente os seus desportivos inconfundivelmente britânicos em Pickersleigh Road, Malvern, onde as mesmas técnicas de carroçaria se entrelaçam com engenharia avançada.
Foi neste contexto que, em maio de 2024, a Morgan apresentou o Midsummer barchetta – uma edição limitada a 50 unidades, desenvolvida com a Pininfarina, que esgotou antes de ter preço público. O coupé nasceu da proposta de um cliente que, fascinado pela versão descapotável, desafiou a Morgan a criar uma versão de teto fixo. Em vez de se limitar a acrescentar uma estrutura rígida ao topo e encerrar o assunto, a marca desenvolveu um automóvel inteiramente novo a partir dessa premissa. Oito outros colecionadores juntaram-se ao primeiro. Assim nasceu o Midsummer Coupé: de uma conversa, de um desafio, de uma recusa em cumprir os mínimos.
Malvern e Turim frente a frente
A parceria com a Pininfarina é uma convergência de duas filosofias com mais de um século de distância entre si e uma proximidade surpreendente em termos de valores. Fundada em 1930 por Battista “Pinin” Farina, a Pininfarina distinguiu-se desde a origem pela criação de peças de luxo em pequena escala, onde modernidade e aerodinâmica andaram sempre juntas. O nome “Pinin” vem do dialeto piemontês e significa “o mais pequeno” – uma ironia para um estúdio que viria a tornar-se uma das maiores referências mundiais do design automóvel, responsável pela silhueta de Ferraris icónicos, Alfa Romeos definitivos, Maseratis que moldaram uma geração. Em 1961, Battista mudou legalmente o seu apelido para Pininfarina, fundindo a sua identidade pessoal com a marca que criara – um gesto que dizia tudo sobre a relação entre criador e criação.
Quando as duas equipas se sentaram a trabalhar no Midsummer Coupé, utilizaram ferramentas digitais para moldar proporções radicalmente diferentes das da barchetta original, introduzindo uma terceira linha estrutural na silhueta que altera por completo a perceção visual do automóvel. O objetivo não era acrescentar um teto – era criar um coupé com identidade própria, mais imponente, com maior tensão nas superfícies, capaz de se distinguir do antecessor descapotável à primeira vista. Visto de trás, o Midsummer Coupé revela uma ampla cobertura envidraçada que inunda o habitáculo de luz natural, ligando o para-brisas à traseira de forma fluida e inesperada.
As referências históricas estão presentes. A espinha central de aço inoxidável que percorre longitudinalmente o teto e a carroçaria evoca o célebre Morgan AeroMax, produzido entre 2008 e 2009. A queda aerodinâmica da traseira e a forma de gota de água convocam a memória do Bugatti Type 57SC Atlantic de 1936, um dos automóveis mais belos e mais caros da história. São referências que funcionam como sinais para os entendidos, como continuidade inteligente de uma linguagem que o tempo foi tornando clássica.
Nove automóveis. Nenhum igual
O protótipo do Midsummer Coupé – designado internamente como “prova de artista” – servirá de referência de design, engenharia e fabrico para as nove encomendas de clientes. Cada um destes automóveis partilha a mesma arquitetura de carroçaria, mas será especificado individualmente, com cores, couros, acabamentos em madeira e detalhes exclusivos diferentes. O resultado são nove interpretações de uma mesma visão, desenvolvidas em colaboração estreita entre cada cliente e as equipas de design, engenharia e artesanato da Morgan. Como disse Jonathan Wells, diretor de design da marca: para a Morgan, esta é a expressão máxima da carroçaria artesanal.
