Elson Angélico chegou a Lisboa com um projeto na cabeça: preservar o que a cidade ainda tem de singular. O fundador da Mexto fala de reabilitação como ato de responsabilidade cultural, de um novo conceito de exclusividade residencial e de como a arte africana contemporânea cabe perfeitamente num apartamento de 400 metros quadrados no centro da capital.
Luanda, Paris, Lisboa: três cidades, três velocidades, um percurso que explica muito do que a Mexto faz e do porquê. Elson Angélico chegou a Portugal convicto de que era o momento certo: o país estava a posicionar-se, o mercado imobiliário de topo a despertar, e havia espaço para fazer as coisas de forma diferente. Fundou a Mexto em 2017 e, desde então, tem construído uma reputação assente num princípio pouco comum no setor: reabilitar sem descaracterizar.
A Mexto Property Investment é uma promotora imobiliária especializada em reabilitação residencial de topo, sediada em Lisboa. Não constrói em larga escala nem multiplica empreendimentos em série: seleciona edifícios com história em zonas premium da capital e do Sul do país, reabilita-os em colaboração com arquitetos e artesãos especializados, e entrega apartamentos que combinam conforto contemporâneo com a memória arquitetónica de cada imóvel. O portfolio concluído soma quatro projetos e mais de 76 milhões de euros de investimento. Em desenvolvimento, tem cinco projetos adicionais que totalizam 109 milhões de euros, com conclusão prevista nos próximos dois a três anos.
Preservar é um verbo transitivo
“Uma cidade sem memória é como um jardim sem flores”, diz, sem hesitar. Angélico cresceu com uma mãe diplomata, o que significou uma infância plural – Paris, Ásia, culturas muito diferentes – e uma sensibilidade treinada para perceber o que distingue um lugar de qualquer outro lugar. É essa leitura que traz para cada projeto.
Noventa e nove por cento dos projetos da Mexto são em edifícios já existentes: fachadas que se mantêm, azulejos que se restauram quando necessário, paletas de cores validadas em reuniões com a Câmara de Lisboa. “Não queremos trabalhar com qualquer empresa”, explica. “Há poucas especializadas em reabilitação, mas é exatamente por isso que os projetos demoram o que demoram. Preferimos assim.” O resultado tem sido reconhecido: prémios no SIL e no Prémio Nacional do Imobiliário, em diferentes anos, validam uma abordagem que o mercado ainda não tornou norma.
O Castilho 3 (seis apartamentos entre 250 e 400 metros quadrados, na Rua Castilho, em Lisboa, com conclusão prevista para o verão de 2026) é o exemplo mais recente. Com um investimento de 15 milhões de euros e praticamente esgotado antes de estar concluído, representa o perfil de projeto que a empresa defende: pequeno em número de frações, generoso em área e detalhe, situado num edifício com peso histórico. “O mais importante é preservar a 100%”, resume. “O contemporâneo entra ao serviço do bem-estar dos moradores. O resto mantém-se.”
Mas Elson Angélico não separa o debate da preservação da conversa mais ampla sobre o que Lisboa está a perder. “O que as pessoas vêm cá procurar é autenticidade”, diz. “As tascas, os menus de bairro, os mestres de ofício – quando isso desaparecer, desaparece também o motivo pelo qual toda a gente quer viver aqui.” É uma posição algo paradoxal para um promotor imobiliário de topo, e ele sabe-o. Mas defende-a sem hesitar: “Não acredito que se possa construir valor destruindo o que torna um lugar único.”
Arte nos espaços comuns
Quando começou o projeto do O’Living, Angélico tinha já na cabeça um nome: Pedro Pires. O O’Living é o único projeto de construção de raiz da Mexto, um edifício residencial nos Olivais concebido pelo arquiteto Miguel Saraiva, onde a integração da arte foi pensada desde a fase de projeto. O artista português Pedro Pires foi convidado a criar uma obra permanente para os espaços comuns do edifício, e a escolha da peça final foi feita pelos visitantes da ARCOlisboa, que votaram entre duas réplicas. “As crianças que crescerem ali vão olhar para aquela obra todos os dias e ter curiosidade”, diz. “É assim que a arte entra na vida das pessoas sem cerimónia.”
