A nova Maison Hermès em Londres ocupa seis edifícios históricos e transforma Bond Street num labirinto de artesanato, humor britânico e memória francesa.
O número 166 começou por parecer uma morada e acabou como charada. Axel Dumas, CEO da Hermès, divertiu-se com a aritmética: 1 + 6 + 6 dá 13; 1 + 3 dá 4; quatro vezes seis, por ser esta a sexta Maison Hermès no mundo, devolve 24, o número mítico do Faubourg Saint-Honoré, em Paris. A conta fecha, claro. Mas o que interessa não é a matemática. É a forma como a Hermès transforma uma inauguração numa pequena peça de teatro, com inteligência, humor e aquela capacidade muito sua de levar tudo a sério sem se levar demasiado a sério.
A nova Maison Bond Street, inaugurada no número 166 da New Bond Street, em Londres, chega num momento curioso para o luxo. O setor fala de abrandamento, de consumidores mais cautelosos, de retalho físico sob pressão. A Hermès responde abrindo uma das suas casas mais ambiciosas: seis edifícios históricos reunidos sob o mesmo teto, quase 2000 metros quadrados, 55 salas, cinco pisos, dois terraços ajardinados, centenas de obras de arte e os 16 métiers da casa apresentados num percurso que prefere a descoberta à linha reta.
Chamar-lhe loja parece curto. Flagship também não resolve. A própria Hermès escolhe a palavra Maison, reservada para endereços com outra espessura: Paris, Nova Iorque, Tóquio, Seul, Xangai e agora Londres. A diferença está precisamente aí. Uma boutique vende. Uma Maison instala um mundo.
Uma casa francesa com sotaque inglês
A relação da Hermès com Londres não nasceu ontem. A casa francesa abriu a sua primeira loja exclusiva na capital britânica em 1961, em Jermyn Street, e chegou a New Bond Street em 1975. Mas a ligação é anterior. No imaginário da marca, o Reino Unido surge desde cedo como território natural: pela cultura equestre, pelo apreço pelos materiais bem escolhidos, pela elegância sem espalhafato, pela excentricidade educada que permite a um objeto funcional ganhar alma sem perder utilidade.
Essa afinidade atravessa a nova Maison. Pierre-Alexis Dumas, diretor artístico da Hermès, descreveu-a como uma homenagem à cultura britânica feita por uma casa francesa. A frase é certeira porque o edifício não tenta apagar Londres para instalar Paris. Pelo contrário, trabalha as irregularidades, os desníveis, os vestígios e os humores de seis construções que começaram a nascer em 1769 e foram acumulando vidas, estilos e cicatrizes.
O projeto de interiores foi confiado à RDAI, agência parisiense que há décadas acompanha a arquitetura da Hermès, sob direção artística de Denis Montel. Em vez de disciplinar os edifícios até ficarem iguais, a opção foi deixar cada sala respirar com identidade própria. O resultado aproxima-se de uma casa habitada por muitas personagens: corredores que mudam de tom, escadas que aparecem quase como atalhos secretos, salas em sequência, pequenos desvios, surpresas de cor, matéria e escala. A imprensa internacional agarrou-se logo à ideia de labirinto. Não é difícil perceber porquê.
A entrada faz-se por uma fachada de sete metros de altura. No pavimento, o padrão Faubourg integra o ex-libris da casa em tons de chocolate, café e giz, pontuado por cabochons de vidro negro acobreado. A área da seda surge sob arcos altos e armários curvos em cerejeira tingida. Logo depois, o percurso conduz ao átrio, antigo espaço exterior coberto por Foster + Partners, com uma escadaria em calcário e vidro cujo corrimão foi revestido a pele de bezerro. O gesto é subtil, mas diz muito: até a arquitetura parece querer ser tocada.
No átrio, uma escultura de cavalo criada pela artista britânica Jessica Wetherly recorda a origem equestre da Hermès. Noutra zona, dedicada à beleza, perfumes e bijuteria de moda, o ambiente aproxima-se de uma orangerie imaginada, com papel de parede botânico encomendado à ilustradora londrina Katie Scott, mosaicos verdes, rattan, pedra de lava, mármore Ledmore green e tampos em ardósia da Cúmbria.
O prazer de se perder
A Maison Bond Street funciona como uma visita em capítulos. No primeiro piso, uma sequência de salas em tons de vermelho acolhe as carteiras e os objetos de couro. O teto em laca encarnada, o parquet gráfico em carvalho e bloodwood, as paredes em três gradações de vermelho e o mobiliário forrado com Toile H criam uma densidade quase teatral. Para assinalar a abertura, a Hermès concebeu peças especiais, incluindo carteiras, carrés, criações dos Ateliers Horizons, joalharia, relógios, perfumes e objetos ligados ao métier equestre.
