O Victoria and Albert Museum, em Londres, inaugura em setembro a exposição Marie Antoinette Style, uma viagem ao estilo, à influência e ao mito da rainha mais controversa de França — entre Versalhes e a cultura pop.
Poucas figuras históricas despertam tanta curiosidade como Marie Antoinette. Casada aos 14 anos, coroada rainha aos 18 e guilhotinada aos 37, a última soberana do Antigo Regime continua a ser evocada como protagonista de um enredo que mistura romance, poder, opulência e tragédia. Agora, dia 20 de Setembro mais precisamente, mais de dois séculos depois, o Victoria and Albert Museum, em Londres, inaugura a exposição Marie Antoinette Style explorando a dimensão estética e cultural da mulher que muitos consideram ter sido a primeira grande influenciadora da história.
A mostra propõe um percurso que parte do século XVIII e chega ao presente, reunindo peças originais que pertenceram à rainha e criações inspiradas na sua imagem ao longo do tempo. Entre os objetos mais notáveis estão fragmentos de vestidos em cetim bordado a prata, sapatos de seda cor-de-rosa bordados com missangas, jóias em diamantes e pérolas que sobreviveram à Revolução, frascos de perfume do seu nécessaire de viagem e cartas manuscritas que revelam o lado íntimo de uma figura quase sempre vista através do prisma da ostentação. Os retratos oficiais de Élisabeth Vigée Le Brun, pintora da corte, convivem com peças de mobiliário de Versalhes, porcelanas de Sèvres e tecidos produzidos em Lyon, criando uma narrativa que cruza moda, artes decorativas e política.
A construção de um mito
O V&A não se limita a olhar para trás. O discurso expositivo põe em diálogo o passado e a contemporaneidade. A sessão fotográfica de Kate Moss no Ritz de Paris, feita por Tim Walker para a Vogue US em 2012, surge como contraponto moderno aos retratos oficiais da rainha. Os sapatos de Manolo Blahnik (que patrocina a exposição), criados para o filme Marie Antoinette de Sofia Coppola, aparecem lado a lado com os figurinos que reinventaram o rococó no grande ecrã. Até a moda pop encontra espaço, com a coleção outono-inverno de 2020 da Moschino, onde Jeremy Scott transportou Versalhes para a passerelle em versão kitsch. O resultado é uma exposição que funciona como espelho: revela tanto sobre a rainha quanto sobre os séculos de cultura que se seguiram.
Marie Antoinette sempre compreendeu o poder da imagem. Cliente assídua da sua modista Rose Bertin, foi pioneira em transformar o vestir num gesto de afirmação. O célebre retrato em que surge com um vestido de musselina branca, simples e leve, escandalizou a corte e marcou a sua reputação como mulher fora de convenções. Mas nada teria o impacto do chamado Escândalo do Colar de Diamantes, que em 1785 lhe destruiu a imagem pública.
O colar em questão tinha sido originalmente encomendado por Luís XV para Madame du Barry, sua amante. Morto o rei, a peça ficou por vender: uma criação exuberante, com centenas de diamantes, avaliada em somas astronómicas. Anos mais tarde, um grupo de vigaristas liderado por Jeanne de la Motte convenceu o cardeal de Rohan, ansioso por recuperar o favor da corte, de que estava a agir em nome da própria rainha. Forjaram cartas e até encenaram um encontro noturno nos jardins de Versalhes com uma cortesã que se fazia passar por Marie Antoinette. Rohan acreditou estar a intermediar a compra secreta do colar para a rainha, mas foi ludibriado.
Quando o esquema foi desmascarado, ficou provado que Marie Antoinette nada tivera a ver com a fraude. Ainda assim, a opinião pública já não lhe deu o benefício da dúvida. O episódio reforçou a perceção de uma rainha ávida de luxo e diamantes, indiferente à miséria popular. A injustiça marcou para sempre a sua reputação e transformou o colar num símbolo da desconfiança entre a coroa e o povo às vésperas da Revolução.
Da mesma forma, a frase “Que comam brioches”, nunca proferida pela rainha, tornou-se um dos soundbites mais famosos da história. A sua associação, embora falsa, cristalizou a ideia de uma mulher insensível ao sofrimento do povo. A exposição recorda como esse mito se enraizou e mostra como a rainha se tornou alvo de um escrutínio comparável ao das figuras públicas atuais, alvo de sátiras e caricaturas que antecipam a violência das redes sociais contemporâneas.
A rainha na cultura pop
Se o século XIX a recuperou em chave romântica, em bailes de máscaras e literatura sentimental, o século XX devolveu-lhe o estatuto de musa de Hollywood. Sofia Coppola, em 2006, deu-lhe uma leitura pop e melancólica, filmada em tons pastel e com música de New Order ou The Cure a ecoar pelos salões de Versalhes. Essa estética maximalista tornou-se tão icónica que ainda hoje é referida em coleções de moda, videoclipes e séries televisivas. Mais recentemente, a produção franco-britânica Marie Antoinette, lançada pela BBC e pela Canal+ em 2022, revisitou a sua história numa perspetiva feminista e atual, reforçando a pertinência da sua figura.
Também a música se apropriou do mito: do clássico “Killer Queen” de Freddie Mercury ao álbum Electra Heart de Marina Diamandis, passando pelo vídeo de Selena Gomez em que encarna a rainha e pela faixa Marie Antoinette da rapper Qveen Herby. Jay-Z chegou mesmo a citá-la em “Smile”, transformando a sua suposta arrogância num gesto de resistência perante a opinião pública. A cultura japonesa também não ficou indiferente: a manga The Rose of Versailles, publicado nos anos 70, transformou Marie Antoinette em personagem central de uma saga que gerou animes, musicais e um filme animado com estreia prevista para este ano.
Ao longo da exposição, fica claro que a rainha foi muito mais do que um produto do seu tempo. A sua vida breve tornou-se metáfora de poder e de excesso, mas também de vulnerabilidade e reinvenção. Os objetos originais, apresentados lado a lado com interpretações modernas, revelam a multiplicidade de olhares que sobre ela se projetam. Marie Antoinette permanece simultaneamente vilã e mártir, musa e bode expiatório, inspiração para a alta-costura e para slogans revolucionários.
No final, o V&A propõe uma reflexão mais profunda: o que torna esta figura tão cativante ainda hoje? Talvez a conjugação rara de glamour, espetáculo e tragédia, como assinala a curadora Sarah Grant, explique a sua permanência. Ou talvez seja a forma como a rainha, consciente ou não, antecipou uma cultura mediática que ainda hoje molda os destinos de quem vive sob os holofotes. Mais de duzentos anos depois da guilhotina, Marie Antoinette continua a ditar tendências, desta vez em Londres, com uma exposição que é tanto uma viagem à história como um retrato da nossa própria relação com a imagem e com o poder.
V&A South Kensington, Galerias 38 e 39, Londres
De 20 de Setembro 2025 a 22 de Março 2026






