O processo de fabrico é tão exigente quanto o resultado sugere. Os painéis exteriores são moldados a mão por artesãos que transformam folhas planas de alumínio com maquinaria clássica de conformação – um trabalho que consome centenas de horas para obter superfícies de dupla curvatura impecáveis, reduzindo ao mínimo a necessidade de limagem posterior. Para montar estes painéis, é utilizada soldadura TIG sem material de adição, complementada por rebites de alumínio maciço embutidos duplamente nas juntas. A estrutura portante integra componentes de madeira de freixo mecanizada e passagens de roda laminadas, cuja inclusão otimiza a transferência de cargas e oferece propriedades de amortecimento acústico. Todo o processo é monitorizado por digitalização e medição laser contínua – tradição e precisão milimétrica lado a lado.
Sob a carroçaria, o Midsummer Coupé assenta na plataforma de alumínio da geração CX da Morgan, propulsionada pelo motor BMW B58 de 3,0 litros turbo de seis cilindros em linha e uma transmissão automática de oito velocidades. O modelo relacionado Supersport 400 usa a versão mais recente desta mecânica com 402 cv. A adição da estrutura fixa do teto aumenta o peso total em apenas 2,5% relativamente a um modelo descapotável com teto rígido – uma contenção notável, conseguida através de pilares A em alumínio maquinado a partir de blocos maciços, e pelo facto de o para-brisas e o teto fixo envidraçado estarem diretamente acoplados à estrutura de alumínio, funcionando como elementos estruturais ativos que dissipam tensões em áreas críticas em 50%.
As jantes de alumínio forjado de 19 polegadas são descritas pela própria Morgan como o design de jante mais complexo que a marca alguma vez realizou, combinando acabamentos polidos e pintados. O detalhe central de aço inoxidável nasce do capot e percorre o eixo central do automóvel, fluindo entre a zona envidraçada e a bagageira para rematar sobre as icónicas aletas traseiras. Cada superfície, cada transição, cada material foi considerado individualmente.
No interior, a inspiração vem da náutica de luxo. A madeira de teca domina o habitáculo – no espigão central do teto, no tablier que combina madeira moldada à mão com couro fino —, e os mostradores de corte clássico, com fundo branco avelã vintage, recusam qualquer concessão ao minimalismo digital. A manete de mudanças em alumínio incorpora uma delicada incrustação de teca; os interruptores das vidraças localizam-se elegantemente na estrutura superior do teto; um robusto carril de alumínio maquinado atravessa horizontalmente a cabine, suportando os anteparos de sol e o retrovisor. O espaço de bagagem foi concebido para acomodar uma viagem continental – este coupé é um gran turismo.
O emblema Pininfarina Fuoriserie, colocado atrás das rodas dianteiras, é um detalhe de peso. “Fuoriserie” significa literalmente “fora de série” e designa veículos produzidos fora dos programas de produção convencionais. A sua aplicação ao Midsummer Coupé prolonga uma relação inaugurada com a barchetta original, reforçando a posição deste modelo como uma encomenda altamente individual criada através da expertise combinada de Morgan e Pininfarina. O protótipo passará a integrar a coleção Louwman, em Haia, uma das mais importantes coleções de automóveis históricos do mundo.
Quanto ao preço, a Morgan não divulgou valores oficiais. As estimativas circulam entre os 250.000 e os 300.000 euros, com margem para subir consoante o nível de personalização de cada encomenda. Um número que, dado o contexto, parece menos relevante do que a pergunta verdadeira: quantos automóveis construídos hoje, em 2026, serão lembrados daqui a cinquenta anos como peças de coleção incontornáveis? O Midsummer Coupé tem todas as condições para figurar nessa lista curta.
Motor: BMW B58, 3.0 litros turbo, seis cilindros em linha
Potência: aprox. 402 cv
Transmissão: automática ZF de 8 velocidades, tração traseira
Plataforma: CX-Generation em alumínio colado
Carroçaria: alumínio moldado à mão, estrutura em madeira de freixo
Jantes: alumínio forjado de 19 polegadas
Unidades: 9 encomendas de clientes (mais 1 protótipo “prova de artista”)
Preço: a partir de 250.000€ (não confirmado oficialmente)
















