O conglomerado de luxo LVMH encerrou sete trimestres consecutivos de quebras na Moda e Maroquinaria. Dior, Louis Vuitton, Tiffany e Bvlgari lideraram um semestre de recuperação que o grupo entra com renovada confiança.
Sete trimestres é tempo suficiente para criar uma narrativa. No setor do luxo, onde a perceção de desejabilidade vale tanto quanto o resultado operacional, sete trimestres consecutivos de quebras na divisão mais estratégica do maior grupo do mundo não passam despercebidos. O segundo trimestre de 2026 encerrou esse ciclo. A Moda e Maroquinaria do LVMH regressou ao crescimento orgânico, e fê-lo com dois motores que o mercado estava a observar de perto: Jonathan Anderson na Dior e os 130 anos do Monograma da Louis Vuitton.
Os resultados do primeiro semestre de 2026 registam uma receita de 38,6 mil milhões de euros, com o crescimento orgânico do grupo a acelerar para 3% no segundo trimestre, ou 4% excluindo o impacto do conflito no Médio Oriente. O lucro líquido, da quota do grupo, situou-se nos 5,7 mil milhões de euros, estável face ao mesmo período de 2025. A margem operacional manteve-se num nível muito elevado, nos 22,5%, mesmo com o resultado operacional a ser negativamente afetado pelas flutuações cambiais. Em paralelo, a dívida financeira líquida desceu 19%, para 8,2 mil milhões de euros, um sinal de robustez que vai além dos títulos.
Bernard Arnault, presidente e CEO do grupo, sintetizou a postura do LVMH com a clareza que lhe é característica: “As nossas maisons continuaram a inspirar sonhos e a reforçar a sua desejabilidade. A aceleração do crescimento no segundo trimestre resultou em particular do sucesso das primeiras criações de Jonathan Anderson para a Christian Dior, do desempenho notável das novas lojas excecionais da Louis Vuitton em Pequim e em Seul, e das linhas icónicas da Tiffany e da Bvlgari.”
A Cigale, o Monograma e a arte de reinventar o legado
Na Moda e Maroquinaria, os dois protagonistas do semestre contam histórias com origens distintas mas com a mesma lógica: o luxo que resiste é o que sabe ler os seus próprios arquivos.
A Louis Vuitton celebrou os 130 anos do seu lendário Monograma, prestando homenagem às suas carteiras icónicas e enriquecendo a oferta com o Monogram Emblème e a tela jacquard histórica das primeiras malas de viagem. A maison continuou a expressar a sua visão cultural através das lojas, oferecendo experiências únicas, como as novas flagships em Pequim e em Seul, com excelentes resultados. O Monograma foi criado em 1896 por Georges Vuitton, filho do fundador, como resposta à contrafação crescente. Tornou-se, paradoxalmente, um dos padrões mais imitados da história do design. Cento e trinta anos depois, a maison usa esse aniversário para reafirmar a autenticidade que está na origem de tudo, como argumento comercial de plena atualidade.
Na Dior, o movimento foi de outra natureza. A Christian Dior acelerou com o excelente arranque das primeiras criações de Jonathan Anderson. Inspirado num vestido criado por Monsieur Dior, a carteira Cigale foi particularmente bem recebida. Os destaques do semestre incluíram a abertura do Bamboo Pavilion em Tóquio e de uma nova House of Dior em Osaka.
Em entrevista publicada pela Vogue, Anderson descreveu o processo que conduziu à Cigale: pediu que lhe trouxessem seis looks de cada diretor criativo que passou pela maison. De toda essa revisão de arquivo, foi o vestido La Cigale, apresentado em 1952, que o deteve. “O meu favorito de toda a história da moda”, declarou. “É tão aerodinâmico — a construção é extraordinária.” A carteira que daí resultou transporta essa arquitetura para o couro: o corpo estruturado, a cintura implícita, o laço que é construção e identidade. Desde a sua estreia na coleção Primavera-Verão 2026, o stock dos primeiros artigos chegados às boutiques esgotou rapidamente, e a Cigale regressou ao desfile Outono-Inverno 2026, confirmando que se trata de uma aposta de longo prazo.
