Uma camisola de Pelé acaba de multiplicar por mais de 40 o valor pago em 2004. O mercado da memorabilia desportiva cresce entre nostalgia, tecnologia e uma pergunta incómoda: paixão ou investimento?
O azul foi uma solução de emergência. Como o amarelo do Brasil coincidia com as cores da Suécia, a seleção sul-americana teve de improvisar um equipamento para a final do Campeonato do Mundo de 1958. A delegação encomendou camisolas lisas, os próprios jogadores transferiram os emblemas da federação brasileira e os números foram recortados de sacos de equipamento amarelos. O resultado, feito à mão e à pressa, acabaria por vestir uma das imagens mais duradouras da história do futebol.
Pelé tinha 17 anos quando marcou dois golos na vitória por 5–2, que deu ao Brasil o primeiro título mundial. No final, ofereceu a camisola azul com o número 10 ao colega de quarto, Dida. A peça permaneceu durante décadas na família do jogador, entrou em 1993 no Museu dos Desportos Edvaldo Alves Santa Rosa e foi vendida em 2004 por cerca de €104 mil. A cadeia de propriedade cabe numa frase. O que ela permite provar vale milhões.
A 16 de julho de 2026, a mesma camisola foi arrematada na Sotheby’s de Nova Iorque por €4,3 milhões. Recebeu dez licitações de pelo menos cinco interessados e ficou abaixo da estimativa superior a €5,2 milhões. Ainda assim, bateu o recorde de qualquer objeto ligado a Pelé e tornou-se a segunda camisola de futebol mais cara alguma vez vendida, atrás da que Diego Maradona usou frente à Inglaterra no Mundial de 1986, comprada em 2022 por cerca de €8,8 milhões. O tecido é apenas algodão. O preço concentra uma final, dois golos, o nascimento de um ícone global e uma biografia documental sem zonas mortas.
O caso seria fácil de arrumar na gaveta das exceções — porque o é. A parte interessante começa quando se percebe que o recorde de Pelé já não vive isolado. A camisola de Michael Jordan nas finais da NBA de 1998 chegou a cerca de €10,1 milhões; um cartão de 1952 de Mickey Mantle, classificado com 9,5 em 10, atingiu aproximadamente €12,6 milhões; e a camisola de Babe Ruth associada ao célebre called shot da World Series de 1932 estabeleceu, em 2024, o máximo mundial para memorabilia desportiva: cerca de €21,7 milhões. O antigo passatempo de adeptos ganhou especialistas, índices, cofres climatizados, serviços de avaliação e uma linguagem cada vez mais próxima da gestão de património.
Da caderneta ao ativo alternativo
Os números exigem alguma disciplina. Uma estimativa da Morgan Stanley, divulgada pela CNBC, colocou o mercado global de objetos de coleção em cerca de €86 mil milhões em 2025, prevendo um crescimento anual de 6% até 2027. A categoria inclui cartas e cromos, brinquedos, objetos de cultura popular e outras áreas; não corresponde apenas ao desporto. Ainda assim, os sinais de expansão dentro da memorabilia desportiva são claros.
Em 2020, as vendas norte-americanas de cartões na eBay aumentaram 142%, com mais quatro milhões de unidades vendidas do que no ano anterior. O confinamento devolveu muita gente às caixas da infância, mas o impulso não desapareceu quando os estádios reabriram. Em 2022, o valor transacionado em cartões na plataforma continuava acima do dobro do nível anterior à pandemia.
Nesse mesmo ano, a Fanatics comprou a Topps, marca com mais de sete décadas e presença em mais de 100 países, por um valor noticiado na ordem dos €440 milhões. A compra incluía cartões físicos e digitais, além de direitos sobre competições como a Major League Baseball, a Fórmula 1, a UEFA e a Bundesliga.
