Na Hackett há um quarto de século, Graham Simpkin é hoje uma das vozes mais experientes do tailoring britânico. Entre Londres e a Avenida da Liberdade, defende um ofício que se mantém fiel à precisão, ao tempo necessário e à relação com cada cliente.
O mundo do tailoring resiste com uma serenidade quase provocadora ao ritmo veloz que domina a moda. Num cenário dominado pela urgência, pela gratificação instantânea e pelas coleções que se sucedem a uma velocidade vertiginosa, a ideia de um fato construído passo a passo — pensado para um corpo específico, com escolhas conscientes e prova atrás de prova — tornou-se um gesto de distinção. É luxo silencioso na sua forma mais pura. Para Graham Simpkin, Head of Tailoring da Hackett London, esta resistência representa coerência. É assim que a qualidade se constrói e se reconhece.
Com quase 24 anos dedicados à marca britânica, Graham Simpkin tornou-se guardião de uma área que viu crescer das margens para o centro. Quando chegou, o tailoring era uma pequena parcela do universo Hackett; hoje, está presente em 25 localizações, entre as quais a Avenida da Liberdade. É precisamente em Lisboa, diz, que encontra um tipo de cliente com particular sensibilidade para materiais, atento ao calendário térmico do país e apreciador de construções mais leves, ainda que ancoradas numa estética britânica clássica.
Ao longo da conversa, Graham Simpkin abre as portas à distinção entre os três níveis de serviço da Hackett — Personal Tailoring, Made-to-Measure e o verdadeiro Bespoke — e explica por que razão cada um responde a expectativas diferentes. Fala dos avanços tecnológicos e dos novos materiais, sem nunca perder de vista o essencial: a relação. É aí, acredita, que começa o tailoring. Entre histórias de encomendas singulares e reflexões sobre o que mudou (e o que não deve mudar), Graham Simpkin mostra porque continua a defender que a qualidade não se apressa. Cultiva-se.
Tem mais de duas décadas na Hackett. O que o mantém tão dedicado a uma marca — e a um ofício — que são, por natureza, intemporais?
Estou na marca há 23 anos e em breve serão 24. Quando comecei, o tailoring era uma parte muito pequena do negócio; hoje, temos 25 localizações que oferecem este serviço, algo que construí com a minha equipa. Tenho muito orgulho no percurso. A minha paixão nunca diminuiu. Gosto de conhecer pessoas únicas e criar peças únicas para elas. Essa personalização constante é a beleza do tailoring — e o que me motiva todos os dias.
Como descreve hoje a arte do tailoring? Continua a ser sobretudo técnica, ou tornou-se também uma afirmação de estilo?
A técnica do verdadeiro bespoke nunca pode ser relativizada — é o resultado de anos de dedicação. Depois há alternativas como made-to-measure ou personal tailoring, onde o cliente define mais o estilo. Mas o craft autêntico é o bespoke, que exige tempo, precisão e uma forma de estar. Muitos clientes procuram peças únicas, verdadeiros objetos de arte.
A Hackett oferece três níveis de serviço. O que distingue cada um e o que leva um cliente a optar por um sobre outro?
O personal tailoring trabalha sobre um molde existente, permitindo escolher tecido, design e acabamentos. É um ponto de entrada competitivo em preço. O made-to-measure é totalmente canvassed e com acabamentos manuais, favorece tecidos leves e construções mais suaves — muitos clientes preferem-no. Mas bespoke é bespoke. Feito à mão, com três provas, mais de 100 horas de trabalho e liberdade total para alterar tudo durante o processo. É criatividade sem limites, algo que os outros serviços, por estarem 95% concluídos à partida, não permitem.
A loja de Lisboa, na Avenida da Liberdade, oferece o Personal Tailoring. Como descreve o cliente português?
É muito refinado nas escolhas, sobretudo nos materiais. Os super 130s e 140s são extremamente populares, em parte devido ao clima. E prefere construções suaves, menos rígidas do que o clássico inglês. Gosta de um look britânico, mas com sensação leve e natural.
Num mercado acelerado, como se comunica o valor de um made-to-measure que exige tempo, provas e paciência?
Os clientes querem tudo mais rápido, e adaptámo-nos — adquirindo tecidos e posicionando-os estrategicamente na fábrica para agilizar quando necessário. Mas a maioria entende que não se pode apressar a qualidade. Encontrámos formas de acelerar sem comprometer o standard.
O que mudou no tailoring masculino na última década — e o que permanece igual?
A base técnica permanece intacta. O que mudou foram as silhuetas: há 20 anos era tudo mais largo; hoje, há procura por cortes mais ajustados. Mas vemos agora um regresso a volumes mais soltos e peças descontraídas. As lapelas diminuíram e os casacos tornaram-se mais curtos. São ajustes de época, sem alterar a essência.
A tecnologia está a transformar a forma como nos vestimos. Já sente essa influência no tailoring?
Sim, sobretudo nos materiais tecnológicos, que hoje incluem opções impensáveis há anos — como fatos feitos com fibras de bambu. Trazem inovação e sustentabilidade. No digital, muitos avançam para sistemas de medição online, mas para mim o essencial continua a ser a relação com o cliente. Medir é parte do processo; compreender a pessoa é o verdadeiro craft.
Que tecidos lhe dão mais prazer trabalhar?
Gosto particularmente de um wool-cashmere super 120. Tem a suavidade da caxemira e a força da lã. A forma como assenta é extraordinária e é extremamente durável. Para mim, um excelente tecido combina resistência, capacidade de recuperar e aparência impecável ao longo do dia.
Recorda alguma encomenda particularmente memorável?
Sim, uma convidada mostrou-me um tecido herdado da mãe, quase como um tapete, e queria transformá-lo numa peça especial. Ainda hoje espero ter oportunidade de concretizar esse desejo — era um material verdadeiramente singular.
Se tivesse de definir o seu fato perfeito, qual seria?
Um três-peças sharkskin, casaco de um botão com lapela em bico, colete duplo 3×3 e calça afunilada sem bolsos traseiros. Versátil e elegante, para trabalho ou noite. E claro, o dinner suit clássico — todos os homens querem ser James Bond quando o vestem.
O que mais o entusiasma no futuro da Hackett e do tailoring britânico?
O interesse da nova geração. Durante anos, poucos queriam aprender o craft; agora, vemos jovens motivados. É promissor.
Morada: Avenida da Liberdade nº192 A, Lisboa
Horário: Segunda a sábado: 10h00–20h00; Domingos e feriados: 10h00–19h00
Serviço disponível: Personal Tailoring, com seleção de tecidos sazonais e assistência especializada da equipa Hackett.
















