Sagres não foi um acaso. Foi uma decisão consciente. Quinze anos depois, o Martinhal prova que luxo, família e paisagem podem coexistir sem concessões — e com identidade.
O vento chega primeiro a Sagres. Varre a falésia, empurra o Atlântico, limpa a paisagem de excessos. Foi neste lugar de fronteira, longe dos roteiros lotados do Algarve, que o Martinhal Sagres abriu portas em 2010, como consequência de uma decisão pensada durante anos.
Antes de Sagres, houve Londres. E antes do resort, houve um casal com formação técnica, visão internacional e vontade de construir algo próprio. Chitra Stern, nascida em Singapura, formada em Engenharia Electrónica e com MBA pela London Business School, conheceu Roman Stern, suíço de Zurique, com percurso em consultoria e imobiliário, em contexto profissional. Trabalharam juntos, tornaram-se sócios, casaram. O projeto de vida e o projeto empresarial avançaram em paralelo.
“Portugal surgiu muito cedo como uma possibilidade séria”, recorda Chitra. “Era um país seguro, com boa comida, clima extraordinário e pessoas que sabem receber. Sentia-se que havia espaço para fazer algo diferente.” No início dos anos 2000, o casal muda-se para Portugal. Em 2002, compra o terreno em Sagres onde tudo viria a acontecer.
Sagres foi escolha, não concessão
Na altura, Sagres era frequentemente descrita como “longe demais”. Para os Stern, esse afastamento era precisamente o valor. “Queríamos natureza intacta, espaço, horizonte limpo. Um lugar onde o projeto não tivesse de competir com ruído.” A Costa Vicentina oferecia isso — e oferecia também um Algarve fora do postal fácil.
Desde o início, o desenho do Martinhal recusou a lógica do resort fechado sobre si mesmo. Baixa densidade de construção, integração na paisagem, respeito pelo ecossistema local, uso de plantas autóctones. “Não queríamos impor nada ao lugar. O resort tinha de parecer parte da paisagem, não um objeto pousado nela.”
A ambição era criar um resort de praia que funcionasse o ano inteiro. “Falava-se muito de Algarve sazonal. Nós queríamos o oposto.” Detalhes como aquecimento no chão, piscinas aquecidas e casas pensadas para o inverno tornaram-se sinais silenciosos dessa visão. Em 2010, não eram óbvios. Hoje parecem inevitáveis.
“Family-friendly não pode significar aceitar menos”
Quando o Martinhal abriu, o conceito de hotel de luxo para famílias ainda carregava um estigma. “Durante muito tempo, family-friendly foi sinónimo de concessão”, diz Chitra. “Menos design, menos cuidado, menos ambição. Como se viajar com crianças implicasse baixar expectativas.”
O Martinhal nasceu para contrariar essa ideia. “O nosso ponto de partida foi simples: famílias merecem espaços bem desenhados, contemporâneos, confortáveis. Sem infantilizar a experiência.” Isso traduziu-se em quartos comunicantes que fazem sentido, villas que respeitam a intimidade, áreas comuns elegantes, funcionais e longe da estética temática.
A vida pessoal foi afinando o projeto. Ao longo destes 15 anos, Chitra e Roman Stern tiveram quatro filhos, todos nascidos em Portugal. “Passámos a testar tudo na primeira pessoa. Isso muda completamente a forma como decides.” A experiência familiar deixou de ser conceito e passou a ser método.
Quinze anos depois, o Martinhal já não é apenas Sagres. O crescimento aconteceu de forma progressiva e coerente: Sagres, Quinta do Lago, Lisboa Chiado, Lisboa Oriente, Martinhal Residences — e, no horizonte, o regresso ao Algarve com Praia da Luz, previsto para 2027.
“O crescimento nunca foi um fim em si mesmo”, sublinha Chitra. “Sempre nos interessou criar um universo consistente.” A marca começou a desenhar não apenas lugares para ficar, mas formas de viver: residências com marca, projetos educativos, comunidades internacionais.
