Num setor viciado em rupturas, Véronique Nichanian sai como entrou: sem espetáculo, sem nostalgia, sem concessões. A última coleção para a Hermès reafirma a ideia de moda que resiste ao tempo.
No sábado, 24 de janeiro, às oito da noite, no Palais Brongniart, não houve encenação de despedida nem dramatização de fim de era. Houve coerência. Depois de 38 anos à frente do universo masculino da Hermès, Véronique Nichanian apresentou uma coleção que não procura comover nem resumir uma carreira. Limita-se a fazer aquilo que sempre fez melhor: desenhar roupa para ser usada, vivida e mantida.
A sucessão de silhuetas foi clara desde o primeiro momento. Um casaco de pele de cordeiro. Um sobretudo de viagem reversível em caxemira e lã. Um fato de fecho duplo, risca-de-giz. Peças pensadas para sobreposição, para movimento, para continuidade. Nada parece existir para cumprir um instante. Tudo parece preparado para acompanhar uma vida inteira. O conforto não surge como argumento estético, mas como condição silenciosa. O design não impõe, propõe.
A paleta cromática acompanha esse registo contido e seguro: azul-tinta, ameixa escura, turfa, cinzento queimado. Depois, surgem os desvios calculados. Um forro laranja inesperado. O brilho técnico do neoprene. Uma incrível mala Plume Fourre-Tout On Radio. A cor entra como pontuação, nunca como exclamação. Um detalhe que interrompe o olhar sem quebrar a frase.
As peças transformam-se, adaptam-se, regressam. Há nelas uma familiaridade quase desconcertante, como se já tivessem sido usadas antes. Os detalhes confirmam essa lógica de continuidade: pespontos étrivière, lapelas duplas em pele de cordeiro, bolsos de fole descentrados. Nada chama atenção à distância. Tudo recompensa a proximidade.
Uma despedida sem nostalgia declarada
A própria criadora foi clara ao recusar a leitura sentimental do momento. Em declarações à imprensa internacional após o desfile, Véronique Nichanian sublinhou que esta não foi uma coleção retrospetiva nem nostálgica. “Foi pensada como as outras”, explicou, acrescentando que a presença de peças ou ideias de temporadas anteriores servia apenas para reforçar um ponto essencial: a roupa Hermès não pertence a uma estação, pertence ao tempo.
Noutra entrevista, resumiu quase quatro décadas de trabalho numa frase que se tornou imediatamente citada: “O mundo mudou, mas eu não mudei.” Não como resistência cega, mas como afirmação de método. A moda pode acelerar, fragmentar-se, reinventar-se em ciclos cada vez mais curtos. Véronique Nichanian escolheu outra via. Uma via onde a consistência é valor e não obstáculo.
Essa postura foi amplamente reconhecida pela imprensa internacional. A CNN descreveu a despedida como um momento de “elegância rara num negócio frequentemente turbulento e descartável”, sublinhando a dignidade com que a Hermès encerrou um capítulo tão longo. O Le Monde destacou a ovação de pé no final do desfile como reconhecimento coletivo de um percurso singular na história da moda contemporânea.
Trinta e oito anos a construir um vocabulário
Quando Véronique Nichanian chegou à Hermès, em 1988, convidada por Jean-Louis Dumas, a linha masculina da maison estava longe do estatuto que hoje ocupa. O desafio era criar um universo próprio, respeitando o ADN da casa, sem o cristalizar. O que se seguiu foi um percurso feito de afinação contínua.
Ao longo de quase quatro décadas, Nichanian construiu uma linguagem imediatamente reconhecível, mesmo sem assinatura explícita. Tecidos técnicos convivem com formas clássicas. A inovação surge subtilmente. A surpresa nunca se sobrepõe à função. Essa abordagem transformou a Hermès num caso singular de crescimento sustentado num setor marcado pela ansiedade da novidade.
A criadora rejeitou sempre a ideia de moda masculina como território rígido ou defensivo. Em entrevistas recentes, lembrou que nunca sentiu a necessidade de se impor num universo dominado por homens. “Fui vista como criadora”, afirmou, atribuindo essa liberdade ao contexto específico da Hermès e à confiança que lhe foi dada desde o início.
Reconhecimento para lá da indústria
A influência de Véronique Nichanian não se limita ao círculo fechado da crítica especializada. No desfile final, figuras vindas de universos distintos marcaram presença não só pelo espetáculo, mas também para homenagear a criadora. O rapper Travis Scott, citado pela imprensa britânica, resumiu o motivo da sua presença de forma simples: “I’m here to see VN.” Não a coleção, não a festa. A pessoa.
Esse reconhecimento transversal ajuda a explicar por que razão esta despedida foi lida como um momento histórico. Não porque encerra uma era mediática, mas porque fecha um ciclo de pensamento consistente sobre o que pode ser o luxo masculino hoje.
Com a saída de Véronique Nichanian, a Hermès entra numa nova fase, agora sob a direção criativa de Grace Wales Bonner no universo masculino. Uma escolha que aponta para novas narrativas culturais e simbólicas, mas que acontece sobre uma base sólida, construída ao longo de décadas sem pressa.
O legado de Nichanian não se mede em tendências lançadas nem em momentos virais. Mede-se nas peças que continuam a ser usadas, guardadas, transmitidas. Na ideia de que a moda pode evoluir sem se desmentir. Crescer sem perder densidade. Resistir sem se tornar rígida.























