No Palácio Duques de Cadaval, em Évora, INDIA reúne arte contemporânea, práticas tribais e espiritualidade visual num encontro com a criação indiana.
A primeira imagem pode enganar. A palavra INDIA, escrita em letras grandes, chama logo pelo imaginário habitual: cor, excesso, espiritualidade, distância. Mas a exposição que acaba de inaugurar no Palácio Duques de Cadaval, em Évora, não está interessada em confirmar clichés. Prefere desmontá-los com paciência, sala a sala, obra a obra, até que a Índia deixe de ser uma ideia vista de fora e passe a ser aquilo que sempre foi: um território múltiplo, contraditório, antigo e ferozmente contemporâneo.
Acabada de inaugurar e patente até 25 de outubro, INDIA reúne cerca de quinze artistas de diferentes geografias, práticas e contextos, cruzando a arte contemporânea produzida nas grandes metrópoles indianas com expressões tribais e vernaculares enraizadas em comunidades específicas. O resultado é uma proposta com escala, ambição e uma certa coragem curatorial: colocar no mesmo plano linguagens que a história da arte, demasiadas vezes, arrumou em gavetas separadas.
No Palácio Duques de Cadaval, esse encontro torna-se ainda mais expressivo. O edifício, com o seu peso histórico e a sua presença discreta no centro de Évora, torna-se parte da conversa. A exposição instala-se num lugar carregado de memória portuguesa para abrir uma leitura nova sobre uma relação com mais de cinco séculos, feita de rotas marítimas, trocas culturais, fricções, fascínio e heranças que ainda hoje continuam a respirar.
Uma Índia sem legenda óbvia
Um dos méritos de INDIA está em recusar a leitura confortável da oposição. Urbano contra tribal. Moderno contra ancestral. Academia contra ritual. Aqui, essas fronteiras interessam pouco. O que interessa é a forma como tudo se contamina, se prolonga, se reinventa.
O percurso coloca lado a lado artistas formados em contextos urbanos e autores vindos de comunidades tribais cujas práticas têm origem em universos rituais, animistas e populares. Essa convivência surge como fertilização. A palavra é importante para perceber a exposição: depois da independência da Índia, em 1947, muitos artistas modernos procuraram nas tradições populares e tribais uma linguagem própria, tal como as vanguardas europeias tinham procurado fora do Ocidente uma forma de romper com o academismo. A diferença é que, aqui, essas práticas deixam de ser vistas como matéria-prima para outros. Têm voz própria. Têm assinatura, densidade e presente.
Obras como Fishnet, de Jivya Soma Mashe, ou The Cosmic Canopy, de Mayur e Tushar Vayeda, abrem um campo visual onde natureza, cosmologia e vida comunitária surgem como sistemas inteiros de pensamento. Não são imagens “naïf”, nem testemunhos folclóricos à espera de tradução. São construções sofisticadas no sentido mais limpo da palavra: precisas, complexas, feitas de repetição, ritmo e inteligência visual.
A exposição inclui também pinturas tântricas anónimas, onde a abstração parece baixar a voz até quase desaparecer. Pequenos campos de cor, linhas mínimas, sinais suspensos. Ao lado destas obras, os retratos hiper-realistas de Parag Sonarghare trazem outra temperatura: a pele, o olhar, a vulnerabilidade humana, quase demasiado perto. Já Sosa Joseph, com Pieta, convoca uma pintura intensa, febril, povoada por figuras e atmosferas que parecem atravessar tempos diferentes na mesma superfície.
Do invisível ao centro da sala
Durante grande parte do século XX, muitas práticas tribais foram relegadas para o campo da etnografia, vistas como expressão comunitária, arte popular ou documento antropológico. O reconhecimento artístico chegou tarde, sobretudo a partir das décadas de 1970 e 1980, com a abertura de novos debates curatoriais e exposições internacionais que começaram a questionar o monopólio ocidental da contemporaneidade.
INDIA trabalha nesse ponto sensível. A exposição não tenta “elevar” estas práticas ao estatuto de arte contemporânea, porque isso implicaria uma espécie de autorização vinda de fora. Faz algo mais interessante: mostra que essa contemporaneidade já lá estava. Apenas não era lida nos mesmos termos.
A curadoria é assinada por Hervé Perdriolle, crítico, colecionador e curador francês que há décadas se dedica à investigação e divulgação da arte contemporânea não europeia, em particular das práticas tribais e vernaculares da Índia. Viveu no país nos anos 1990 e construiu um percurso atento às linguagens que nascem fora dos sistemas académicos e dos circuitos institucionais. O seu trabalho tem insistido numa ideia ainda incómoda para muitos: a arte contemporânea não é uma invenção exclusivamente ocidental.
Essa visão atravessa toda a exposição. As obras não aparecem organizadas segundo uma hierarquia previsível, com o contemporâneo urbano no lugar nobre e o tribal como nota de rodapé. Tudo circula. Tudo se cruza. O visitante é convidado a abandonar a tentação de classificar depressa, essa pequena mania ocidental de pôr etiquetas antes de olhar.
O olhar de Alexandra de Cadaval
Para Alexandra de Cadaval, esta exposição tem também uma dimensão pessoal. A sua relação com a Índia desenvolve-se há mais de duas décadas, marcada pelo contacto com contextos culturais, espirituais e artísticos do país, incluindo o envolvimento com o World Sacred Spirit Festival. Dessa aproximação prolongada nasceu uma afinidade que é sensível, quase física.
A própria descreve a Índia como “um universo paralelo ao resto do mundo, onde as tradições ancestrais e a modernidade extrema se cruzam com uma intensidade admirável”. A frase ajuda a compreender o tom da exposição. INDIA não procura explicar um país. Procura antes criar as condições para que diferentes mundos possam estar presentes sem serem domesticados.
Essa é talvez a maior elegância do projeto. Não traduzir tudo. Não simplificar tudo. Não transformar a Índia numa narrativa limpinha para consumo europeu. No Palácio Duques de Cadaval, a exposição prefere deixar zonas de sombra, de espanto, de estranheza e de silêncio.
No fim, INDIA fala da Índia, claro. Mas fala também do modo como olhamos para a arte, para a tradição, para aquilo que achamos saber e para aquilo que ainda não aprendemos a ver. É uma exposição de escala internacional, sim, mas o seu verdadeiro interesse está noutro lugar: na forma como obriga o visitante a reajustar o olhar.
INDIA
Morada: Palácio Duques de Cadaval, Évora
Telefone: +351 919 588 474
Email: info@palaciocadaval.com
Horário: terça-feira a domingo, das 09h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
Até 25 de outubro de 2026
















