No topo do novo Andaz Lisbon, o Luzzi cruza Portugal, Brasil, África, Goa, Macau e Cabo Verde numa cozinha moderna lusitana, servida num espaço bonito, descontraído e com ambição gastronómica.
A Baixa lisboeta vive quase sempre ao nível da rua. Montras, elétricos, grupos em marcha lenta, menus traduzidos em três idiomas, passos apressados, turistas em modo bússola avariada e aquele movimento contínuo de cidade sem pausas. O Luzzi escolhe outra altitude. Instalado no sexto andar do novo Andaz Lisbon, na Rua do Comércio, propõe uma leitura mais colorida, tropical e cosmopolita do centro histórico.
O restaurante marca a diferença, antes de tudo, pelo espaço. O projeto de interiores do Andaz Lisbon é assinado pelo Studio Urquiola, liderado por Patricia Urquiola, e parte de uma interpretação contemporânea de Lisboa, da sua herança material e do seu carácter híbrido. A marca Andaz, do grupo Hyatt, estreou-se em Portugal com este hotel, inaugurado em março, ocupando um quarteirão histórico da Baixa, num edifício associado à reconstrução pombalina depois do terramoto de 1755.
No Luzzi, a sala não se fica pela elegância neutra de tantos restaurantes de hotel, onde tudo parece ter sido escolhido para não incomodar. Aqui, a decoração tem personalidade. Plantas a desenhar uma espécie de selva urbana, sofás de cores fortes, mesas e cadeiras com padrões diferentes, uma parede de fundo pintada com animais, folhas e formas tropicais. A composição podia descarrilar para cenário de festa temática, mas nada disso. Tem exuberância, sim, mas também uma lógica visual que acompanha a proposta gastronómica: Portugal visto pelo lado das viagens, dos regressos e das contaminações.
A cozinha chama-se “lusitana moderna”: Brasil, África, Goa, Macau, Cabo Verde, Atlântico, especiarias, técnicas contemporâneas e produtos portugueses entram no mesmo campo de jogo. A decoração ajuda a contar essa história antes de o primeiro prato chegar. Não ilustra a carta de forma literal, mas prepara o ambiente para uma cozinha que não quer Portugal fechado numa moldura.
Uma Lisboa menos bege
O mérito do Luzzi está muito nessa recusa do bege hoteleiro. A Baixa precisava de um restaurante que não confundisse centralidade com prudência estética. O Andaz Lisbon foi pensado como uma extensão da cidade, com interiores que recorrem a materiais e referências portuguesas, como cortiça, cerâmica, azulejo, pedra, madeira e padrões inspirados na calçada portuguesa. A arte do hotel foi curada por Federica Sala, com obras e instalações de criadores como Luisa Ramires, Rosarinho Andrade e Studio Krus, num exercício de narrativa visual que atravessa os espaços comuns.
Esse contexto interessa porque o Luzzi não vive isolado dentro do hotel. Faz parte de um projeto maior, onde o design tenta afastar-se da fórmula internacional que podia estar em Lisboa, Barcelona ou Singapura sem que ninguém desse por isso. O Andaz quis marcar território através da identidade local e o restaurante é talvez o ponto onde essa intenção se torna mais livre. A paleta cromática ganha força. Os materiais aquecem. A vegetação entra em cena. O rooftop acrescenta vista, ar, luz e uma sensação de suspensão sobre a Baixa.
Patricia Urquiola sabe trabalhar esta fronteira difícil entre conforto, narrativa e surpresa. No Luzzi, o resultado não é minimalista, nem pretende sê-lo. A sala tem qualquer coisa de salão tropical, clube urbano, restaurante de hotel e casa de jantar viajada. O efeito é simpático, vivo, fotogénico sem parecer escravo da fotografia. Uma raridade nestes tempos em que muitos restaurantes novos parecem desenhados primeiro para o ecrã e só depois para a mesa.
