Nos últimos dois fins-de-semana de maio, Jardins Abertos volta a revelar jardins, hortas e espaços verdes de Lisboa. A 15ª edição é gratuita e convida a participar, cuidar e conviver.
A cidade também se conhece pelas suas zonas de sombra. Não no sentido dramático da expressão, que Lisboa já tem drama suficiente nas subidas, nos prédios em obras e nas rendas que parecem escritas por argumentistas de ficção especulativa. Falamos antes da sombra boa: a das árvores, dos muros cobertos de verde, das hortas escondidas, dos jardins que existem atrás de portões por onde passamos todos os dias sem entrar.
Nos fins-de-semana de 23 e 24 e de 30 e 31 de maio, o festival Jardins Abertos regressa para a sua 15ª edição e volta a fazer precisamente isso: abrir a cidade por dentro. Durante quatro dias, Lisboa deixa ver jardins, palácios, hortas comunitárias, florestas urbanas e projetos de vizinhança, num programa gratuito que tem vindo a transformar a relação dos lisboetas com os seus espaços verdes.
A edição de 2026 parte de uma ideia simples, mas nada menor: dar, receber, colaborar e cooperar. No Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável, o festival olha para o voluntariado como prática de participação e cuidado, afastando-o da categoria de boa ação de fim-de-semana. Aqui, a palavra tem terra, tempo, trabalho coletivo e uma certa recusa da cidade feita apenas de consumo rápido.
A cidade que se cultiva com as mãos
O Jardins Abertos nasceu em 2017, a partir de uma proposta imaginada por Tomás Tojo, atual diretor do festival, e Rosana Ribeiro, com o apoio de um pequeno grupo de voluntários. A primeira edição contou com 80 visitantes. Hoje, o festival recebe dezenas de milhares de participantes todos os anos, abriu já centenas de jardins ao público e ganhou o Alto Patrocínio do Presidente da República, consolidando-se como um projeto cultural e ambiental de referência.
O crescimento não retirou ao festival aquilo que o torna interessante: a escala humana. O que se propõe não é apenas circular por lugares bonitos, com o telemóvel em riste e o olhar treinado para a próxima publicação. A visita é parte do programa, mas não esgota a experiência. A edição deste ano reforça a dimensão participativa, com ações de jardinagem, oficinas, almoços comunitários e momentos pensados para aproximar pessoas que, noutros contextos, talvez apenas se cruzassem à porta do prédio, no metro ou na fila do supermercado.
A lista de novos espaços ajuda a perceber essa intenção. Juntam-se ao roteiro o jardim comunitário da Escola Gil Vicente, a Quinta do Ferro e o projeto de vizinhança dos moradores da Rua Cidade de Manchester. São exemplos de uma cidade feita em pequena escala, longe da maqueta brilhante e das frases de apresentação em powerpoints imobiliários. Nestes lugares, o verde não surge como decoração urbana. Aparece como ferramenta de relação, pertença e resistência tranquila.
Lisboa tem uma relação complicada com os seus espaços verdes. Gosta deles, fotografa-os, invoca-os sempre que precisa de provar qualidade de vida, mas nem sempre os protege com a atenção devida. O Jardins Abertos faz o caminho inverso: começa pelo contacto direto. Uma árvore deixa de ser mobiliário urbano quando alguém nos conta a sua história. Uma horta deixa de ser cenário quando alguém nos explica como se mantém. Um jardim escondido deixa de ser privilégio quando abre o portão e recebe desconhecidos.
Palácios, hortas e vizinhos
A força do festival está nessa mistura. Palácios e hortas comunitárias convivem no mesmo programa, sem hierarquia snobe nem romantização campestre. Lisboa aparece como cidade botânica, sim, mas também social. Os espaços verdes deixam de ser apenas lugares de passeio e tornam-se pontos de encontro, aprendizagem e conversa.
As ações de jardinagem são talvez a expressão mais clara desta lógica. Em vez de contemplar o jardim como objeto bonito, o visitante é convidado a pôr as mãos na terra. A proposta tem qualquer coisa de antídoto para a vida urbana demasiado limpa, demasiado mediada, demasiado resolvida por aplicações. Plantar, podar, observar, aprender com quem sabe: atividades simples, quase antigas, que recuperam uma forma de atenção rara.
Os almoços comunitários prolongam essa ideia. A refeição, aqui, não aparece como tendência gastronómica nem como brunch com vocabulário de laboratório. Serve para juntar pessoas à volta da mesa, que continua a ser uma das tecnologias sociais mais eficazes alguma vez inventadas. Conversa-se, partilha-se comida, trocam-se ideias, descobre-se que a vizinhança pode ser uma coisa menos abstrata do que a caixa de correio e a reunião de condomínio.
O encerramento do festival levará essa dimensão coletiva para o Parque Botânico do Monteiro-Mor, com uma celebração primaveril e uma refeição coletiva com curadoria da dupla Joy Food. O alimento surge como ritual de encontro, num final que parece pensado para desacelerar a cidade sem a transformar num retiro espiritual.
Um fim-de semana-para olhar melhor
O Jardins Abertos é um bom programa de fim-de-semana porque não exige grande coreografia. Basta escolher o percurso, consultar a programação e deixar que a cidade mude ligeiramente de escala. Em vez de Lisboa vista pela montra, pelo trânsito ou pelo terraço da moda, aparece uma cidade mais baixa, mais vegetal, mais paciente.
Também é um festival particularmente feliz para famílias. Crianças, adultos, curiosos de botânica, amantes de jardins, vizinhos atentos ou simplesmente pessoas que precisam de respirar fora do circuito casa-trabalho-restaurante encontram aqui um programa acessível e gratuito. A cidade faz-se de monumentos, museus e grandes avenidas, mas também de pátios, canteiros, hortas, quintas escondidas e pessoas que insistem em plantar futuro com ferramentas modestas.
Num momento em que Lisboa se discute quase sempre a partir da pressão imobiliária, da turistificação, da mobilidade ou da perda de identidade, o Jardins Abertos propõe uma conversa menos ruidosa e talvez por isso mais eficaz. Não resolve a cidade, claro. Nenhum festival resolve uma cidade. Mas abre portões, aproxima pessoas e lembra que o espaço público também se cuida em comunidade.
Datas: 23 e 24 de maio; 30 e 31 de maio
Local: vários jardins e espaços verdes de Lisboa
Entrada: gratuita







