“One hour to change the world” é a proposta do novo centro de visitantes nas Nações Unidas em Genebra.
Vivemos no caos da dicotomia do mundo — um tempo em que a ordem e o desmoronamento coexistem sem avisos prévios, em que as fronteiras entre guerra e negociação, verdade e narrativa, homem e natureza, parecem cada vez mais porosas.
“If you’re going through hell, keep going” (Se estás a atravessar o inferno, continua a caminhar), lembrava Churchill, em tempos em que o mundo ainda cabia na clareza dura das decisões. Hoje, o desafio é outro: atravessar a complexidade sem perder a lucidez. E talvez seja por isso que Genebra volta a ganhar: uma relevância magistralmente silenciosa — como se fosse um mecanismo de relógio em equilíbrio, num sistema global instável.
Genebra, como morada de muitos órgãos das Nações Unidas, pareceu-me uma ótima escolha estival. Num tempo em que o caos do mundo impera, a cidade não se entrega à primeira leitura, não seduz pelo excesso nem pela monumentalidade — e é por isso que me encantei, muito mais do que com Zurique. Falar bem a língua francesa ajuda bastante, mas, observando o lado bom do espartilho alemão, Genebra é mais feminina, calorosa e glamorosa.
A imagem de estabilidade que hoje define a cidade nem sempre existiu. Poucos sabem que Genebra foi destruída por um tsunami no século VI. O desabamento de uma enorme massa rochosa no lago, perto de Montreux, provocou uma onda que chegou à cidade com oito a doze metros de altura. Ainda hoje, nas caves de alguns edifícios, permanecem vestígios das casas derrubadas. Uma memória inesperada que nos relembra que até os lugares que hoje simbolizam equilíbrio nasceram um dia de desmoronamento e destruição.
Muito internacional, Genebra é uma cidade que pede tempo, devolvendo uma forma rara de entendimento do mundo. Aqui, tudo parece desenhado para reduzir a fricção: entre pessoas, entre instituições, entre natureza e arquitetura. Mas por trás dessa suavidade aparente existe uma das engrenagens mais densas da diplomacia global, que acaba de inaugurar um novo centro para visitantes, disposto a explicar uma importante mensagem a um planeta em caos.
O novo Centro de Visitantes da ONU, Portail des Nations, não é apenas um edifício de média dimensão com um espaço expositivo. Mais do que paredes erguidas nas imediações das Nações Unidas, é uma tentativa de tornar visível aquilo que, por natureza, é invisível: o processo de negociação internacional.
Numa altura em que o mundo se fragmenta em blocos de linguagem e de poder, esta morada propõe um gesto quase radical — explicar como se constrói um entendimento entre diferenças. A experiência imersiva “Together” organiza-se como uma travessia conceptual. Primeiro, o encontro: Estados soberanos que chegam com histórias, interesses e sistemas jurídicos profundamente distintos. Depois, o conhecimento: a teia silenciosa de peritos, dados, organizações e agências que sustentam decisões sobre clima, saúde global, migrações, conflitos e desenvolvimento. Por fim, a decisão: o momento em que a diplomacia deixa de ser abstrata e se torna humana — negociada, imperfeita, mas sempre, sempre possível.
Porque compreender o funcionamento da cooperação internacional é compreender também a fragilidade daquilo a que chamamos ordem mundial. O conjunto arquitetónico, desenhado pelo atelier genebrino Charles Pictet Baptiste Broillet Associés, materializa uma visão de Ivan Pictet, presidente da Fundação Portail des Nations, que idealizou e financiou aquele que talvez seja hoje o mais ambicioso projeto de aproximação entre o público e as Nações Unidas. O centro convida-nos a uma experiência para, numa hora, mudarmos o mundo. Pessoalmente, na penúltima sala, sentada a observar o último vídeo, cumpre-me afirmar que, mais do que uma experiência interativa, é sobretudo uma viagem emocional para corações sensíveis — mas sempre obrigatória a todo e qualquer viajante que visite Genebra.
Não por acaso, António Guterres considera que este será um abrir de caminho para maior lucidez. Na cerimónia de conclusão da obra, o secretário-geral das Nações Unidas recordou que cerca de duzentos mil visitantes passarão anualmente por este espaço para compreender como o trabalho da organização influencia diariamente a vida das pessoas e do planeta. Mais do que um centro de visitantes, Guterres descreveu-o como “uma porta para a paz, uma ponte para a justiça e para a oportunidade”, capaz de transformar consciência em participação e de levar a mensagem das Nações Unidas para muito além de Genebra.
Genebra, a capital da paz, dos relógios e da cultura
Genebra respira serena ao ritmo do Lago Léman. Caminhar junto à água é quase um exercício involuntário de desaceleração. Bancos virados para o horizonte, ciclovias onde todos pedalam de forma leve e suave, mergulhos ao final do dia — uma cidade onde a arquitetura prefere acompanhar a paisagem em vez de competir com ela. Essa mesma lógica prolonga-se na sua dimensão invisível: organizações internacionais, missões diplomáticas e instituições humanitárias convivem num ecossistema onde o conflito não desaparece, mas é constantemente traduzido em linguagem negociável.
Essa diversidade intelectual alcança também os seus museus. Do Musée d’Art et d’Histoire de Genève, ao Mamco – Musée d’art moderne et contemporain, ao Patek Philippe Museum, onde a relojoaria se transforma numa reflexão sobre o tempo e a precisão, Genebra recorda-nos que a cultura é sempre uma forma de interpretar o mundo.
