O Lisbon Bar Show regressa a Lisboa com o México como país convidado, um novo laboratório dedicado ao café e Tom Dyer a defender o flair como gesto, técnica e experiência.
Uma garrafa lançada ao ar é sinal de mestria. Depende, claro, de quem a segura, do sítio onde acontece e, sobretudo, do que vem depois. Na pior das hipóteses, o flair bartending fica reduzido a malabarismo de balcão, primo afastado da camisa aberta e da música demasiado alta. No melhor, transforma-se numa forma precisa de presença: um shaker que roda sem interromper a conversa, um Martini servido com altura suficiente para chamar a atenção, um gesto mínimo capaz de dizer ao cliente que aquela bebida não nasceu em piloto automático.
É nesse ponto de equilíbrio, algures no território delicado onde a técnica encontra a experiência, que o Lisbon Bar Show regressa a Lisboa. A 11ª edição do evento realiza-se nos dias 19 e 20 de maio, na Sala Tejo da MEO Arena, reunindo bartenders, marcas, profissionais de restauração, cafetaria, hotelaria e curiosos com vontade de perceber o que se passa do outro lado do balcão. Este ano, o México é o país convidado, o café ganha estatuto próprio com o novo Lisbon Coffee Lab e o programa internacional traz a Lisboa nomes como Tom Dyer, Kate Gerwin, Iain McPherson, Jared Brown e Anistatia Miller.
O evento, fundado por Alberto Pires, já não vive apenas da curiosidade natural de um setor em expansão. Vive de uma pergunta mais interessante: que cultura de bar está Portugal a construir? Durante anos, o país foi visto como mercado competente, turístico, talvez promissor. Hoje, a conversa mudou. “Portugal deixou de ser emergente quando passou a contribuir ativamente para a conversa global”, defende Alberto Pires. O fundador do Lisbon Bar Show aponta uma década de evolução na hospitalidade portuguesa, marcada por profissionais mais preparados, consumidores mais exigentes e bares capazes de trabalhar produto local, referências nacionais e uma forma de receber que já não se limita a replicar Londres, Nova Iorque ou Barcelona.
A declaração tem peso porque o setor mudou de escala, mas também de autoestima. A mixologia em Portugal ganhou vocabulário próprio. Entraram ingredientes sazonais, destilados nacionais, colaborações com cozinha, cartas desenhadas como narrativas e uma relação cada vez mais consciente com território. O cocktail passou a ser lido no conjunto: copo, ambiente, serviço, luz, som, história, ritmo da sala. O cliente deixou de avaliar apenas se a bebida estava boa. Quer perceber porque existe, como foi pensada e que tipo de noite lhe está a ser proposta.
Menos malabarismo, mais serviço
Tom Dyer conhece bem o peso da palavra “espetáculo”. Campeão mundial e uma das grandes referências internacionais do flair bartending, chega ao Lisbon Bar Show para apresentar o seu novo livro no Fórum Mojito e para defender uma ideia menos óbvia do que parece: o flair não precisa de ser espalhafatoso para ser relevante.
Durante muito tempo, a disciplina ficou associada à imagem do bartender que lança garrafas, roda shakers e transforma o balcão numa pista de exibição. Essa dimensão continua a existir, sobretudo em contextos de grande energia, bares de volume, discotecas ou destinos turísticos onde o cliente procura entretenimento direto. O Algarve, lembra Dyer, tem uma relação antiga com o flair. Um dos primeiros espaços portugueses dedicados a esta linguagem, o Wild & Co., abriu na região por volta de 2000, e a cultura local de bar manteve uma afinidade natural com estilos mais expressivos, alimentada pelo turismo, pelo lazer e pela vida noturna.
Mas reduzir o flair a isso seria tão injusto como julgar a moda pelo que se vê numa passerelle. A analogia é do próprio Tom Dyer: o flair de competição é a versão extrema da disciplina, não o seu uso quotidiano. Num hotel de cinco estrelas, explica, o que aparece é outra coisa: movimentos subtis, refinados, quase silenciosos, aquilo a que chama craft flair. Um modo de trabalhar o gesto com contenção, integrado no serviço, sem transformar cada cocktail num número de circo.
