Hong Kong prepara-se para um leilão onde a escassez pesa tanto como a mecânica. A Phillips reúne peças de culto, proveniências raras e referências que interessam a colecionadores e investidores.
Hong Kong volta a concentrar, durante dois dias, uma parte muito séria do desejo relojoeiro global. O The Hong Kong Watch Auction: XXII, da Phillips em associação com a Bacs & Russo, realiza-se a 30 e 31 de maio e chega com o tipo de catálogo que interessa não apenas a apaixonados, mas também a quem olha para a alta relojoaria como ativo de convicção: poucas peças, muita identidade, referências historicamente fortes e, sobretudo, raridade que não depende de marketing, mas de produção, configuração e proveniência.
Esse ponto importa. O mercado está menos eufórico do que em anos recentes, e a lógica do investimento mudou de tom. O relógio “certo” continua a encontrar comprador, mas já não basta ser caro, recente ou muito popular. O dinheiro mais atento procura referências de leitura clara: modelos com importância histórica, variações fora do padrão, estado de conservação extraordinário, ligação a grandes colecionadores e uma trajetória de mercado coerente. É exatamente esse o terreno em que este leilão se move.
O catálogo junta Patek Philippe, F.P. Journe, Philippe Dufour e Cartier em versões que falam a língua do colecionismo maduro.
O grande chamariz mantém-se o Patek Philippe Ref. 2499 First Series em ouro rosa, apontado pela Phillips como o único exemplar conhecido desta primeira série com caixa Vichet e contrastes britânicos a surgir em leilão na Ásia. A estimativa oficial situa-o entre 2,61 e 5,21 milhões de euros, usando como referência a taxa do BCE de 1 euro = 9,2080 dólares de Hong Kong.
Mais do que um lote forte, é um sinal de intenção. A Ref. 2499 é uma das referências mais reverenciadas da Patek Philippe, sucessora da 1518 e um dos pilares absolutos do cronógrafo com calendário perpétuo do pós-guerra. A Hodinkee lembra que, das 349 Ref. 2499 produzidas, menos de 50 pertencem à primeira série e apenas quatro terão sido feitas em ouro rosa com caixa Vichet. Com o mercado orientado para escassez real, isto não é detalhe, é estrutura de valor.
Raridade com argumentos, não com adjetivos
O lote mais expressivo entre os independentes é o F.P. Journe Tourbillon Souverain “Chine 2010 38”, anunciado com estimativa superior a 846 mil euros. A designação funciona quase como alcunha oficial do mercado: remete para a série de cinco relógios criada em 2010 para assinalar a abertura da boutique de Pequim.
O que faz disparar o interesse deste exemplar é o facto de a Phillips o identificar como o único conhecido em caixa de platina de 38 mm. Ao nível técnico, o modelo junta tourbillon, remontoir d’égalité, segundos mortos e reserva de marcha, ou seja, reúne algumas das obsessões fundadoras de François-Paul Journe numa peça ligada a um momento importante da expansão da marca. Para um investidor, isto traduz-se numa combinação rara de narrativa, legitimidade mecânica e escassez extrema.
Na mesma família surge um outro F.P. Journe Tourbillon Souverain, desta vez em ouro rosa, circa 2003, estimado entre 261 mil e 521 mil euros. Aqui o argumento é menos comemorativo e mais genealógico. O Tourbillon Souverain pertence ao núcleo duro da produção inicial da marca e os primeiros exemplares, ainda com movimentos em latão, são particularmente desejados por colecionadores porque representam a fase em que Journe se afirmava como relojoeiro independente com linguagem própria.
A Phillips nota ainda que este exemplar “pink-on-pink”, com mostrador em ouro rosa, pertence à quarta geração do modelo e apresenta uma das combinações mais raras dentro da referência. Em mercado, “early Journe” já funciona quase como categoria autónoma de valor.