O negócio cresceu porque a procura aumentou e porque a infraestrutura ficou adulta. As plataformas digitais tornaram os preços comparáveis; os leilões passaram a decorrer em direto para uma audiência global; as redes sociais criaram comunidades capazes de transformar uma descoberta num acontecimento; os serviços de classificação reduziram parte da incerteza; e os cofres especializados permitem comprar, guardar e voltar a vender um cartão sem o fazer circular pelo correio. A nostalgia encontrou tecnologia financeira — e um botão de licitar disponível a qualquer hora.
Adam Partington, diretor comercial da plataforma ColleXable, resume o motor geracional numa frase certeira: os millennials estão a recomprar a infância. Os jogadores que viam depois da escola, os cromos que trocavam no recreio e as camisolas que não podiam pagar regressam quando os rendimentos atingem outra escala. A Geração Z acrescenta descoberta, cultura de comunidade e a naturalidade de comprar em transmissões ao vivo. Para ambas, possuir uma parcela física de um momento desportivo pode ser emocionalmente mais legível do que uma participação anónima numa empresa.
Essa proximidade não elimina a lógica financeira; altera-a. Uma camisola pode proporcionar prazer enquanto permanece na parede, uma vantagem que uma ação não oferece. Também não paga dividendos, não gera rendas e não possui um valor intrínseco calculável a partir de receitas futuras. A rentabilidade depende de outro colecionador aceitar pagar mais. Convém não confundir prazer de posse com retorno garantido.
O valor está no momento - e nos documentos
Uma assinatura famosa ajuda, mas raramente resolve. O mercado de memorabilia distingue uma réplica autografada, uma camisola preparada para o jogador, uma peça usada numa partida e um exemplar ligado de forma conclusiva a um momento histórico. Entre estas categorias pode abrir-se um abismo de preço. A raridade real, o estado de conservação, a relevância do jogo, a procura global pelo atleta e a qualidade da proveniência trabalham em conjunto; retirar uma delas pode desmontar a tese de compra.
Os exemplos de Cristiano Ronaldo num leilão recente da Sotheby’s mostram a hierarquia. Uma camisola da Juventus usada na época 2019/2020 tinha uma estimativa de €8.700 a €13.100. Outra, vestida no jogo em que marcou o 750º golo da carreira, subia para €43.600 a €61.000. A peça associada à conquista do campeonato italiano de 2019 — quando se tornou o primeiro jogador a vencer as ligas inglesa, espanhola e italiana — era avaliada entre €61.000 e €78.500. O nome mantém-se; o acontecimento muda tudo.
O mercado português oferece outro contraste revelador. Uma camisola da seleção nacional atribuída a Eusébio, datada de 1964–1966, autografada e acompanhada por pareceres da MEARS e da PSA/DNA, foi vendida por cerca de €8 mil. O valor parece modesto ao lado dos recordes, mas explica a diferença entre pertencer a uma lenda e estar ligado ao instante que fixou essa lenda na memória coletiva. Para um colecionador interessado em Cristiano Ronaldo, a escassez estará menos numa assinatura produzida em quantidade e mais nos primeiros anos do Sporting, nas primeiras internacionalizações, no Euro 2016 ou em jogos de recordes — sempre que a utilização possa ser demonstrada.
A demonstração faz-se agora através de ciência forense aplicada ao roupeiro. Na correspondência fotográfica, especialistas comparam fios soltos, costuras, desgaste, manchas, posição de números e emblemas, padrões do tecido e outros sinais únicos com fotografias ou vídeo de alta resolução. A camisola de Pelé foi acompanhada por documentação conclusiva da SIA Photo Match. A peça de Babe Ruth foi confirmada por várias entidades a partir de três fotografias da World Series de 1932. A PSA descreve um processo apoiado em arquivos de imagem e num certificado verificável. Uma proveniência convincente diz por onde o objeto passou; a correspondência fotográfica procura provar onde esteve num momento preciso.
Nos cartões, a escala numérica torna o mercado aparentemente mais simples. Empresas como PSA, SGC ou Beckett avaliam autenticidade e conservação, normalmente de 1 a 10, e publicam relatórios de população que indicam quantos exemplares receberam cada nota. Um pequeno vinco, cantos gastos, impressão desalinhada ou perda de cor pode representar dezenas ou centenas de milhares de euros.
