Na Watches & Wonders 2026, a relojoaria voltou a procurar espanto: luz, espaço, materiais novos, complicações raras, caixas inesperadas e uma nostalgia muito bem afinada.
O A. Lange & Söhne Lange 1 Tourbillon Perpetual Calendar “Lumen” parece feito para ser visto numa sala escura. O mostrador deixa passar a luz, a mecânica aparece em sombras controladas, a indicação da fase da lua ganha presença própria e o calendário perpétuo, essa complicação tão cerebral, quase se torna atmosférico. À primeira vista, não é apenas um relógio. É uma espécie de eclipse mecânico, com a precisão alemã a trocar o colete cinzento por uma roupa de noite inesperadamente cinematográfica.
É também o relógio certo para começar a ler a Watches & Wonders 2026. Condensa, num único objeto, algumas das forças que atravessaram Genebra este ano: o regresso da luz como matéria relojoeira, a procura de grandes complicações com presença emocional, a valorização da raridade, a vontade de mostrar a técnica sem a transformar em espetáculo gratuito. A peça é limitada a 50 exemplares, junta calendário perpétuo e turbilhão, trabalha a linguagem Lumen que a Lange tem vindo a desenvolver em peças muito especiais, e recorda uma verdade simples: a alta relojoaria continua a ser mais interessante quando obriga os olhos a demorarem-se.
A Watches & Wonders 2026 não se leu apenas pelo desfile de novidades. Leu-se pelo conjunto de sinais que atravessaram as grandes maisons: o regresso da Super-LumiNova e dos mostradores Lumen; a obsessão celeste, visível em fases da lua, mapas astronómicos e relógios pensados para altitude, aviação e resistência extrema; a pesquisa de novos materiais, da cerâmica luminosa da IWC às caixas cada vez mais leves; a força dos aniversários, que trouxe para primeiro plano arquivos, ícones e códigos fundadores; a afirmação das artes decorativas, com esmalte, marchetaria, gravação, pedra e métiers d’art a ocuparem o centro da conversa; e uma atenção renovada à proporção, com caixas mais compactas, formatos inesperados e cores menos óbvias, do pistachio ao papyrus, do chestnut aos tons minerais.
A nostalgia esteve presente, mas não apareceu como refúgio. Funcionou como matéria-prima para uma relojoaria que quer voltar a emocionar através da técnica.
A luz saiu dos índices e entrou na conversa
Durante anos, a matéria luminosa foi tratada sobretudo como ferramenta. Servia para ler as horas no escuro, cumprir um requisito funcional, dar credibilidade desportiva ou militar a um relógio. Em 2026, a luz deixou esse papel obediente. Ganhou espessura estética, teatralidade e, em alguns casos, protagonismo tecnológico.
O Lange 1 Tourbillon Perpetual Calendar “Lumen” é o exemplo mais poético. A Lange usa a luz como revelação. O mostrador em safira fumada cria essa tensão feliz entre o que se vê e o que fica sugerido. O anel periférico dos meses, a grande data, as indicações de calendário e a fase da lua trabalham numa coreografia discreta, onde a técnica não precisa de se explicar. A peça parece guardar uma vida noturna própria.
A IWC seguiu por outro caminho. No Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar Ceralume, a luz já não está apenas no mostrador: está na caixa. A marca trabalhou uma cerâmica branca luminosa, desenvolvida pela sua divisão XPL em colaboração com especialistas em Super-LumiNova, criando uma peça que transforma um instrumento de piloto num objeto quase espectral. Durante o dia, lê-se como um Big Pilot branco, robusto, limpo. No escuro, muda de natureza. O relógio deixa de refletir luz. Passa a emiti-la.
É uma diferença importante. A Lange transforma a luz em linguagem íntima. A IWC transforma-a em tecnologia de material. Uma é câmara escura. A outra é laboratório. Ambas apontam para o mesmo lugar: a luminescência passou a ser território criativo. A tendência apareceu também em modelos de vocação mais técnica, nos cronógrafos, nos relógios de piloto, nos de mergulho e nos mostradores que usam Super-LumiNova com intenção gráfica. A luz voltou porque serve a função, mas ficou porque ganhou dramaturgia. A relojoaria percebeu que a escuridão é um excelente editor.