Se F.P. Journe é já uma espécie de aristocracia do independente contemporâneo, Philippe Dufour joga noutro plano, quase monástico. O Simplicity em aço, de 2020, entra no leilão com estimativa entre 304 mil e 608 mil euros e vem acompanhado por três atributos decisivos: caixa em aço, menção manuscrita “Acier” no certificado e mostrador cinzento guilloché com numerais Breguet e apontamentos em ouro rosa. A Phillips apresenta-o como o primeiro e único Simplicity com esta configuração a aparecer no mercado.
O Simplicity vale menos pelas complicações e mais pela qualidade obsessiva do acabamento manual. A reputação de Dufour assenta precisamente nisso, ao ponto de muitos colecionadores o tratarem como medida de referência para o acabamento tradicional suíço. Em termos de investimento, é o tipo de peça em que a produção baixíssima e a reverência transversal do mercado funcionam como almofada de valor.
Patek Philippe: liquidez, estatuto e pedigree técnico
No universo do investimento relojoeiro, poucas marcas oferecem o mesmo equilíbrio entre prestígio cultural, liquidez e profundidade de mercado do que a Patek Philippe. E este leilão sublinha precisamente isso com um conjunto de referências que falam tanto ao purista como ao comprador estratégico.
A Ref. 5970R-017 em ouro rosa, encomendada para Michael Ovitz, surge com estimativa entre 434 mil e 869 mil euros. O nome de Ovitz não é acessório. A Collectability recorda que Patek Philippe raramente autorizava monogramas visíveis no mostrador e que a presença de “MSO” corresponde a um privilégio reservado a relações muito especiais com a manufatura.
A isto junta-se outro elemento decisivo: a Ref. 5970 é frequentemente tratada como “the last Lemania”, por ser o último grande Patek Philippe de cronógrafo com calendário perpétuo a usar o calibre 27-70 Q baseado na Nouvelle Lémania. Essa herança técnica, somada à personalização, ao mostrador negro pouco comum e ao facto de a peça estar descrita como duplamente selada de fábrica, coloca-a numa posição muito forte para quem procura um Patek com raridade concreta e leitura imediata de mercado.
Ainda mais intrigante é a Ref. 5970P-018 em platina, com mostrador azul sunburst e numeral romano às 12, estimada entre 380 mil e 814 mil euros. A Phillips apresenta-a como o único exemplar conhecido desta configuração a surgir publicamente. Isto conta muito numa referência já muito estudada e cobiçada.
A 5970 foi produzida entre 2004 e 2011, é considerada a primeira grande criação desenvolvida sob Thierry Stern e continua a ser vista como uma das referências modernas mais equilibradas da casa. Para um investidor, o interesse está no desvio elegante à norma: mesma referência forte, mesma base mecânica lendária, mas com execução visual suficientemente rara para a separar do conjunto.
A seguir vem a Ref. 5016P-010, estimada entre 380 mil e 706 mil euros, uma peça que já entra no território das “catedrais de pulso”. O calibre R TO 27 PS QR, segundo a própria Patek Philippe, reúne repetição de minutos, turbilhão, calendário perpétuo com data retrógrada, fases da lua e segundos pequenos, num total de 506 componentes.
Durante anos, a 5016 foi tratada como o relógio de pulso mais complicado da casa. O que a valoriza hoje não é apenas a complexidade, mas a sua posição na história recente da marca e a relativa contenção dimensional de uma peça com esta densidade técnica. Para um investidor, é um relógio de nicho alto, menos líquido do que uma 5970, mas com gravitas técnica muito superior.
O mesmo raciocínio, com outra tonalidade, aplica-se à Ref. 5033P-012, estimada entre 195 mil e 304 mil euros. A 5033 foi o primeiro relógio de pulso da Patek Philippe a combinar repetição de minutos e calendário anual, uma combinação que a marca e o mercado reconhecem como pouco comum e altamente inteligente.
