No âmbito da WAF, Joana Vasconcelos abriu o atelier da sua vida e carreira, partilhando com as dez artistas finalistas histórias de risco, resiliência e criatividade que moldaram o seu percurso.
Depois de, em maio, termos apresentado a WAF – Woman in Arts Fellowship, iniciativa criada para apoiar e dar visibilidade a mulheres artistas em Portugal, acompanhamos agora a segunda etapa desta bolsa anual: a masterclass conduzida por Joana Vasconcelos com as dez finalistas de 2025. O encontro, que antecede a revelação da vencedora deste ano, em outubro, foi um momento raro de partilha, em que a artista revisitou episódios decisivos da sua carreira para inspirar uma nova geração. “Sobretudo para que não tenham de cometer os mesmos erros que eu cometi”, contou a artista, lembrando que ser mulher artista continua a implicar obstáculos acrescidos. “É verdade que hoje há mais mulheres a trabalhar nas artes, mas quando olhamos para as programações de museus ou coleções permanentes, o número continua reduzido. O que é preciso é criar obras que tenham espaço nesse contexto, que não sejam apenas vistas pela lente do género.”
A Noiva: de Lisboa a Veneza
O início da carreira de Joana Vasconcelos está intimamente ligado ao lustre A Noiva, nascido em 2000, de um gesto improvável: um lustre monumental feito de 14 mil tampões, concebido sem meios e com o apoio inesperado da Johnson & Johnson. Manuel Reis, fundador do Lux, ficou fascinado e quis expor a peça na discoteca, certo de que provocaria impacto. E assim foi. A partir daí, Joana Vasconcelos ficaria muitas vezes associada ao epíteto de “artista dos tampões”.
Foi do Lux que a obra chegou ao conhecimento da curadora espanhola Rosa Martínez, que se deixou impressionar e começou a trabalhar na internacionalização da jovem artista. Durante os três anos seguintes, A Noiva andou de exposição em exposição pela Europa, entre Budapeste, Palma de Maiorca ou pequenas galerias espanholas. Esse percurso foi tão intenso quanto desgastante. “Andava sempre com a mesma peça debaixo do braço. Até que disse à Rosa: quando tiveres uma proposta realmente apelativa, avisa-me. Até lá, chega.”
A oportunidade surgiu pouco depois. Rosa Martínez foi nomeada curadora da Bienal de Veneza de 2005 — a primeira vez, em 130 anos de história da Bienal, que uma mulher assumia esse papel. E fez questão de abrir a edição com uma exposição apenas de mulheres. Propôs a inclusão de Joana Vasconcelos, que assim recebeu a primeira proposta A list da sua carreira – a passagem de um circuito periférico para o palco central da arte contemporânea. E com um brinde: A Noiva ficaria no hall de entrada da mostra. Mais destaque não poderia ter.
Lágrimas no vaporetto
O convite foi uma consagração, mas também um choque de realidade. “Fui completamente impreparada. Não tinha equipa, nem patrocínios, nem sequer um cabeleireiro. Todos os dias apanhava o vaporetto para o hotel a chorar. Sentia-me perdida, a atravessar os canais de Veneza enquanto em terra estavam os grandes nomes da arte mundial. Foram sete dias de sofrimento, mas foi importante, necessário até. Quando saí dali, tinha a noção do que precisava de fazer.”
Para se apresentar na Bienal, contou com a ajuda do estilista Dino Alves, que lhe fez roupas para enfrentar o palco internacional. “Era um gesto simples, mas para mim foi crucial. Percebi ali que não bastava ter uma obra, era preciso ter rede, meios e confiança. A partir daí, comecei a construir toda uma carreira com a ideia de que tinha de criar obras com uma qualidade e identidade tais que me permitissem continuar a estar na linha da frente durante os eventos.”
Colheres, colas e engenheiros incrédulos
Dessa consciência nasceu a etapa seguinte. Joana quis construir algo ainda maior: o Coração Independente, feito de milhares de talheres de plástico descartável. É uma peça ligada à cultura portuguesa, às tradições de Viana e à filigrana, uma obra que integra som e movimento.
O processo foi exaustivo. “Passei mais de seis meses a dobrar com um secador mais de 4 mil colheres e garfos. Mas nenhuma cola aguentava a estrutura.” A busca levou-a a um departamento técnico em Sintra, onde engenheiros industriais a receberam com espanto. “Cheguei com sacos de talheres descartáveis e eles olharam para mim incrédulos. No fim, criaram uma cola especial só para a peça — e até me patrocinaram. Quiseram ajudar-me, tive muita sorte.”
A dificuldade transformou-se em solução. E a peça tornou-se um dos seus símbolos mais reconhecidos.
Se o coração mostrou a resiliência, a obra Cinderela, os sapatos gigantes feitos de panelas da Silampos revelaram a ironia. “Queria mostrar como um objeto doméstico, associado à cozinha, podia transformar-se em monumento. Usei panelas da gama doméstica e industrial, como metáfora da vida das mulheres entre o espaço privado e o público.”
