Começou com um cão, uma esquina da Baixa lisboeta e a convicção de que havia outra forma de comer – e de viver – em Lisboa. Dez anos depois, Bárbara Pinto preside a uma família de espaços onde o amor não é apenas o mote de aniversário: é o método de gestão.
Era 2016 e Portugal ainda torcia o nariz à palavra brunch. Bárbara Pinto abriu o Nicolau na Rua de São Nicolau com expectativas contidas. “A minha ideia era ser um negócio de nicho, para pouca gente”, admite. “Nunca achei que atingisse esta dimensão. A ideia era ter alguns clientes, ter uma vida tranquila, a gerir cinco ou seis pessoas e a debitar as minhas receitas.”
O que aconteceu foi o oposto. Filas de duas horas e meia. Clientes de todos os estratos. Jornalistas japoneses com recortes de imprensa debaixo do braço. TikToks espalhados pelo mundo inteiro. “Nunca diria que estaria aqui. Nunca diria que teria restaurantes. A vida é uma caixa de surpresas e a própria vida a surpreender-nos é bom”, refere a fundadora deste conceito.
Hoje, o Grupo Nicolau tem nome, matilha e uma narrativa que funciona como estratégia – mesmo que nunca tenha sido pensada como tal. O Nicolau é o cão aristocrata de sangue alemão mas conversa latina. A Amélia é a namorada, conhecida no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, nascida para o espaço da Rua Ferreira Borges. O Basílio é o primo que veio da Ásia – o nome saído de um dos livros preferidos de Bárbara, “O Primo Basílio”, de Eça de Queiroz. A Olívia é a dona do próprio Nicolau, com um bocadinho de Bárbara dentro, mas nunca demasiado: “Não sou narcisista.” E agora chega o Glória, o mais ousado de todos, que abre às sete da tarde, fecha às duas da manhã e faz da noite do Porto um território novo para a família. “Criámos personagens”, resume Bárbara. “E o amor é sempre o que sobrepõe em todas as histórias. E na vida.”
Uma família, uma filosofia
Os quadros que decoram cada um dos restaurantes foram pintados pela artista Catarina Rosa e retratam os cães – “sendo que o único que realmente existe é o meu Nicolau.” As pessoas continuam a achar que a Amélia existe, que o Basílio existe. Bárbara deixa-as pensar que sim. O que importa é que a ilusão é construída com materiais reais: afeto genuíno, comida feita de raiz, receitas testadas em casa antes de chegarem à mesa. “A única coisa que realmente encomendamos são alguns leites e o pão que não conseguimos fazer todo”, diz. “De resto, é tudo feito aqui desde o início.”
Essa convicção de não usar processados, de reduzir ao mínimo glúten, lactose e açúcar, nasceu de uma necessidade pessoal antes de ser uma proposta comercial. Bárbara tem origem asiática pelo lado materno, cresceu com curiosidade culinária, e o seu corpo simplesmente não se entendia com o que a restauração portuguesa oferecia em 2016. “Não conseguia viver só com comida tradicional. Precisava de variedade, de outros tipos de alimentação.”
Desafiou a consultora de cozinha Ana Viçoso a desenvolver o primeiro menu – “ela tinha ideias incríveis” – e juntas criaram pratos que, àquela data, não existiam em Lisboa. Papas de aveia, panquecas sem glúten, sumos verdes feitos na hora, açaí com granola, fruta fresca. “Coisas que eu não encontrava em lado nenhum.”
O Instagram foi o único canal de comunicação do início, não por estratégia mas por necessidade. “Não tinha agência de comunicação, não fazia comunicação à imprensa, nem sequer tinha site. O Instagram era a única forma de chegar aos clientes.” Tirava fotografias, publicava, e a coisa correu. Celebrities internacionais partilhavam espontaneamente. Americanos e australianos vinham todos os dias ao Nicolau de Cascais – e voltavam no dia seguinte. “Chegámos a ter jornalistas japoneses com um jornal japonês com uma notícia nossa. Crescemos pelo passa-a-palavra, através da internet.”
Quando perguntam se os espaços foram concebidos para ser instagramáveis, Bárbara já não se ofende, mas tão-pouco aceita o rótulo fácil. “Espaços bonitos são fotografados, da mesma forma que eu fotografo uma paisagem bonita. Não há razão para chamar outra coisa.”
Crescer sem perder a alma
A expansão não foi uma decisão calma sentada à secretária. Foi uma resposta às filas. Quando o Nicolau ficou pequeno, chegou a Amélia – porque Bárbara nunca quis que os espaços fossem cópias uns dos outros. “Gostava que os clientes pudessem criar preferências. Não queria que fosse apenas uma questão de conveniência geográfica.”
