Com mais de 200 anos de história, a joalheira portuguesa projeta o futuro com inovação, luxo e tradição. Jorge Leitão fala sobre o passado, o presente e os próximos séculos.
A Leitão & Irmão atravessou séculos e revoluções, mantendo-se como uma das mais emblemáticas marcas de luxo portuguesas. Com mais de 200 anos de história, a joalheira da Coroa projeta agora o seu futuro para lá das fronteiras do presente. Nesta entrevista, Jorge Leitão fala sobre tradição, inovação e a busca pela excelência num mundo em constante transformação.
No caminho para o terceiro século de existência, a marca aposta na internacionalização, na digitalização do seu exclusivo serviço bespoke e na defesa da manufatura europeia de excelência. Falamos de luxo, de artesanato e de futuro, num mercado que valoriza cada vez mais a autenticidade e o saber-fazer.
Jorge Leitão é pragmático: o luxo não é apenas uma ostentação de riqueza, é também conhecimento, património e um percurso de valor. E no horizonte, quem sabe, talvez a Leitão & Irmão venha a abrir portas noutro planeta.
A Leitão & Irmão, uma das mais antigas marcas de luxo nacionais, celebrou recentemente 200 anos de vida. Tendo o bicentenário como base de partida, como está a ser desenhado o futuro da casa?
Olhando para um passado relativamente recente (se pensarmos nos dois centenários), por altura do 25 de Abril de 74, a empresa teve uma quebra no seu ciclo de crescimento, passou por várias convulsões. Estes últimos 50 anos foram tempos de recuperação. Foi demorado, mas estamos aqui. Essa recuperação está terminada, o que quer dizer que estamos prontos para enfrentar o nosso terceiro século de vida.
O caminho que nós vislumbramos é, naturalmente, crescer, ultrapassar as fronteiras portuguesas das diferentes formas possíveis, nomeadamente pela via digital, que hoje em dia põe, com uma maior facilidade, uma empresa no mundo. A casa Leitão já faz algo que é raro, que é o serviço bespoke – qualquer pessoa pode encomendar aqui uma peça especial –, e estamos a montar uma plataforma para que esse serviço possa ser feito worldwide. Há cerca de um ano que estamos a trabalhar nessa plataforma, de onde levaremos as nossas peças mais especiais de Portugal para o mundo.
Como vai funcionar essa plataforma?
Nessa plataforma é possível carregar o seu desenho ou as suas ideias, esboços. Pode também marcar uma reunião com um designer ou com o mestre-joalheiro para discutir a peça, acompanhar passo a passo até ver a peça pronta. Queremos por este projeto de pé o mais rápido possível. Somos uma marca com 200 anos, mas temos o pensamento naquilo que podemos fazer de novo. Estamos voltados para o futuro.
Sente que há procura por este tipo de objetos especiais?
Sem dúvida. O mundo atravessa um momento em que tudo muda todos os dias e, talvez por isso, está-se a valorizar cada vez mais o que é feito localmente – ou, se preferir, o Made In Europe. Sente-se que as pessoas se cansaram da cultura do usa e deita fora e que estão a voltar às origens. O que é feito na Europa faz mais sentido para as pessoas, em particular no mercado da excelência.
Excelência ou luxo? São conceitos diferentes?
Digo “excelência” porque, nestes tempos estranhos, há um certo medo de utilizar a palavra “luxo”. Vou dar-lhe um número muito interessante: o luxo europeu emprega 2,1 milhões de pessoas. É metade do potencial de emprego que há em Portugal, em que há quase 4 milhões de empregados. O luxo europeu representa mais de 4% do PIB da Europa, e é mais do dobro do PIB português. Ou seja, as pessoas trabalham no luxo valem duas vezes o PIB português, e representam só metade dos trabalhadores que há em Portugal. De facto, este mercado traz mais-valia a quem lá trabalha. E quem é que trabalha no mercado de luxo? Grandes costureiros, desenhadores, sapateiros. Essa manufatura é feita por artífices muito especializados, que levam anos a formar, que ganham mais do que um licenciado e que encontram trabalho em qualquer parte da Europa. Dou o exemplo da catedral de Notre Dame, em Paris, que foi reaberta recentemente depois de anos de obras de recuperação depois do incêndio. Eu diria que foi muito bem recuperada, mas o facto é que o Estado francês se deparou com um problema terrível: a falta de mão-de-obra de artífices qualificados, o que fez com que o restauro levasse tanto tempo. Foi necessário recrutar artífices reformados para que a recuperação fosse possível. Ou seja, há espaço. Há procura. Trabalhar com as mãos permite fazer coisas fantásticas e os jovens estão a começar a ver isso. Há profissões que podem e devem ser valorizadas e que aportam valor ao país de origem.