A vista também trabalha a favor da experiência. O Luzzi não precisa de se anunciar como miradouro, mas beneficia desse lugar elevado. A Baixa fica próxima, reconhecível, quase cenográfica, mas deixa de impor o seu nervosismo. Esse afastamento cria espaço para outra Lisboa: menos apressada, menos turística no sentido gasto da palavra, mais disponível para uma refeição que quer durar.
Portugal, mas sem redoma
À frente da cozinha está Bruno Alves, chef brasileiro com percurso pouco óbvio e, por isso mesmo, interessante. Antes de entrar no universo da restauração, trabalhou em publicidade, onde chegou a diretor criativo. Depois mudou de vida, passou por Itália, abriu em São Paulo o Albertina, distinguido com Bib Gourmand pelo Guia Michelin, trabalhou em Portugal e na Costa Rica, e regressa agora a Lisboa como chef executivo do Andaz Lisbon e do Luzzi. A sua cozinha não parece interessada em defender uma ideia pura de portugalidade. Prefere seguir desvios, influências e cruzamentos.
A carta abre logo esse mapa. Nos petiscos, o quibe cru surge com bulgur, molho cítrico de tahini e pastel. A coxinha de galinha africana junta piri-piri, amendoim e queijo de Azeitão DOP. A chamuça de camarão e chouriço vem com chutney de tamarindo. A salada de polvo à Lusitânia cruza milho, amendoim, leite de coco, crocante de banana e manga verde. O resultado é uma mesa de ecos lusófonos sem transformar cada prato numa bandeira.
Nas entradas, a viagem continua com atum de Cabo Verde em tártaro e creme de milho, carabineiro piri-piri com alho frito e bisque, lula de Macau recheada com arroz de mariscos, funcho, ervas frescas e picles de couve branca. Os dumplings, de camarão com tucupi, de tofu ou de frango cafreal, assumem de forma ainda mais clara a liberdade do projecto. Nem tudo precisa de caber numa tradição reconhecível. Alguns pratos existem precisamente para baralhar a geografia.
O Luzzi é particularmente interessante quando não tenta explicar-se demasiado. A boa cozinha de influência, sobretudo quando atravessa territórios tão carregados de história, precisa de mão e instinto. Não basta juntar ingredientes de diferentes latitudes e esperar que a mesa se resolva sozinha. O que funciona melhor aqui é a ideia de composição: acidez para levantar, gordura para segurar, especiaria para dar profundidade, textura para evitar que a viagem se torne apenas narrativa.
Uma carta que olha para fora sem perder Lisboa
Nos pratos principais, a cozinha alarga o fôlego. A moqueca de camarão e mariscos, com creme de moqueca, farofa de caju e arroz de coentros, é uma das propostas que melhor traduzem o espírito da casa. Não se apresenta como réplica de uma moqueca tradicional brasileira, nem como versão domesticada para turista curioso. Procura antes um ponto de conforto e composição, com marisco, especiaria e coentro a puxarem a memória para sul.
O peixe do dia em folha de bananeira, servido com beurre blanc de vinho verde, feijão verde e abóbora, resume bem o modo de pensar do Luzzi: técnica francesa, produto atlântico, referência tropical e um detalhe português colocado sem esforço. O lavagante com açorda, grelhado em carvão e servido com manteiga de gengibre e curcuma, é o prato de maior aparato e também de preço mais sério.
Nas carnes, o pato à Augusta junta arroz de pato, pato laqueado em Porto, chouriço e laranja grelhada. O borrego surge com xacuti, poejo, ervilha e arroz de limão. A pintada aparece em púcara, com cachupa e cebola caramelizada. A carta gosta de pontes, algumas mais intuitivas, outras menos óbvias, e essa é uma das suas qualidades. Lisboa já viu muitos restaurantes novos a invocar viagens. O Luzzi parece menos preocupado em parecer cosmopolita e mais interessado em cozinhar as consequências dessa cosmopolítica à portuguesa.
