A Air France redesenhou o lounge La Première em Paris-Charles de Gaulle e transformou a escala num capítulo da viagem, com cozinha de Alain Ducasse, spa Sisley, arte contemporânea e privacidade à medida.
Os aeroportos vivem obcecados com as horas. Chegar, passar os controlos, localizar a porta, embarcar. Uma coreografia apressada que raramente deixa espaço para outra coisa além da eficiência. No lounge La Première da Air France, em Paris-Charles de Gaulle, o tempo segue agora uma lógica diferente. Não se procura apenas encurtar a espera: pretende-se dar-lhe valor.
A companhia aérea francesa acaba de reabrir o seu espaço mais exclusivo no Terminal 2E, depois de uma renovação conduzida pelas equipas da Air France em colaboração com a MARKS Brandimage. Com mais de mil metros quadrados, o lounge surge como a continuação em terra da nova cabine La Première e integra uma estratégia iniciada em 2024, quando a companhia apresentou um percurso aeroportuário reservado, desde o check-in até à entrada no avião.
O endereço interessa também aos passageiros portugueses. Quem iniciar a viagem em Lisboa, Porto ou Faro e prosseguir, através de Paris, num voo de longo curso em La Première pode usufruir do espaço durante a ligação. A equipa recebe o passageiro à chegada a Charles de Gaulle e acompanha-o até ao lounge, retirando da equação parte do ruído, da orientação por placas e da inevitável negociação com um dos maiores aeroportos europeus.
A renovação mostra ainda onde se joga hoje boa parte da competição na primeira classe. A experiência já não começa quando se ocupa o lugar no avião. Começa no modo como se atravessa o aeroporto, na possibilidade de almoçar sem olhar constantemente para o relógio e, sobretudo, na sensação de que alguém tomou conta da logística.
Uma sala com sotaque francês
A entrada no novo lounge faz-se através de uma assinatura invisível. AF001, a fragrância ambiente criada para a Air France por Francis Kurkdjian, perfumista e diretor artístico da Maison Francis Kurkdjian, introduz o espaço através de um aroma discreto. É uma forma particularmente francesa de definir um território: antes da arquitetura, chega o perfume.
No interior, a paleta clara, os materiais quentes e a iluminação suave procuram afastar o ambiente da linguagem corporativa que ainda domina muitos espaços aeroportuários. O lounge tornou-se simultaneamente mais aberto e mais reservado. Poltronas amplas, sofás, nichos e divisórias quebram a escala da sala e criam pequenas áreas individuais, onde é possível conversar, ler ou simplesmente permanecer sem exposição constante.
Entre as peças escolhidas encontra-se a Ribbon, a poltrona desenhada por Pierre Paulin em 1966 e transformada num dos ícones do design francês do século XX. As imagens do arquivo da companhia completam o cenário, estabelecendo uma ligação com a história visual da Air France, marcada por cartazes, uniformes e colaborações com criadores franceses.
A arte contemporânea ocupa um lugar igualmente calculado. A companhia compromete-se a apresentar uma nova obra no lounge a cada seis meses. A reabertura é assinalada com Wonder Block, de Jean-Michel Othoniel, um monólito em tons de âmbar e rosa indiano que pode ser lido como parede, pilar ou totem. A escala monumental da peça contrasta com a delicadeza das superfícies e introduz no espaço uma presença que não é meramente decorativa.
O resultado evita a tentação de preencher cada metro quadrado. Num aeroporto por onde passam dezenas de milhões de passageiros por ano, o verdadeiro privilégio pode estar precisamente na possibilidade de preservar algum vazio.
Ducasse antes da descolagem
O centro do lounge continua a ser a sala de refeições, agora com maior capacidade e serviço à mesa para todos os passageiros. A gastronomia tem assinatura de Alain Ducasse e da sua equipa, responsáveis por uma carta que transpõe para o aeroporto alguns dos códigos do restaurante francês: pratos preparados no momento, serviço individual e uma sequência pensada para se adaptar ao tempo disponível.
As célebres coquillettes com presunto e trufa negra permanecem no menu, ao lado de propostas vegetarianas sazonais e do baba servido com rum ou Armagnac, sobremesa associada ao universo de Ducasse em Monte Carlo. A oferta é acompanhada por uma carta de vinhos e champanhes criada por Xavier Thuizat, sommelier-chefe da Air France, e por uma seleção de grands crus escolhida pelas equipas do chef.