Cada restaurante tem decoração própria, menu com variações, personalidade distinta. A base conceptual mantém-se – sem processados, cozinha de autor do quotidiano, horário corrido das 8h30 às 23h sem interrupções – mas a expressão de cada espaço é única.
O hambúrguer foi uma batalha. Bárbara resistiu, porque o grupo cresceu associado a uma ideia de comida colorida e saudável. Mas os pais que queriam ir com as filhas pediam “uma coisa consistente”. O hambúrguer entrou com abacate e cebola caramelizada. “Tenho de admitir: acabou por resultar muito bem. Está no nosso top até hoje.” A capacidade de ceder sem capitular é, provavelmente, uma das razões pela qual o grupo chegou aos dez anos com saúde. A renovação de menus acontece a cada seis meses, sempre com testes em conjunto com as equipas de cozinha, chefes e direção. “Depois de recolhidas as ideias, há sempre muitos testes de comida feitos em conjunto, até chegarmos aos pratos.”
A inspiração vem das viagens – muitas, para toda a equipa – mas também de livros de receitas internacionais que Bárbara compra compulsivamente. “Passei anos em que, em vez de ler um livro, lia livros de receitas. Tenho trezentos em casa.” E dos clientes, também. “Há clientes que já me deram ideias. Bebo muito de quem está à minha volta.”
O resultado é uma carta que nunca envelhece da mesma maneira: os pratos icónicos regressam – as Panquecas Nicolau, a French Toast Amélia, as Panquecas Twist & Bacon – mas chegam sempre acompanhados de propostas novas. Para este verão de 2026, bone broth caseiro com miso no Nicolau de Cascais, polvo grelhado com puré de batata-doce em Lisboa, a primeira renovação simultânea de todos os menus do grupo.
O amor como método
A frase que assina os dez anos – o prato forte é o amor, há dez anos a prová-lo – não é um slogan de agência. É literalmente o que está escrito nos pacotes de açúcar personalizados que estão em cima de cada mesa. É o que Bárbara Pinto pratica na gestão de equipas, onde a retenção de talento num setor notoriamente difícil continua a ser uma das suas maiores conquistas. “Acima de tudo, tenho muito cuidado com a vida deles. Para mim, o mais importante é confiar nas pessoas. Se eu não confiar, não vale a pena estarem comigo.” Não controla, assume que vai receber. “Já me enganei, claro, mas tenho algum faro e as coisas correram-me bem.”
O segredo das equipas felizes, segundo Bárbara, é reparar nos detalhes. Um exemplo concreto: uma amiga sua comeu um prato que achou incrível no Nicolau de Cascais e mandou-lhe uma mensagem. Bárbara reencaminhou o elogio diretamente para o chefe de cozinha. “Isto faz diferença para eles. Ser reconhecido é essencial.” A liderança é feita com respeito e não com medo. “Uma liderança feita com amor resulta em restaurantes com muita alma, mesmo eu não estando sempre presente. Eles bebem um bocadinho de mim e de toda a gente que está à minha volta.”
Há decisões que tiram o sono. As obras, acompanhadas do início ao fim, com reuniões intermináveis e paredes pintadas três, quatro vezes até chegar à cor certa. A iluminação do Olívia, com vinte e sete trocas de lâmpadas antes de encontrarem a temperatura de luz ideal. A gestão de recursos humanos, que se revelou mais complicada do que qualquer projeção financeira. “É muito mais complicada do que eu imaginava. Tira o sono mesmo.”
E os “nãos” ditos a oportunidades de crescimento que não combinavam com os valores do grupo – espaços em localizações apetecíveis, parcerias comerciais que teriam liquidez mas nenhuma coerência. “Disse não a centros comerciais porque não combinavam connosco de forma nenhuma.” Disse não ao delivery clássico durante muito tempo, porque acreditou – e continua a acreditar – que a experiência física de estar no espaço é insubstituível. Entrou no Uber Eats com um menu especialmente adaptado precisamente para minimizar os danos inevitáveis da mota, do calor e do trânsito.
O Glória e os próximos dez anos
A abertura mais ousada do grupo não é uma extensão do que já existe. É uma recusa deliberada de ficar parada. O Glória, no Porto, no Largo Alberto Pimentel, abre às sete da tarde e fecha às duas da manhã, com comida portuguesa interpretada – croquetes de bochecha, pescada pil-pil, franguinho da guia, arroz de forno com lulas recheadas – boa música e cocktails que convidam a prolongar a noite.
