Na Watches & Wonders 2026, a Jaeger-LeCoultre convocou seis séculos de história para mostrar onde vai a seguir. Jérôme Lambert voltou à maison que o formou – e voltou com outros olhos.
Seis séculos de invernos rigorosos transformaram agricultores suíços em relojoeiros de precisão. É desta história fundadora que a Jaeger-LeCoultre fez o tema central da sua presença na Watches & Wonders Genebra 2026: The Valley of Inventions, uma homenagem à Vallée de Joux – o vale encravado nos Alpes que, por necessidade e engenho, se tornou o berço da alta relojoaria.
O stand da maison traduziu essa memória em experiência: um pinheiro de quatro metros esculpido em gelo dominava o centro do espaço, ladeado por painéis de vidro fosco e madeira dourada. Ao longo de três níveis, artesãos da Manufacture demonstravam ao vivo guilhochagem, biselamento, esmaltagem e relojoaria – quatro ofícios executados integralmente à mão, dentro das paredes de Le Sentier. No Chalet integrado no stand, Gilles Varone, chef suíço de duas estrelas Michelin, reinventou o tabuleiro de queijos em quatro momentos gastronómicos de rigor e surpresa.
Os lançamentos chegaram com peso. O Master Control Chronomètre estreia o novo selo HPG – High Precision Guarantee –, uma certificação própria que vai além do COSC: testa cada relógio após a montagem na caixa, em condições reais de altitude, impacto, posição e temperatura. O Gyrotourbillon À Stratosphère empurra os limites do que é possível construir: três eixos, cobertura de 98% das posições, 189 componentes e apenas 0,78 gramas. O Master Hybris Mechanica Ultra Thin Minute Repeater Tourbillon reclama o título de repetidor de minutos tourbillon automático mais fino do mundo. A nova coleção Vallée des Merveilles inaugura uma saga de edições inspiradas nas paisagens mais extraordinárias do planeta, com esmaltagem champlevé, paillonage em ouro e engaste em tiragens de 20 peças.
À frente de tudo isto está Jérôme Lambert – na maison desde 1996, CEO entre 2002 e 2013, depois da Montblanc, e mais tarde CEO do próprio grupo Richemont antes de regressar a Le Sentier em janeiro de 2025. Um percurso que lhe deu uma perspetiva única sobre o que significa gerir uma casa com quase dois séculos de história. Em Genebra, sentámo-nos com ele.
Voltou à Jaeger-LeCoultre depois de ter liderado a Montblanc e de ter sido CEO do grupo Richemont. É um regresso emocional, estratégico, ou simplesmente inevitável?
As três coisas, talvez. Mas se tivesse de escolher uma palavra, seria “natural.” Venho de uma experiência de supervisão de múltiplas maisons à escala do grupo, e o regresso a uma casa – esta em particular – é como chegar a casa com outra perspetiva. Há uma frase que me acompanha sempre: “Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio, porque não é o mesmo rio nem é o mesmo homem.” O que encontrei foi uma Jaeger-LeCoultre que não ficou parada. E o que trouxe foi uma compreensão diferente do que significa ser guardião de um património desta dimensão. Mais de 70% das pessoas que estavam aqui há doze anos continuam na maison. Para mim, isso diz tudo.
A experiência de gerir um grupo torna-o mais livre ou mais consciente das responsabilidades?
Mais consciente. Não diria que trouxe mais liberdade – trouxe clareza. A nossa responsabilidade é honrar quase dois séculos de excelência relojoeira sem perder a capacidade de surpreender as gerações que vêm a seguir. Esse equilíbrio entre transmissão e transformação é, acredito, a própria essência do que é liderar uma maison como a Jaeger-LeCoultre.
Em relojoaria, a palavra "inovação" perdeu muito do significado. O que é que ela representa, verdadeiramente, para si?
Significa, antes de mais, não confundir inovação com variação. Para nós, assenta em três pilares: o produto, o espírito de invenção e o espírito da Manufacture. O produto é o compromisso com a excelência – a mestria constrói-se gesto a gesto, não de um dia para o outro. O espírito de invenção remonta ao próprio Antoine LeCoultre: era tanto engenheiro como relojoeiro, e o Millionometer – o primeiro instrumento capaz de medir o micron – é filho direto dessa visão. O espírito da Manufacture é o facto de todos os ofícios coexistirem sob o mesmo teto, em Le Sentier: 82 ateliers, 108 ofícios distintos, 235 técnicas. É essa proximidade que gera inovação real – não aquela que se anuncia em comunicados.
O Reverso tem quase um século. O que permite um ícone estabelecido que um relógio completamente novo não permite?
Partir de um referencial que toda a gente reconhece e descobrir o quanto ainda pode surpreender dentro desse quadro. O Reverso passou de dois lados para quatro faces funcionais. Serve de tela para as Métiers Rares™ e de plataforma para complicações de alta relojoaria. Os ícones são fundações vivas – podem crescer sem perder a identidade. E têm uma vantagem que nenhum relógio novo tem: não precisam de convencer ninguém do que são.
Esta Watches & Wonders foi tecnicamente muito densa. O que pesa mais na construção de uma coleção: inovação mecânica ou expressão emocional?
São inseparáveis. Uma alta complicação fala ao intelecto – é precisão, invenção, décadas de perícia acumulada. As Métiers Rares™ falam aos sentidos – captam a luz, contam histórias através dos materiais, criam uma ligação emocional profunda com quem usa a peça. Um apela à razão, o outro à sensação. E quando os dois coincidem num único relógio, é aí que acontece algo verdadeiramente extraordinário.
O perfil do colecionador mudou?
Mudou, e de forma muito interessante. São simultaneamente mais informados, mais exigentes e mais emotivos. Gravitam em torno de peças com apelo duradouro – relógios com história, ressonância emocional e relevância que não envelhece. É o que chamamos o “flight to quality”: as novas gerações querem peças distintas, refinadas e versáteis, que reflitam tanto o estilo pessoal como a excelência mecânica. E são muito conscientes da diferença entre uma coisa e outra.
Num mundo invadido de ecrãs e de tempo em tempo real, o que representa ainda um relógio mecânico?
Toda a gente tem acesso à hora, hoje em dia. O relógio mecânico representa outra coisa: uma afirmação de autenticidade, uma celebração do que é tangível, uma ponte entre gerações. É um ponto de resistência – no melhor sentido. Num mundo acelerado e hiperdigital, oferece uma âncora: um objeto que conecta a uma história real, a um gesto, a um artesanato. A geração Z, que cresceu completamente imersa no digital, é paradoxalmente a que mais anseia por objetos com alma. O relógio mecânico é precisamente isso.
Para onde é que vê a Jaeger-LeCoultre a evoluir – potência técnica, ator cultural, ou experiência mais íntima e pessoal?
Não vejo estas dimensões em competição – vejo-as em sinergia. As três são inseparáveis da nossa identidade. A nossa ambição não é escolher uma à custa das outras: é aprofundar a sinergia entre elas. Ser uma potência técnica, ser um ator cultural relevante e criar uma experiência verdadeiramente pessoal com cada pessoa que usa um relógio Jaeger-LeCoultre – estas coisas não se contradizem. Reforçam-se.