O semestre contou ainda com outros movimentos dentro da divisão. A Loro Piana registou mais um excelente desempenho e apresentou a nova coleção Nomadic Reverie, ilustrando a rica experiência sensorial e o savoir-faire da maison nas criações têxteis, enquanto a sua linha de maroquinaria foi enriquecida com a Extra Softy Bag. A Rimowa registou um forte crescimento no semestre e a Berluti também teve um bom início de ano. Foi ainda celebrado um acordo com a WHP Global para a venda da Marc Jacobs pelo LVMH. Michael Rider na Celine, Jack McCollough e Lazaro Hernandez na Loewe, Sarah Burton na Givenchy e Maria Grazia Chiuri na Fendi prosseguem as suas renovações criativas, uma segunda linha de apostas que o grupo gere em simultâneo, com paciência e método.
Joalharia, champanhe e o peso do contexto geopolítico
O segundo motor de crescimento mais expressivo do semestre foi a Joalharia e Relojoaria. A divisão registou um crescimento orgânico de 11% no segundo trimestre, marcando uma aceleração, com a margem operacional a subir ao longo do semestre.
A Tiffany & Co. alcançou um desempenho excelente e prosseguiu o reforço bem-sucedido das suas linhas icónicas, Knot e HardWear em particular, e a renovação da rede de lojas. Natalie Portman tornou-se a nova embaixadora da maison. A Bvlgari registou igualmente um forte crescimento e revelou uma nova visão artística para a alta joalharia e os relógios de prestígio com a Eclettica, que gerou receitas recorde. A coleção Serpenti foi apresentada numa nova campanha de comunicação. A Chaumet continuou a desenvolver a coleção Bee de Chaumet e, nos relógios, a TAG Heuer manteve uma presença de destaque nos Grandes Prémios de Fórmula 1.
Os Vinhos e Espirituosos apresentaram finalmente sinais claros de recuperação. A divisão registou um crescimento orgânico de 5% e um aumento do resultado operacional de 11% no primeiro semestre de 2026. O champanhe deu sinais encorajadores, em particular nas cuvées de prestígio. A Moët & Chandon arrancou a sua segunda época como champanhe oficial dos Grandes Prémios de Fórmula 1. Na China, o cognac Hennessy manteve o impulso positivo iniciado durante o Ano Novo Chinês. Os vinhos rosé de Provence continuaram a progredir.
O contexto em que estes resultados foram obtidos merece ser sublinhado. O conflito no Médio Oriente retirou um ponto percentual ao crescimento orgânico do trimestre, com o tráfego turístico a recuperar lentamente nos destinos de compras do Golfo. As flutuações cambiais, com um impacto negativo de 5% sobre as receitas reportadas, explicam a diferença entre o crescimento orgânico sólido e os números totais, que mostram uma descida de 3% face ao primeiro semestre de 2025. São variáveis exógenas que o grupo gere com rigor e que tornam o desempenho operacional ainda mais significativo.
A CFO Cécile Cabanis desafiou, durante a apresentação de resultados, a teoria de que o luxo se tornou um jogo de soma zero entre marcas. Apontou o crescimento de dois dígitos das vendas da Dior nos EUA e no Japão como evidência de que “onde existe criação de riqueza, existe apetite por produtos de luxo”, referindo o forte desempenho bolsista nessas geografias, impulsionado pelo boom da inteligência artificial, como catalisador de procura.
No Retalho Seletivo, a Sephora registou um crescimento orgânico sustentado e reforçou a sua posição de liderança global, com ganhos de quota de mercado em vários países. Entre os lançamentos exclusivos do semestre, o Rhode foi um grande sucesso na América do Norte e no Reino Unido. A rede de lojas continuou a expandir-se, com entradas bem-sucedidas na Bélgica e na Croácia. Le Bon Marché voltou a registar crescimento de receitas, impulsionado pela sua estratégia de diferenciação.
O grupo fecha o semestre com um cash flow operacional livre de 4,1 mil milhões de euros e entra no segundo semestre, nas palavras do próprio Arnault, “com renovada confiança no potencial a longo prazo das nossas maisons e nas nossas equipas altamente empenhadas em continuar a distinguir-se e a reforçar a posição de liderança do LVMH”. Está ainda previsto o pagamento de um dividendo intercalar de 5,50 euros por ação a 3 de Dezembro de 2026.
Sete trimestres de quebras terminaram. O que se segue é outra conversa, e pelo que os números do segundo trimestre sugerem, começa bem.