A marca portuguesa acabou por apoiar a produção, tornando-se cúmplice de uma obra que rapidamente ganhou visibilidade internacional. Mais um exemplo de como a escassez de meios se pode transformar em espaço para a criatividade.
Versailles: do ferro ao ouro, com plumas de rainha
Depois do coração e dos sapatos, veio o convite para Versailles. O desafio: transformar um helicóptero numa obra de arte digna do palácio. Joana mergulhou na imaginação histórica e pensou em Marie Antoinette, célebre pelo gosto extravagante pelas plumas. “Interpretei que, se fosse viva hoje, não andaria de coche barroco. Deslocar-se-ia num helicóptero dourado, com pedras preciosas e plumas.”
A peça Lilicoptère foi construída nessa lógica: retirou-se o motor, forrou-se o interior a veludo, aplicaram-se folhas de ouro e pedras falsas, e as plumas devolveram leveza ao engenho mecânico. Mas havia ainda outra camada de sentido. “Resolvi fazer esta relação entre o isomorfismo — a transformação da máquina em pássaro, sempre que a máquina já foi desenhada como se fosse pássaro. No fundo, devolvo uma naturalidade à máquina, como se a Fénix tivesse regressado.”
O helicóptero tornou-se carruagem contemporânea, mas também criatura alada — uma metáfora entre máquina e mito, ironia e história.
Trafaria Praia: Lisboa em azulejo, rumo a Veneza
Depois do helicóptero dourado de Versailles, Joana quis levar a própria cidade de Lisboa para Veneza. A inspiração veio de um painel de azulejos de 1600 que retrata a capital antes do terramoto de 1755, pintado a partir da escotilha de uma caravela.
“Percebi que queria fazer o mesmo exercício com a Lisboa de hoje. Mas havia um problema: o ângulo de visão. Esse painel tinha sido feito do mar, a partir da escotilha, e eu precisava de reproduzir essa perspetiva. Para isso tinha de fotografar a cidade à mesma altura em que os navegadores a viam, no século XVII.”
Foi então que pediu ajuda ao ministro da Defesa, Luís Amado, que lhe disponibilizou um helicóptero militar. Do ar, à altura certa, conseguiu captar as imagens de Lisboa, que depois passaram a desenho, de desenho a pintura, de pintura a azulejo, e finalmente ao casco de um cacilheiro. Assim nasceu o Trafaria Praia.
O projeto demorou dois anos e meio a concretizar e custou cerca de dois milhões de euros — um valor impossível para a artista suportar sozinha. No início só tinha 150 mil euros de apoio estatal. O resto chegou de forma inesperada: depois de uma entrevista televisiva com Herman José, começaram a chover donativos de particulares. “As pessoas viam-me na televisão e ligavam: ‘Gostava de ajudar. Posso contribuir?’”
No interior, Joana concebeu um ambiente imersivo e inesperado: paredes e tetos cobertos de croché azul-e-branco, entrelaçado com LEDs, bancos de cortiça e tecidos que envolviam o visitante numa atmosfera quase uterina, descrita por alguns como “o ventre de uma baleia”. O contraste entre o exterior monumental em azulejo e este interior íntimo e artesanal reforçava a dualidade entre o público e o privado, entre a monumentalidade histórica e o trabalho invisível das mãos femininas.
Em 2013, o Trafaria Praia, totalmente revestido a azulejos pintados à mão, foi o Pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza — o primeiro pavilhão flutuante na história da Bienal. Um cacilheiro transformado em manifesto monumental, nascido da falta de recursos mas erguido pela persistência e pela imaginação.
A mensagem para as finalistas
Da precariedade de A Noiva à escala monumental do Lilicoptère, passando pelo cacilheiro que podia não ter saído do Tejo, as histórias revelaram sempre a mesma lição: a criatividade cresce no atrito. Os obstáculos tornam-se parte da obra, e é muitas vezes da falta que nasce a inovação.
“Os homens tendem a escolher um material e repeti-lo toda a vida. Eu decidi experimentar vários meios e escalas. Isso deu versatilidade à minha obra e manteve-me em movimento. Hoje já não existe o artista preso a um único meio. O futuro pede coragem para se reinventar.”
As dez finalistas da WAF — Ana Leça (Pintura, Instalação, Desenho), Beatriz Narciso (Pintura), Elizabeth Prentis (Performance, Escultura, Instalação), Flávia Costa (Desenho), Jéssica Ilfu-Soi (Escultura), Joana Dionísio (Fotografia), Joana Paraíso (Pintura, Desenho), Patrícia Pettitt (Fotografia), Vânia Reichartz (Têxtil, Instalação, Escultura) e Vera Fonseka (Pintura, Colagem) — ouviram não apenas a história de uma artista consagrada, mas o testemunho de quem fez de cada dificuldade um motor criativo.