Choca-o pensar em utilizar inteligência artificial nas oficinas da Leitão?
De forma nenhuma. Sou a favor de tudo o que nos ajude a avançar, que nos facilite a vida, nos faça poupar tempo. Desde o início que penso nisso e tenho tentado implementar. Já desenhamos, ainda pouco, com recurso a IA. No passado, quando começamos a usar computadores, dizia-se que limitava a criatividade. Pelo contrário, o computador permite-nos fazer mais coisas e torna-nos mais criativos. Acredito que o mesmo se passe em relação à Inteligência Artificial.
Existe cada vez mais a tendência para as marcas de luxo portuguesas associarem-se e colaborarem entre si. Daí também ter nascido a Laurel, a associação que reúne as marcas de luxo nacionais, da qual é presidente. Sente que a existência desta associação é útil?
Eu diria que é indispensável porque há muito poucas marcas portuguesas. Sempre houve, neste país, uma certa cultura de pudor em mostrar riqueza. Havia um exagero de pudor antes do 25 de Abril. Depois disso, houve um exagero ainda maior, entrou-se na perseguição aos ricos. Essa fase foi ultrapassada e começaram timidamente a aparecer as pessoas com dinheiro, com grandes carros, grandes iates, gandes coleções, que ostentavam. Felizmente isso também acabou, a quantidade em detrimento da qualidade, porque isso não é o verdadeiro luxo. Luxo é cada vez mais viver bem, com conforto, qualidade de vida, ter espaço e tempo. Por causa deste preconceito todo que existiu, de quase vergonha do luxo, durante tantos anos, o luxo português não se desenvolveu. Mas Portugal tem uma matéria-prima extraordinária. Muitas manufaturas e fábricas portuguesas trabalham para grandes marcas de luxo europeias e isso deve querer dizer qualquer coisa, não é? Sobre a nossa capacidade de criar. Sobre a nossa proximidade com a excelência.
Diz-se que em Portugal existe luxo, há apetência e saber-fazer. Mas não há a capacidade de criar marcas de luxo. Concorda?
Nós somos bons a fazer luxo para os outros, mas não sabemos fazer para nós. Não sei exatamente porquê. Talvez esteja relacionado com a falta de horizontes que os últimos 70 ou 80 anos colocaram nestas últimas três gerações. Numa primeira fase não se podia mostrar. Numa segunda, nem pensar em ter. E depois veio a fase do exagero. E essa cultura de marca própria não nasceu. É essa a função da Laurel: é dotar, a quem sabe fazer, de vontade e de ferramentas para criar uma marca. Portugal pode, deve – e tem os meios para –ter marcas de luxo. O facto de se falar na Laurel, ao fim de quase 5 anos de vida, já é uma vitória.
Em que fase acha que está a nossa sociedade atual em relação ao luxo?
Há, talvez, um certo pudor, pela comparação com quem tem muito dinheiro – nomeadamente as pessoas do desporto (sem nenhum desagrado da minha parte para com essas pessoas, atenção, mas penso que essa não é a melhor imagem para propagar o luxo). Porque o luxo também tem a ver com conhecimento. Dou um exemplo concreto: há de ser luxo ter-se uma quinta onde se produz vinho para proveito próprio. Se essa quinta for sendo construída até que, passados 10 ou 15 anos, aparecem as primeiras barricas de vinho, é um luxo fantástico. Se a comprar feita, também é um luxo, mas não é a mesma coisa. O percurso conta – não é só a chegada. Na minha opinião, o luxo sem percurso é um pouco oco, sem alma.
E onde vê a Leitão nos próximos 200 anos?
Espero que estejamos noutro planeta. Não acredito que a humanidade não vá para outros sítios. Então um ser tão genial como o homem fica aqui confinado nesta bolinha tão pequenina, porquê? Seria estranho, se pensarmos bem, que o único lugar do universo com vida, fosse o planeta Terra. Acredito que daqui a 200 anos a Leitão tenha lojas num outro planeta, seja Marte ou outro qualquer.
