Em 2025, a Skytrax distinguiu este serviço como a melhor experiência gastronómica num lounge de primeira classe. O prémio ajuda a explicar por que motivo a renovação não tentou reinventar a cozinha, concentrando-se antes na sala, no número de mesas e na qualidade do tempo passado à mesa.
O bem-estar ocupa outra parte importante dos novos interiores. O spa Sisley ganhou uma segunda sala de tratamentos e passou a oferecer uma resposta mais ajustada ao ritmo de cada viagem. Os cuidados são definidos em função do tempo disponível, seja antes de um voo noturno, durante uma escala prolongada ou entre duas etapas particularmente exigentes.
A zona de repouso também foi redesenhada. Quartos individuais com espreguiçadeiras, edredões e almofadas permitem dormir ou recuperar alguma energia longe da circulação principal. Para quem precisa de trabalhar, foi criada uma área própria, incluindo uma cabine fechada para chamadas e reuniões que não devem tornar-se públicas por acidente — um pormenor sensato num espaço frequentado por decisores, empresários e figuras expostas.
A privacidade como destino
O lounge integra um percurso que começa antes de o passageiro chegar à sala. Em Paris-Charles de Gaulle, os clientes La Première dispõem de um vestíbulo privado para o check-in, assistência com a bagagem e um trajeto reservado até ao lounge, incluindo um controlo de segurança dedicado. À hora do embarque, são conduzidos até ao avião num Porsche Cayenne híbrido e recebidos pessoalmente pela tripulação.
Junto ao lounge encontram-se ainda três suites privativas com cerca de 45 metros quadrados, duas das quais podem ser ligadas mediante pedido. Cada uma inclui sala de estar, zona de trabalho e refeições, quarto com cama de casal, casa de banho e pátio exterior. Podem receber até quatro pessoas e funcionam como opção adicional para quem pretende atravessar o aeroporto com um grau quase residencial de privacidade.
Champanhe e caviar Sturia marcam a chegada. O almoço ou jantar pode ser servido na própria suite, a partir do menu de Alain Ducasse, e os tratamentos Sisley podem ser reservados mediante disponibilidade. Obras de arte, flores frescas e referências ao design francês dão a cada unidade uma identidade própria, evitando a impessoalidade habitual das salas privadas de aeroporto.
Esta renovação completa a transformação da La Première iniciada a bordo. A nova cabine, apresentada em 2025, é composta por apenas quatro suites em determinados Boeing 777-300ER. Cada uma ocupa cerca de 3,5 metros quadrados e estende-se ao longo de cinco janelas, combinando um assento com uma chaise longue que se transforma numa cama de dois metros. No verão de 2026, a Air France prevê ter a nova configuração instalada em 19 aeronaves, ao serviço de 14 destinos a partir de Paris.
A escala deixa, assim, de ser um intervalo pouco nobre entre duas geografias. No novo lounge La Première, pode incluir um almoço demorado, um tratamento de rosto, algumas horas de sono ou uma porta fechada sobre o movimento do terminal. Tudo antes de o avião sequer abandonar o chão. A aviação comercial habituou-nos a medir distâncias em horas. A Air France parece interessada numa unidade diferente: a qualidade desse tempo.
Localização: Terminal 2E, Aeroporto Paris-Charles de Gaulle, França
Área: Mais de 1.000 m²
Acesso: Incluído nos itinerários em cabine La Première; disponível para passageiros que viajem a partir de Lisboa, Porto ou Faro e façam ligação em Paris para um voo elegível
Gastronomia: Menu de Alain Ducasse e equipa; carta de vinhos e champanhes de Xavier Thuizat
Bem-estar: Spa Sisley com duas salas de tratamentos; marcação sujeita a disponibilidade
Outros serviços: Quartos individuais de repouso, duches, zonas de trabalho, cabine privada para chamadas e acompanhamento até ao avião
Preço: Acesso ao lounge incluído no bilhete La Première. Suites privativas disponíveis como opção adicional, mediante reserva, disponibilidade e consulta de preço
Reservas e informações: airfrance.pt