Esta é a segunda dimensão de Elson Angélico – e, a ouvi-lo falar, talvez a mais pessoal. Além da Mexto, fundou a WAAU, uma associação sem fins lucrativos dedicada à promoção da arte contemporânea africana e das suas diásporas. A presença na ARCOlisboa, que vai agora no quinto ano consecutivo como patrocinadora oficial, nasceu dessa missão: dar visibilidade a artistas que os circuitos tradicionais da arte europeia tendiam a ignorar. “Quando cheguei a Lisboa, havia poucas galerias com artistas afrodescendentes. São artistas com muito a dizer: sobre colonialismo, sobre o presente, sobre o que está a acontecer no mundo. França e Inglaterra já os estão a descobrir. Portugal não pode ficar para trás.”
Em 2019, criou o NotAMuseum – um espaço cultural de quatro andares em Lisboa onde, pela primeira vez, todas as galerias da cidade foram convidadas a colaborar no mesmo projeto, partilhando curadores, artistas plásticos e músicos sob o mesmo teto. “As galerias em Lisboa não conviviam muito bem entre si”, recorda, com um sorriso audível. “Convidei a concorrência toda para o mesmo espaço. Tivemos quase três mil pessoas. Mostrámos que era possível.” A exposição foi programa paralelo da ARCOlisboa de 2019 e abriu a colaboração que se mantém até hoje.
Perguntado se as duas vertentes – promotor imobiliário e curador de arte – entram alguma vez em tensão, a resposta é direta: “Não. Complementam-se e enriquecem-se uma à outra.” Há, na forma como fala, uma convicção que não parece calculada. São dois projetos com linguagens diferentes mas com a mesma origem: a experiência de alguém que cresceu entre culturas e aprendeu, desde cedo, que a identidade não é uma herança estática.
O valor da segurança
O perfil do comprador da Mexto é, na sua maioria, brasileiro, americano e português. Viajados, exigentes, com coleções de arte e propriedades em várias cidades. O que procuram em Lisboa, segundo Angélico, já não é apenas um bom endereço: é algo mais difícil de quantificar. “A qualidade dos materiais, a exclusividade, o detalhe: isso é esperado. O que os surpreende é a história que o edifício conta.”
E depois há um argumento que a Mexto não criou mas que usa com clareza: a segurança. “Um sheikh que visitou Lisboa perguntou-me o que é que eu gosto mais de Portugal. Disse-lhe que nunca ninguém me olhou de forma diferente.” A frase resume, melhor do que qualquer estudo de mercado, aquilo que distingue Lisboa de Paris ou Londres no imaginário de quem pode escolher viver em qualquer lado.
Num mundo onde as instabilidades políticas e os conflitos empurram famílias a abandonar grandes capitais europeias, Portugal posiciona-se como país neutro, estável, com clima, gastronomia, praias e uma abertura genuína que os portugueses, diz, muitas vezes não reconhecem em si próprios. “São pessoas que poderiam ir viver para Nova Iorque, para qualquer metrópole do mundo. Escolheram Portugal. Isso diz tudo.”
Quanto ao futuro do mercado de reabilitação, Angélico é perentório: estamos longe do pico. “Começámos tarde, por razões de legislação. Estamos a viver um desenvolvimento que outras cidades fizeram há décadas. Ainda há muito por fazer.” A Mexto tem em carteira, além do Castilho 3, um novo projeto em Caxias (17 apartamentos de construção de raiz, junto ao mar, com um investimento de 13 milhões de euros), bem como desenvolvimentos na Ajuda, na Graça e noutras localizações de Lisboa. “O que temos aqui é algo precioso e frágil”, conclui. “Às vezes os próprios portugueses não se dão conta, estão habituados. Mas é por isso que os outros vêm.”
Quando se despede, menciona quase de passagem que tem três amigos a preparar a mudança de Paris para Lisboa. Pessoas resolvidas na vida, diz, que poderiam escolher qualquer cidade do mundo. Escolheram esta. Para Elson Angélico, isso é um argumento. E é também, de certa forma, a história dele.