A área da casa ocupa cinco espaços com parquet em padrão hexagonal, paredes em azuis e verdes, tapetes nervurados e boiseries onde surgem palha e crina trabalhadas em marchetaria. A coleção equestre ganha lugar central, virada para o átrio, como se lembrasse discretamente quem foi o primeiro cliente da Hermès: o cavalo, sempre o cavalo, esse animal que a marca nunca arrumou no passado.
Ao longo da fachada, seis salas são dedicadas à relojoaria e à joalharia. A luz entra filtrada por revestimentos têxteis desenhados para sugerir sol através das árvores, reforçada por rodapés em mármore amarelo de Siena e mesas com tampos cerâmicos. No segundo piso, os sapatos de mulher aparecem em paredes e tetos rosa-pó, acabados manualmente com argamassa mineral, painéis de madeira tradicionais e uma alcatifa com motivo floral inglês. A zona de pronto-a-vestir feminino distribui-se por cinco salas em gradações de rosa. O universo masculino, virado para New Bond Street, usa soalhos de carvalho recuperado, carpetes geométricas e revestimentos azuis produzidos no Lancashire a partir de técnicas desenvolvidas na era vitoriana.
No terceiro piso, artesãos de pele trabalham diante dos visitantes. A presença é importante porque retira a Maison do campo da encenação pura. A Hermès continua a insistir no mesmo ponto: os objetos devem durar, ganhar pátina, ser reparados, passar de mãos. Num tempo viciado em novidade instantânea, esta ideia tem qualquer coisa de obstinadamente elegante.
O quarto piso, privado, é dedicado à coleção Émile Hermès, evocando o gabinete de curiosidades guardado no 24 Faubourg Saint-Honoré. Obras, objetos, referências e memórias surgem como uma biblioteca material da casa. No topo, dois jardins contíguos abrem-se para New Bond Street e Grafton Street, acompanhados pelo Artificier, o cavaleiro porta-bandeira da Hermès. Até no telhado, a casa encontra forma de manter o cavalo por perto.
Londres ainda conta
A abertura da Maison Bond Street é também uma declaração sobre Londres. Num momento em que várias capitais competem por clientes globais, investimento imobiliário e atenção cultural, a Hermès escolhe Mayfair para uma operação de fôlego. Não se trata apenas de vender mais metros quadrados de seda, couro, relógios ou mobiliário. Trata-se de construir um destino.
Bond Street conhece bem esse jogo. A rua é uma das artérias mais caras e disputadas do retalho de luxo mundial, mas o desafio já não passa por ter uma montra bonita e uma porta pesada. O cliente que se desloca a uma loja física espera uma razão. A nova Hermès responde com tempo, detalhe e percurso. Dá ao visitante a possibilidade de se perder, subir, descer, voltar atrás, descobrir uma sala que não estava no mapa mental. Num mundo organizado por filtros, menus e checkouts rápidos, essa pequena desorientação tornou-se quase um privilégio.
A Hermès percebe-o melhor do que quase todas. O seu luxo não depende de gritar novidade, mas de a tornar inevitável. A Maison Bond Street tem escala, sim, mas o que a distingue é a recusa de transformar essa escala em espetáculo vazio. A casa prefere a piada à fanfarra, a matéria ao efeito, a curiosidade ao manifesto.
No fim, talvez a conta de Axel Dumas tenha mesmo razão. 166 leva a 24. Londres devolve Paris. Seis edifícios tornam-se uma casa. Uma marca francesa encontra no humor britânico o espaço perfeito para se expandir sem perder compostura. E Bond Street, habituada a ver passar todos os símbolos do luxo contemporâneo, ganha um endereço que não quer apenas ser visto. Quer ser percorrido.
Morada: 166 New Bond Street, London W1S 4RB, Reino Unido
Área: cerca de 2000 m²
Projeto de interiores: RDAI, sob direção artística de Denis Montel
Átrio e escadaria: Foster + Partners
Oferta: 16 métiers Hermès, incluindo seda, carteiras e objetos de couro, pronto-a-vestir, calçado, relojoaria, joalharia, perfumes, beleza, casa, art de vivre, equestre e petit h
Horário: segunda a sábado, das 10h30 às 18h30; domingo encerrado
Telefone: +44 20 7499 8856





