O cartão sueco Alifabolaget de Pelé, editado em 1958, oferece uma aula particularmente dispendiosa. Um exemplar classificado PSA 3 foi vendido em julho de 2026 por cerca de €11 mil. Nesse mesmo verão, uma cópia PSA 9 alcançou aproximadamente €844 mil na Goldin; seis semanas depois, outro dos seis exemplares conhecidos com a mesma nota foi arrematado na Fanatics Collect por cerca de €1,03 milhões, com comissão do comprador incluída. A diferença de conservação cria o primeiro salto. A escassez no topo da classificação e o entusiasmo do Mundial ajudam a explicar o segundo. Nenhuma das duas variações deve ser confundida com uma cotação estável.
O risco também cabe na moldura
A trajetória da camisola de Pelé é extraordinária: convertendo as duas transações pelas taxas de referência de cada data, o preço passou de cerca de €104 mil para €4,3 milhões, uma multiplicação nominal próxima de 41 vezes. Equivale a uma valorização anual composta em torno de 18,6%. A conta perde algum brilho quando se acrescentam comissão do comprador, eventual comissão na revenda, impostos, seguro, armazenamento, conservação e inflação. Também parte de uma peça irrepetível, comprada muito antes da atual profissionalização do mercado. Não é um índice; é uma exceção com número 10 nas costas.
Os preços de leilão têm ainda um problema de foco. Os recordes são públicos, as peças que não encontram comprador recebem pouca atenção e as vendas privadas podem permanecer confidenciais. O universo é heterogéneo e a liquidez concentra-se nos nomes e momentos reconhecidos em vários continentes. Encontrar comprador para Pelé, Jordan ou Maradona é diferente de vender a camisola de um jogador promissor cuja carreira perdeu fôlego. Lesões, resultados, escândalos e mudanças de relevância cultural podem alterar a procura de um dia para o outro.
A oferta contemporânea merece igual cautela. Clubes, ligas e atletas compreenderam o valor do que antes ficava no balneário e colocam no mercado quantidades crescentes de camisolas, bolas e edições numeradas. Uma indicação “um de um” impressa pelo fabricante cria escassez comercial, mas não garante importância histórica. Raridade fabricada e raridade histórica podem ocupar a mesma montra; só uma delas resiste automaticamente ao fim da campanha de marketing.
Uma abordagem sensata começa por comprar dentro de uma área que se conhece, exigir documentação verificável, consultar resultados efetivamente realizados — não apenas preços pedidos — e reservar este tipo de aquisição para uma parcela limitada de um património diversificado. O objeto deve passar ainda por um teste menos financeiro: continuaria a fazer sentido possuí-lo se nunca voltasse a ser vendido? Se a resposta for negativa, talvez a paixão esteja apenas a servir de argumento a uma aposta.
O melhor exemplar nem sempre apresenta a assinatura maior ou a moldura mais vistosa. Traz uma história relevante, provas capazes de sobreviver ao escrutínio e um universo plausível de futuros compradores. A emoção põe o mercado em movimento; o arquivo impede que ela se transforme numa ficção cara.
Onde comprar, vender e autenticar
Sotheby’s Sports Memorabilia (avaliações e consignações)
Nova Iorque: 945 Madison Avenue, New York, NY 10021, EUA
Telefone: +1 212 606 7000
Heritage Auctions Sports (Leilões e arquivo de resultados)
Dallas: 3500 Maple Avenue, Dallas, TX 75219, EUA
Telefone: +1 214 528 3500
Email: Sports@HA.com
Goldin – Leilões de cartões e memorabilia
Email: Sell@Goldin.com
PSA Photo Match e PSA/DNA – Correspondência fotográfica, classificação e autenticação
California: 1600 E St Andrew Place, Santa Ana, CA 92705, EUA
MatchWornShirt – Camisolas usadas em jogos recentes, com autenticação