Também vale olhar para o capítulo vegetal, porque não surge como nota de rodapé. A couve-flor vindaloo, inteira, assada, com molho vindaloo e puré da estação, tem carácter suficiente para se impor. A feijoada lusitana, com feijões, cogumelos e couve grelhada, trabalha a ideia de abundância sem recorrer à proteína animal. A tradição pode ser reorganizada, desde que não seja tratada como peça de museu.
As sobremesas mantêm o jogo de espelhos. Bebinca, doce conventual de Goa, com gelado de coco queimado e redução de Porto. Serradura com amêndoa, bavaroise, figo e mel. Quindim com sorvete de maracujá. Torta de chocolate com café, creme de baunilha e sal do Algarve. O fim da refeição continua dentro da mesma família narrativa, com açúcar, convento, Brasil, Índia e Portugal sentados à mesma mesa.
O bar prolonga a noite
O Luzzi não vive apenas da cozinha. A carta de vinhos revela vontade de posicionamento e começa logo nos copos, com espumante Filipa Pato & William Wouters, brancos como Quinta do Ameal e Adega do Vulcão, tinto Quinta do Monte d’Oiro, rosé Frederica e fortificados de Porto, Carcavelos, Setúbal e Madeira. Na garrafa, a seleção percorre várias regiões portuguesas, do Vinho Verde ao Douro, Dão, Bairrada, Lisboa, Alentejo, Algarve e Açores, antes de avançar para França, Itália, Espanha, Alemanha, Nova Zelândia, África do Sul, Estados Unidos, Argentina e Chile.
A carta inclui nomes acessíveis e garrafas de peso, de Barca Velha a Opus One, de Vega Sicilia a Château Margaux, passando por Krug, Dom Pérignon, Biondi-Santi ou López de Heredia. Para um restaurante novo, é uma seleção que procura afirmar estatuto. Também por aqui se percebe que o Luzzi não quer ser apenas uma mesa bonita de hotel. Quer entrar no circuito dos lugares onde se janta, se bebe bem e se fica depois da conta.
Esse prolongamento acontece no Z Bar e no Z Terrace, extensão natural do restaurante, com cocktails de assinatura, petiscos e uma atmosfera mais descontraída. A carta de bar segue a mesma lógica de mistura cultural: sake, espumante e lichia em The Pearl; tequila, abóbora, especiarias, canela e malagueta em Pump The Jam; gin, vermute de sakura, chá branco, pétalas de rosa e ruibarbo em Floral Armada; rum, manga, curcuma e cardamomo em The Holi Drink. A alternativa sem álcool, From Zero to Hero, com gengibre e lima kaffir, evita o canto triste onde tantas cartas ainda arrumam os cocktails zero, feitos de sumo, gelo e resignação.
O Z Terrace acrescenta ainda programação musical e cultural, com sessões de DJ, live sessions e encontros pensados para prolongar a experiência para lá do jantar. O próprio site do Luzzi apresenta o espaço como um lugar de encontro, música e design, mais próximo de um lifestyle restaurant do que de um restaurante clássico de hotel.
Lisboa tem assistido a uma multiplicação de aberturas em que a cenografia chega antes da cozinha.
No Luzzi, a sala é de facto o ponto mais forte, mas a mesa não se esconde atrás do cenário. A decoração dá-lhe identidade, cria memória e justifica a subida ao sexto andar. Falta-lhe talvez tempo, essa coisa que nenhum restaurante consegue inaugurar, para ganhar maior precisão, ritmo e assinatura própria. Ainda assim, a primeira visita deixa uma sensação boa: a de um espaço novo que sabe ao que veio, com ambição, mundo e margem para crescer.
Morada: Hotel Andaz Lisbon, Rua do Comércio, nº132, 6º, Lisboa
Horário: Terça-feira a sábado, das 17h00 à 01h00.
Reservas: 21 020 58 53