A diferença está na inteligência da aplicação. “O estilo de flair deve adaptar-se sempre ao ambiente”, resume Dyer. Num bar conceptual ou num espaço de segmento alto, pode estar na forma como se mexe, verte ou apresenta uma bebida. Pode ser um detalhe de precisão, uma coreografia curta, a forma como o bartender domina as ferramentas sem perder a naturalidade. O cliente talvez nem lhe chame flair. Apenas sente que aquilo foi feito com controlo, segurança e intenção.
A ideia interessa particularmente ao luxo contemporâneo, que anda pouco disponível para fanfarra e muito atento à competência visível. Ver alguém trabalhar bem tornou-se parte da experiência. A cozinha aberta ensinou isso à restauração: quando o cliente observa um processo organizado, limpo, seguro, a expectativa de qualidade aumenta. No bar, acontece o mesmo. Dyer dá o exemplo do Connaught Bar, em Londres, onde Agostino Perrone consegue elevar um Martini através da forma como o serve, da altura do pour, da precisão com que trabalha os óleos cítricos. Ninguém chamaria àquilo malabarismo. Ainda assim, é flair no seu estado mais elegante.
Esta revalorização chega num momento em que a hospitalidade vive uma curiosa tensão. De um lado, a automatização, as bebidas pré-preparadas, a eficiência de operação. Do outro, a necessidade de manter o lado humano, visível, distintivo. O flair entra precisamente nessa fenda. Não substitui a qualidade do cocktail, nem deve tentar. Acrescenta-lhe presença. “Quando bem utilizado, não compete com a qualidade, apoia-a”, defende Dyer. Torna o processo mais envolvente, reforça a confiança no profissional e dá ao cliente uma pequena história para levar consigo.
Alberto Pires lê o regresso do flair no mesmo sentido. “Não é apenas estética, é uma resposta a um mercado competitivo, onde a diferenciação passa também pela experiência.” A ressalva é importante: o flair só interessa quando está ao serviço do todo. Um bartender que faz voar uma garrafa e serve uma bebida medíocre continua a ser apenas uma má ideia com reflexos rápidos.
Café, México e o bar sem fronteiras
A edição de 2026 do Lisbon Bar Show não vive apenas desta recuperação do gesto. O México, escolhido como país convidado, traz outro eixo de leitura. Para Alberto Pires, a escolha prende-se com a forma como o país combina tradição, inovação, ligação ao território e uma dimensão quase ritual do serviço. A influência esperada não passa apenas pelo entusiasmo em torno da tequila ou do mezcal, embora ambos tenham conquistado espaço óbvio nas cartas internacionais. Passa por uma forma de pensar ingredientes, origem, identidade e narrativa.
O México oferece uma gramática particularmente rica no que concerne à autenticidade. A cultura de bar mexicana trabalha com memória, matéria-prima, cerimónia, calor humano e uma relação forte com o lugar. Para Portugal, que também procura afirmar uma identidade própria sem se fechar em folclore, essa ponte pode ser fértil. Não se trata de importar fórmulas mexicanas, mas de observar como um país transforma património líquido, agrícola e cultural em linguagem contemporânea.
O Lisbon Coffee Lab aponta noutra direção, igualmente relevante. O café deixou de ser apenas o fecho da refeição ou o empurrão matinal servido em chávena pequena. No bar contemporâneo, passou a ingrediente, técnica, ritual, memória e ferramenta de complexidade aromática. Alberto Pires considera o novo espaço um sinal claro de especialização: “O café deixou de ser complementar e passa a ser parte integrante da experiência de bar contemporânea.”