Entre muita oferta cultural destaco com a suspeita do meu lado melómano, o Victoria Hall, onde a música se torna quase matéria física: a acústica é tão precisa que o som parece ocupar o espaço antes mesmo de ser interpretado. Nesta sala edificada no século XIX, pelo arquiteto John Camoletti, a mando do antigo cônsul britânico Daniel Fitzgerald Packenham Barton, e que dedicou este espaço à Rainha Vitória, assistir à Carmina Burana, de Carl Orff, não foi apenas uma experiência estética, foi uma suspensão da confusão do mundo. Como se a loucura do planeta, por instantes, deixasse de interferir nas mentes agitadas confirmando a importância da cultura, essa rainha salvífica a pensamentos agitados.
Uma cidade orientada para a felicidade
“De todas as cidades do mundo, Genebra parece ser o lugar onde as pessoas poderiam chegar mais perto da felicidade.” A frase é do escritor argentino Jorge Luís Borges. Com a sensação de aldeia em que toda a gente se conhece, mas num contexto internacional, senti de imediato a grande qualidade de vida acima da média europeia.
Na vivência da cidade, as mesas que mais gostei: Les Armures, Café du Centre, Café Le Lyrique, Café du Grütli no Grand Théâtre de Genève onde provei a melhor salada de alcachofra da minha vida, o vegetariano Amarante no jardim botânico colado às Nações Unidas e o Table Brute numa das ruas mais animadas do centro. A não perder também o chá da tarde do Four Seasons Hotel des Bergues.
Cada espaço, à sua maneira, revela uma cidade onde se come sem pressa e onde a elegância nunca precisa de ser ostensiva. Marcar mesa também no L’Alma e do Les Halles de l’Île, este último um antigo armazém medieval numa ilha no meio do Ródano, hoje brasserie, bar, esplanada sobre a água, com livraria e loja de discos. Ainda a Brasserie Lipp, instituição genebrina desde 1936, de ambiente Art Déco, com chucrute e ostras, onde se observa a cidade em estado puro durante a semana.
Nos Bains des Pâquis, Genebra torna-se quase democrática: sauna, banho no lago, café simples, horizontes abertos — uma espécie de urbanismo essencial onde habitantes e viajantes se misturam para nadar ao final do dia, ao lado de cisnes, literalmente a menos de um metro, com o famoso jato de água a poucos metros de distância.
Uma experiência quase obrigatória é atravessar o lago numa das tradicionais mouettes — pequenos barcos amarelos e carmim que integram a rede de transportes públicos de Genève — como se a cidade se revelasse melhor vista a partir da água, entre margens que parecem conter um silêncio próprio.
Porque ir à Suiça sem provar os icónicos chocolates, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa, o turismo da cidade criou um Chocopass para fazer várias provas. Percorre-se a zona do Rhône, onde o chocolate ainda se compra como um gesto antigo, quase instintivo, preservando uma liturgia discreta que resiste ao tempo. E vale a pena parar em três casas históricas, que definem a elegância contida da cidade.
A primeira a Auer Chocolatier, uma das mais antigas da cidade, fundada no século XIX, onde as vitrines parecem suspensas numa temporalidade própria e o chocolate é trabalhado com precisão silenciosa — fino, leve, sem excessos. Segue-se a Favarger, profundamente enraizada na tradição genebrina, onde a sobriedade não é estilo, mas linguagem. Os pralinés têm sabores limpos, quase geométricos, como se cada pedaço de chocolate fosse mais ideia do que indulgência. Termina-se na Du Rhône Chocolatier, talvez a mais emblemática de todas: clássica, rigorosa, de execução quase arquitetónica, onde cada chocolate parece obedecer à mesma disciplina subtil que estrutura a própria cidade.
Vale a pena aproveitar o percurso atravessando a Place du Molard e subindo em direção à Cidade Velha pela Place du Bourg-de-Four. Visitar a Catedral de Saint-Pierre, espreitar o Ancien Arsenal e descer pela Rampe de la Treille até ao Muro dos Reformadores.
Aqui o final da caminhada pede uma pausa no Kiosque des Bastions, para uma experiência verdadeiramente local, este lindíssimo espaço Art Déco no coração do jardim com o mesmo nome, é uma boa escolha para brunch ao fim de semana, almoço, copo de fim de tarde ou jantar, é um testemunho vivo da pulsação dos locais da cidade.
Obrigatório é também subir ao rooftop do Hôtel Métropole Genève, para avistar um dos postais mais bonitos da cidade. A não perder também, apanhar a lancha do La Réserve Genève, para um copo tardio ou jantar no hotel do mesmo nome, junto a uma margem mais distante.
Se ainda houver tempo, vale a pena visitar as caves do Château Crest, o castelo de Sylvie e Yves Micheli, onde vários pavões se pavoneiam, entre adegas de vinhos marcantes e uma coleção de arte privada imperdível sobre a historia de Genebra.
Num epílogo feliz, Genebra não se impõe — revela-se. Entre o lago e a diplomacia, entre a elegância discreta, a qualidade de vida quase inacreditável e uma diversidade serena que se vive sem atrito, a cidade constrói uma forma rara de harmonia quotidiana, onde tudo parece caber sem ruído e a vida se desenrola com uma leveza inevitável. E talvez seja esse o seu verdadeiro fulgor: uma cidade onde a felicidade não é exibida nem procurada — apenas acontece. Porque, mesmo quando o mundo se agita, Genebra regressa sempre ao seu magistral lugar de equilíbrio.
Veja o vídeo do novo centro da Fundação do Portal das Nações AQUI.
Texto de Sancha D’Oriol Trindade, fundadora da marca CURATED, que pode seguir AQUI.





































