Na Art Basel Paris, a Louis Vuitton apresentou na semana passada a coleção Artycapucines VII, criada com Takashi Murakami — um reencontro entre arte e luxo que revisita duas décadas de colaboração e fascínio mútuo.
O Grand Palais voltou a ser palco de uma visão que desafia fronteiras. Sob a cúpula de vidro, uma escultura de oito metros em forma de polvo luminoso estendia os tentáculos sobre os visitantes, envolvendo-os num universo que oscilava entre sonho e delírio. Foi assim que a Louis Vuitton escolheu apresentar, na Art Basel Paris, a nova coleção Artycapucines VII, assinada por Takashi Murakami.
O momento assinalou o reencontro entre dois nomes cuja afinidade estética atravessa décadas. Vinte anos depois de o artista japonês ter reinventado o monograma da maison com o icónico Monogram Multicolore, Murakami regressa com uma nova interpretação — exuberante, meticulosa e fiel ao espírito Superflat que o consagrou.
A arte como matéria-prima
A Capucines, modelo de eleição da Louis Vuitton desde 2013, transforma-se aqui em tela tridimensional. O Capucines BB Golden Garden reflete, em couro e folha de ouro, a poesia floral de Ogata Kōrin’s Flowers; o Capucines Mini Mushroom evoca uma floresta psicadélica de cem cogumelos moldados e bordados à mão; o Capucines Mini Tentacle reinventa o saco como criatura viva, com sete tentáculos em resina vermelha e azul aplicados um a um; e o Capucines East West Dragon reproduz, com precisão pictórica, os nove painéis do célebre Dragon in Clouds Indigo Blue.
Entre as criações mais exuberantes, destaca-se a Panda Clutch, minaudière em latão prateado com 6300 cristais aplicados manualmente — uma peça que parece sair diretamente de uma animação japonesa, entre humor e brilho. Outras, como o Capubloom e o Capucines East West Rainbow, multiplicam-se em pétalas multicoloridas e sorrisos metálicos, transformando o acessório em escultura portátil.
Cada detalhe revela um processo técnico de enorme complexidade — marchetaria, impressão 3D, esmalte pintado, resina moldada à mão — e confirma a mestria dos ateliers Vuitton no território em que o artesanato se torna expressão artística.
Um palco à medida
No Grand Palais, o visitante é convidado a entrar num cenário onde cada elemento prolonga o gesto artístico. O chão, impresso com motivos tentaculares, reflete as cores e texturas da instalação central. Entre luzes difusas e música ambiente, as onze peças da coleção revelam-se como esculturas portáteis — pequenas arquiteturas de couro, metal e imaginação.
O espaço Louis Vuitton funcionava como galeria efémera, reafirmando a vocação da maison enquanto editora de objetos culturais. A cenografia de Murakami transformava o ato de expor em experiência sensorial, e cada carteira surgia como uma obra capaz de unir o virtuosismo técnico à fantasia.
Luxo, cultura e continuidade
O caminho que une Murakami e a Louis Vuitton é também o retrato de uma época. Em 2003, o então diretor artístico Marc Jacobs convidou o artista japonês a reinterpretar o monograma da marca — e o resultado foi uma explosão de cor que redefiniu a estética do luxo no início do milénio. Pela primeira vez, a moda dialogava abertamente com a cultura pop, as personagens de manga e o universo digital.
A parceria prolongou-se por vários anos e deu origem a edições hoje míticas — Monogram Cerises (2004), Monogramouflage (2008) — até se transformar em ícone de uma geração. Com o tempo, o diálogo adormeceu, mas nunca se perdeu. A coleção agora apresentada em Paris marca o regresso dessa cumplicidade criativa, celebrando vinte anos de uma história que continua a redefinir os limites entre arte e mercado.
Com mais de sessenta anos, Takashi Murakami mantém-se fiel à sua estética híbrida e inconfundível, onde o lúdico e o filosófico se encontram. A Louis Vuitton, por sua vez, renova o legado de Gaston-Louis Vuitton, pioneiro ao convidar artistas a criar vitrinas e objetos singulares. No final, luxo e arte revelam-se duas faces da mesma inquietação: a vontade de transformar a imaginação em matéria, o objeto em emoção.





