A presença de Jared Brown e Anistatia Miller, historiadores de cocktails ligados também à história do Espresso Martini, ajuda a dar densidade ao tema. O Lisbon Coffee Lab junta ainda pastelaria, mixologia molecular e diferentes abordagens ao café, aproximando disciplinas que durante muito tempo viveram em compartimentos separados. A fronteira entre bar, cozinha, cafetaria e sobremesa tornou-se indistinta. Um bom cocktail pode nascer de uma infusão, de uma técnica de pastelaria, de um fermentado, de uma leitura botânica, de uma memória de café de hotel ou de uma sobremesa líquida com ambição de bar.
Esta diluição de fronteiras diz muito sobre o estado atual da hospitalidade. O cliente quer beber melhor, sim, mas também quer compreender. Quer provar, mas quer contexto. Quer entretenimento, mas rejeita o vazio. Alberto Pires descreve-o como um consumidor “mais informado, mais exigente, mais curioso e emocionalmente envolvido”. Já não basta executar bem. É preciso criar ligação, desenhar experiência, comunicar sem parecer que se está a vender uma tese de mestrado com gelo.
Portugal beneficiou desta mudança. O turismo trouxe escala, comparação e pressão. Os profissionais tiveram de subir o nível. Os bares passaram a investir em conceito, formação, produto e detalhe. A nova geração de bartenders viaja, aprende online, compete, trabalha em comunidade e percebe que técnica sem personalidade sabe a pouco. Tom Dyer também nota essa transformação global: há mais acesso a informação, rotinas tecnicamente mais complexas nas competições e, ao mesmo tempo, uma utilização mais discreta do flair no serviço diário.
Shakers, jiggers, colheres, copos e movimentos pequenos tornam-se ferramentas de diferenciação, não acessórios de vaidade. A cultura de bar dos próximos anos deverá nascer desse cruzamento. Alberto Pires aponta três eixos: internacionalização, especialização e experiência. O Lisbon Bar Show reforça o primeiro ao trazer países convidados e nomes globais; o Lisbon Coffee Lab representa o segundo; o flair, quando usado com inteligência, entra no terceiro. Nenhum destes caminhos funciona isolado. Um bar pode ter técnica irrepreensível e ser emocionalmente frio. Pode ter narrativa e servir mal. Pode ter espetáculo e perder o cocktail pelo caminho. O futuro pertencerá aos espaços capazes de afinar todos os elementos sem deixar o cliente sentir o esforço.
Lisboa chega a esta conversa num momento particularmente interessante. A cidade tem bares reconhecidos, hotéis com programas de bebidas mais ambiciosos, restaurantes atentos ao pairing líquido e uma energia cosmopolita que já não depende apenas do visitante estrangeiro. O consumidor local também cresceu. Viaja, compara, reconhece um bom serviço e percebe quando uma carta foi escrita para parecer inteligente sem dizer grande coisa. Uma bebida já não se esgota no sabor, tem de fazer sentido no sítio onde é servida.
O Lisbon Bar Show funciona, por isso, como barómetro de um setor em mutação. Durante dois dias, a Sala Tejo da MEO Arena será palco para marcas, profissionais, talks, demonstrações, competições, café, México, flair e todas as pequenas obsessões que tornam a hospitalidade uma indústria tão fascinante como exaustiva. O que está em causa não é apenas a próxima tendência no copo. É a forma como Portugal quer servir, receber, contar e surpreender.
No fim, talvez o flair seja apenas isso: a coragem de admitir que um bom cocktail também se vê antes de se beber. E, quando corre bem, fica na memória antes mesmo de chegar à boca.
Datas: 19 e 20 de maio de 2026
Local: Sala Tejo, MEO Arena, Lisboa
País convidado: México
Destaques: Lisbon Coffee Lab, Fórum Mojito, 4.º Congresso Ibérico de Bar, Prémios Lisbon Bar Show, talks, workshops, masterclasses e demonstrações
Convidados internacionais destacados: Tom Dyer, Kate Gerwin, Iain McPherson, Tiffanie Barriere, Jared Brown e Anistatia Miller
Bilhetes: pré-venda a 33 euros por pessoa até 17 de maio; 44 euros à entrada.










