Catorze anos depois da última edição, a maison francesa relança a Classic Run com uma travessia pelos Dolomitas, de Veneza a Monza, em setembro de 2026.
Quando a Fórmula 1 italiana arrancar em Monza a 4 de setembro, os motores modernos não serão os únicos a fazer vibrar o asfalto histórico do Autodromo Nazionale. Vinte e cinco automóveis clássicos, selecionados de algumas das mais importantes coleções privadas do mundo, vão desfilar na pista antes da corrida, num gesto que condensa décadas de relação entre Louis Vuitton e o mundo automóvel. É assim que termina o Dolomites Classic Run, o regresso de um evento que a maison parisiense não organizava desde 2012 e que volta agora com uma edição de quatro dias, entre 1 e 4 de setembro, atravessando o norte de Itália de Veneza a Milão.
A decisão de reativar a Classic Run partiu de Pietro Beccari, presidente e diretor executivo da Louis Vuitton desde 2023. A ligação é pessoal: em 2006, Beccari participou no Boheme Run, que ligou Budapeste a Praga passando por Viena, e essa memória permaneceu. Regressar ao universo dos automóveis clássicos era, para Beccari, uma forma de reiterar um vínculo que remonta às origens do próprio automóvel.
O gancho do momento veio do lado dos calendários: em 2024, o grupo LVMH assinou um acordo de patrocínio de dez anos com a Fórmula 1, abrangendo marcas como Louis Vuitton, Moët Hennessy e TAG Heuer. A chegada a Monza, templo da velocidade e palco do Grande Prémio de Itália, deixou de ser apenas poética para ser também estratégica.
Uma relação com mais de um século
Antes de ser evento, é história. Georges Vuitton desenhou a primeira mala automóvel da maison em 1897, substituindo as volumosas malas arredondadas da época por uma construção de topo plano, que inaugurou uma nova maneira de entender a bagagem. Poucos anos depois surgiu o Sac Chauffeur, uma bolsa de forma circular concebida para encaixar no compartimento da roda sobresselente dos primeiros automóveis, uma solução tão funcional quanto elegante, fiel à ideia de que cada novo meio de transporte merecia uma resposta à sua medida.
Essa lógica de adaptação, de encontrar a forma certa para cada viagem, percorre a história da Louis Vuitton como fio condutor. A convicção de que o que importa não é o destino, mas o próprio acto de viajar, sintetiza-se na expressão que a maison sempre cultivou: “L’invitation au voyage”. É dentro desse espírito que o Classic Run foi criado, em 1993, com uma primeira edição desafiante pela selva malaia. Seguiram-se paragens na Toscana, na China, no percurso Budapeste-Viena-Praga. Ao longo das suas edições, o evento construiu uma geografia emocional fiel ao ADN da maison, que a última edição, o Serenissima Run de 2012 concluído em Veneza, fechou numa chegada à cidade das águas. É precisamente a partir da região veneziana que Louis Vuitton escreve agora o capítulo seguinte.
De Villa Pisani a Monza: o percurso
A 2 de setembro, a caravana parte de Villa Pisani, uma das mais encantadoras propriedades do Véneto, em Stra, ao longo da Riviera del Brenta, e desenrola-se por 600 quilómetros ao longo de dois dias, cruzando passagens de montanha dramáticas, estradas sinuosas e paisagens de cinema, numa rota concebida como tributo à “Arte de Viajar” segundo Louis Vuitton. O percurso atravessa os Dolomitas, a cordilheira classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, antes de entrar na Lombardia rumo a Monza.
O formato é de provas de regularidade, não de velocidade pura. Os participantes devem manter uma velocidade média abaixo dos 50 km/h, e o evento está organizado em controlos de tempo, verificações de passagem e provas de velocidade média. O que se mede não é apenas quem chega mais rápido, mas quem conduz com maior precisão e elegância, valores que coincidem com a filosofia da maison e que transformam a prova numa celebração da condução como arte. Os veículos participantes, todos anteriores a 1970, incluem exemplares de Bugatti, Maserati e Ferrari provenientes de coleções privadas internacionais, selecionados pessoalmente pela maison.
O percurso inclui uma paragem no atelier Louis Vuitton de Fiesso d’Artico, onde os participantes têm acesso a um dos espaços de produção da maison, uma escolha que transforma a rota numa conversa entre o que se conduz e o que se faz à mão. A cerimónia de entrega de prémios decorrerá no Castello Sforzesco de Milão. O troféu que o vencedor vai receber é peça de arte por si só: desenhado pela artista neerlandesa Sabine Marcelis e produzido pela manufatura de vidro de Murano Venini, será entregue dentro de uma Malle Trophée Louis Vuitton. A frase que a maison usa para as suas malas de troféus desde 1988 — “A vitória viaja na Louis Vuitton” — ganha aqui todo o sentido.
Luxo como experiência, não como objeto
O regresso da Classic Run insere-se num movimento mais amplo que o luxo de topo vive com crescente convicção: o deslocamento do centro de gravidade do produto para a experiência. Não se trata de abandonar os objetos, mas de os contextualizar dentro de vivências que nenhum e-commerce consegue replicar. Conduzir um Ferrari dos anos cinquenta pelos Dolomitas, dormir num palácio veneziano, entrar no Autodromo de Monza antes do Grande Prémio, são experiências que produzem memória de forma diferente de qualquer aquisição.
Esta edição de 2026 é, a todos os títulos, inaugural da nova fase: a participação é gratuita para os colecionadores convidados, mas a maison prevê cobrar uma taxa de participação nas edições futuras. O que fica claro, desde já, é que a Louis Vuitton não está a organizar uma corrida de automóveis. Está a construir um mundo à sua volta, com a mesma atenção ao detalhe que aplicou às malas do século XIX. Os Dolomitas, o asfalto de Monza, o vidro de Murano, o atelier de Fiesso d’Artico: cada elemento do percurso foi escolhido para que a rota conte uma história coerente, da mala ao volante, da viagem à chegada.
O Grand Prix de Itália termina. Os motores modernos calam-se. E algures num paddock de Monza, um Bugatti anterior a 1970 espera a mala que há-de transportar o seu troféu. Louis Vuitton está de volta à estrada.
Datas: 1 a 4 de setembro de 2026
Percurso: Villa Pisani (Stra, Véneto) — Dolomitas — Autodromo Nazionale di Monza
Exposição pública: Villa Reale di Monza, 5 e 6 de setembro de 2026
Cerimónia de prémios: Castello Sforzesco, Milão

