A Phillips lembra ainda que a referência nasceu em 2002, numa primeira série muito pequena, e que terá tido produção global reduzida. Em termos de investimento, é uma peça para compradores mais informados, justamente porque não é o nome mais óbvio da sala. E às vezes é aí que mora a oportunidade.
Cartier: forma, cultura visual e colecionismo transversal
A Cartier continua a ganhar peso em leilão porque fala a vários mundos ao mesmo tempo: relojoaria, design, joalharia, artes decorativas e cultura visual. Isso aumenta o universo potencial de compradores e torna algumas peças especialmente interessantes para quem percebe que o valor, hoje, já não nasce apenas da mecânica.
O Cartier Crash Squelette em platina com diamantes e rubis chega com estimativa entre 109 mil e 217 mil euros. A Revolution sublinha que o Crash Skeleton continua a ser o único Crash com um movimento verdadeiramente moldado à forma da caixa, com as pontes esqueletizadas a funcionar como numerais romanos. O calibre 9618 foi desenhado por Carole Forestier-Kasapi, uma das figuras mais respeitadas da relojoaria contemporânea.
Neste lote, a força aumenta porque a Phillips o descreve como a primeira edição com diamantes e rubis a aparecer em leilão, numerada “1” dentro da série. Para o investidor, o interesse está na interseção perfeita entre ícone formal, legitimidade técnica e escassez verificável.
Depois surgem as Mystery Clocks, que elevam o discurso da venda e lembram que um grande leilão de relógios pode ser também um leilão de objetos de arte. O Cartier Model A, circa 1920, com cristal de rocha, ouro amarelo, ónix e diamantes, surge estimado entre 261 mil e 521 mil euros.
O Model A foi o primeiro formato de Mystery Clock da Cartier, produzido a partir de 1912, com o célebre efeito dos ponteiros “suspensos” em discos de cristal de rocha. O que o valoriza é a importância histórica e a condição: neste tipo de peça, a integridade do cristal, do mecanismo oculto e da decoração tem impacto direto no valor.
Já o “Brûlé Parfum Jade de Nankin”, circa 1983, entra com estimativa entre 43,4 mil e 86,9 mil euros e mostra a reinterpretação oitocentista e museológica da tradição Mystery Clock. A própria Phillips descreve-o como um objeto em cristal de rocha, jadeíte, jaspe vermelho, obsidiana, ágata, ouro e diamantes, com inspiração formal em bronzes chineses antigos. Não é uma peça para todos os compradores. Mas é precisamente por isso que interessa. Atrai colecionadores de Cartier, de artes decorativas e de relojoaria de forma simultânea, e esse cruzamento pode ser particularmente fértil em leilão.
No fim, este catálogo diz uma coisa muito simples sobre o mercado: o dinheiro continua a aparecer quando a peça oferece uma tese clara. Uma 2499 primeira série em ouro rosa oferece estatuto histórico quase sem rival. Um Journe “Chine 2010” oferece raridade extrema e narrativa geográfica forte. Um Dufour Simplicity em aço oferece reverência artesanal e produção microscópica. Uma 5970 especial oferece liquidez, nome e pedigree técnico. Um Crash Squelette oferece forma icónica com legitimidade mecânica.
O investidor sério não compra apenas um relógio. Compra a possibilidade de esse relógio continuar a fazer sentido dentro de dez, quinze ou vinte anos. E, nesse capítulo, a Phillips montou em Hong Kong uma venda com argumentos muito acima da média.
Datas: 30 e 31 de maio de 2026
Local: 1/F, WKCDA Tower, West Kowloon Cultural District, No. 8 Austin Road West, Kowloon, Hong Kong
Pré-visualização pública: 22 e 23 de maio, Phillips Perpetual, Pedder Building, Central, Hong Kong; 26 a 31 de maio, Phillips Asia Headquarters, West Kowloon Cultural District.

