Educação como continuidade
A criação da United Lisbon International School, inaugurada em 2020 no Parque das Nações, surge como consequência natural desse universo em expansão, como resposta direta a uma necessidade sentida na primeira pessoa.
“Muitas das famílias que conhecíamos — portuguesas e internacionais — queriam ficar. Tinham escolhido Portugal para viver, mas sentiam falta de uma escola internacional alinhada com valores contemporâneos”, explica Chitra Stern. A resposta não passou por adaptar modelos existentes, mas por criar um novo projeto de raiz.
A United Lisbon nasce com um currículo internacional, foco em cidadania global, sustentabilidade, pensamento crítico e ligação à cidade. A arquitetura do campus, a relação com o espaço exterior e a diversidade da comunidade refletem a mesma lógica que orientou o Martinhal desde o início: qualidade sem ostentação, funcionalidade sem rigidez, visão de longo prazo.
“Para nós, educação e hospitalidade partilham a mesma responsabilidade: cuidar das pessoas, criar contexto, dar ferramentas para crescer”, resume. Tal como nos hotéis, também aqui a ideia de comunidade é central — alunos de dezenas de nacionalidades, famílias residentes, um projeto pensado para acompanhar quem escolheu Portugal como casa.
Integrada no ecossistema Martinhal, a United Lisbon consolida uma viragem de marca hoteleira para plataforma de vida. Um passo que ajuda a explicar porque o Martinhal deixou de ser apenas um lugar onde se fica — para se tornar um lugar onde se permanece.
Quinze anos celebrados com arte, design e bem-estar
A celebração do 15º aniversário coincidiu com uma edição especial do Art, Design & Wellbeing Weekend, iniciativa que o Martinhal desenvolve há mais de uma década. Desta vez, o formato foi excecional: em vez de um artista em residência, regressaram 16 criadores que marcaram edições anteriores.
“Interessava-nos olhar para trás com sentido”, explica Chitra. “Ver onde estavam quando passaram por Sagres e onde estão hoje.” A ideia de comunidade atravessa toda a programação — relações construídas ao longo do tempo, não colaborações efémeras.
O fim-de-semana reuniu exposições, talks, workshops, ativações criativas e momentos de celebração. O jantar de aniversário, assinado pelo chef executivo do grupo, Micael Valentim, foi pensado como uma narrativa gastronómica do território. “Quisemos que a comida também contasse o Algarve, sem folclore, com identidade.”
A condecoração atribuída a Chitra Stern pelo Governo português é recebida com sobriedade. “É uma honra, mas também uma responsabilidade.” O turismo, defende, deve crescer com critério, qualidade e visão de longo prazo. “Não se trata de fazer mais. Trata-se de fazer melhor.”
Chitra fala também de pessoas — da necessidade de talento, de políticas responsáveis de imigração, de reconhecer que setores como a hotelaria vivem de quem cuida. “Portugal tem tudo para ser uma referência global. Mas isso exige escolhas.”
Quando olha para o futuro, Chitra Stern evita previsões grandiloquentes. Prefere sinais evidentes: famílias que viajam em várias gerações, trabalho em movimento, procura por autenticidade. “As pessoas querem lugares onde possam estar”.
No final da conversa, regressa a Sagres. “Este lugar ensinou-nos muito. Sobre tempo, escala, respeito.” Quinze anos depois, o Martinhal continua a crescer a partir dessa lição inicial: desenhar luxo como experiência vivida.
Morada: Quinta do Martinhal, Apartado 54, Sagres
Telefone: +351 282 240 200
E-mail: res@martinhal.com
Website: www.martinhal.com
Preços: Valores variáveis consoante época e tipologia (hotel, villas e casas). Tarifas indicativas a partir de cerca de 150€ por noite, mediante disponibilidade.


