“Quisemos sair mesmo da nossa zona de conforto”, admite Bárbara. “É uma coisa completamente diferente do que são os nossos espaços. Não sei se vai resultar. Acredito muito que sim, porque acho que está incrível.” O chef Miguel Passos, que mora no Porto, foi peça central na implementação do projeto. A decoração tem personalidade e um detalhe que diz tudo sobre a intenção do lugar: há um varão na casa de banho. Para quem quiser dançar.
Em Lisboa, uma nova abertura está no horizonte – ainda sem data confirmada, mas já anunciada como novidade breve. O grupo que começou na Rua de São Nicolau expandiu-se para o Chiado, para Cascais, para o Porto e para a Foz. Cada vez que muda de cidade, recomeça a história. “É um restart. O Nicolau chega, conhece alguém, e a história começa de novo.”
Bárbara Pinto recusou-se sempre a fazer planos de longo prazo. Como economista que foi – passou pela banca, pelo setor automóvel, pela gestão de um hostel antes de abrir o Nicolau -, aprendeu que os business plans do restaurante nunca resultaram como previsto. “Foi sempre acima.” Hoje gere com expectativas calmas e não se prende a uma visão rígida de futuro. “A vida é um livro em aberto. Eu nunca diria que estaria aqui. A vida é mesmo uma surpresa.” O que quer é simples, e di-lo com a mesma frontalidade com que diz tudo o resto: ser feliz, ter saúde, viajar e dar uma boa vida às filhas.
Para a pergunta final – se daqui a dez anos quer que digam que o Grupo Nicolau foi bom a fazer restaurantes ou bom a criar lugares onde as pessoas se lembram de ter vivido qualquer coisa -, a resposta de Bárbara Pinto sai sem hesitações. A americana que voa de propósito para Lisboa para ir ao Nicolau de Cascais todos os dias durante a viagem. O australiano que entra e diz que nunca encontrou um espaço assim em nenhuma cidade do mundo. O ucraniano que vem dar parabéns, que quer saber a história da família. “Sinto muito o amor dos clientes que estão à minha volta. Ainda hoje, passados dez anos.” E é isso, no fundo, que define o Grupo Nicolau – não os pratos, não a fotogenia, não o crescimento de cidade em cidade. É a memória que fica, a sensação de que ali aconteceu qualquer coisa. De que valeu a pena ir.
Para celebrar uma década, o Grupo Nicolau fez parceria com a escritora Inês Maria Meneses e a ilustradora Joana Dornellas, criando um manifesto e três ilustrações exclusivas – uma para cada espaço do grupo – que traduzem em palavras e cores o que Bárbara Pinto leva dez anos a construir mesa a mesa: a ideia de que o prato forte é o amor, e que há sempre espaço para mais um à mesa.
Nicolau Lisboa – Rua de São Nicolau, nº17, Lisboa | Tel.: +351 218 860 312
| Email: info@ilovenicolau.com | Horário: segunda a quinta e domingo das 8h30 às 20h00 / sexta e sábado das 8h30 às 22h30
Amélia Lisboa – Rua Ferreira Borges, nº101, Lisboa | Tel.: +351 213 850 863 | Email: info@ilovenicolau.com | Horário: todos os dias das 9h00 às 21h00
Olívia Lisboa – Avenida Marquês de Tomar, nº69 A, Lisboa | Tel.: +351 217 961 742 | Email: info@ilovenicolau.com | Horário: todos os dias das 9h30 às 23h00
Nicolau Cascais – Rua Freitas Reis, nº26, Cascais | Tel.: +351 214 846 346 | Email: info@ilovenicolau.com | Horário: segunda a quinta e domingo das 8h30 às 20h00 / sexta e sábado das 8h30 às 22h00
Basílio Porto – Porto
Nicolau Porto – Largo Alberto Pimentel, nº4, Porto | Email: infoporto@ilovenicolau.com | Horário: todos os dias das 9h00 às 22h00 (horário brunch/all day)
Amélia Foz – Rua da Senhora da Luz, nº 286, Porto | Tel.: +351 226 155 315 | Email: infoporto@ilovenicolau.com | Horário: todos os dias das 10h00 às 19h00 / sextas e sábados com jantar até às 22h00
Glória Porto – Largo Alberto Pimentel, nº23 A, Porto | Tel.: +351 222 085 556 | Horário: todos os dias das 19h00 às 2h00


