O céu ocupou os mostradores
O espaço foi uma das presenças mais visíveis da edição. Não apenas na lógica evidente das fases da lua, mas numa leitura mais ampla: astronomia, altitude, resistência, instrumentos de navegação, materiais preparados para condições extremas e uma imaginação quase orbital. A relojoaria, que sempre teve uma relação natural com o céu, voltou a olhar para cima.
A Patek Philippe deu um dos passos mais marcantes com o Celestial Sunrise/Sunset Ref. 6105G-001. A peça expande a família Celestial e introduz uma indicação de nascer e pôr do sol num relógio de pulso da marca, com uma arquitetura visual muito diferente da serenidade clássica que tantas vezes associamos à Patek. A caixa de ouro branco, com 47 mm, tem presença de objeto estranho, quase espacial. O mostrador trabalha camadas, indicações astronómicas e uma ideia de céu que já não é apenas romântica. É cálculo, geografia, mecânica e espanto.
Van Cleef & Arpels, fiel à sua tradição de complicações poéticas, aproximou-se do céu por outra via. Fases da lua, ciclos dia/noite, aventurina, esmalte, madrepérola e pequenos teatros mecânicos continuam a construir um universo onde a relojoaria não pretende apenas medir o tempo. Quer encená-lo. É um território particularmente fértil para a maison, porque a sua autoridade não vem da competição técnica pura, mas da capacidade de transformar um mostrador num mundo miniaturizado.
A Oris levou o tema para uma zona mais funcional, com o ProPilot Altimeter Mission Control, um relógio que liga aviação, altitude e ferramenta mecânica. A IWC, com a sua tradição de relógios de piloto, reforçou também esta ligação a instrumentos de navegação, materiais resistentes e ergonomia extrema. A Jaeger-LeCoultre, através das suas complicações de calendário e da sua tradição de precisão clássica, acrescenta ao tema uma leitura mais calma, mas igualmente celeste.
O que interessa aqui não é apenas a quantidade de luas. É a forma como o céu voltou a funcionar como argumento. Durante algum tempo, as fases da lua correram o risco de se tornar ornamento bonito, útil sobretudo para fotografias com fundo azul. Em 2026, a astronomia surge com maior ambição: cálculo solar, mapas celestes, altitude, resistência, viagem, exploração. O relógio volta a ser um instrumento para quem olha para o pulso, mas pensa na distância.
Os aniversários mergulharam a indústria nos arquivos
A relojoaria adora aniversários. A tentação seria dizer que os usa como desculpa para reeditar modelos, trocar mostradores e vender memória em caixas novas. Seria injusto. Quando bem tratados, os aniversários são um verdadeiro teste de coerência. Obrigam as marcas a provar que têm códigos suficientemente fortes para sobreviverem ao presente.
A Rolex celebrou os 100 anos da Oyster, talvez uma das caixas mais importantes da história da relojoaria moderna. A Oyster não é apenas uma invenção técnica. É uma ideia de fiabilidade que ajudou a construir a identidade da marca. Em 2026, a celebração passou por novas leituras da Oyster Perpetual, incluindo propostas em aço, ouro e combinações Rolesor, com atenção especial à cor e aos mostradores. O verde, nas variadas dimensões do Oyster Perpetual, tornou-se rapidamente uma das tonalidades mais comentadas do salão. A Rolex sabe muito bem que uma cor aparentemente simples pode gerar uma pequena tempestade de desejo.
A Patek Philippe celebrou os 50 anos do Nautilus, um dos relógios que melhor explica a passagem do relógio desportivo de aço para objeto de culto. A marca apresentou edições especiais e uma surpreendente interpretação de bolso/mesa, lembrando que o Nautilus é hoje uma forma, uma proporção e uma linguagem reconhecíveis mesmo quando se afasta do pulso. A celebração foi menos ruidosa do que alguns colecionadores talvez esperassem, mas talvez isso faça parte da disciplina Patek: deixar sempre uma porta semiaberta, nunca entregar todo o fogo-de-artifício de uma só vez.
A Vacheron Constantin continuou a trabalhar os seus 270 anos com a naturalidade de quem atravessou várias épocas sem precisar de se fantasiar de arquivo. A maison tem uma vantagem: o passado não é um departamento, é o chão da casa. Em 2026, isso voltou a aparecer nas grandes complicações, nos métiers d’art e na forma como a marca usa memória, decoração e engenharia com uma serenidade muito própria.
A Tudor também usou a sua história como alavanca, num ano em que a marca reforçou códigos de proporção, robustez e pragmatismo. A Chanel continuou a mostrar a força do J12 como objeto de design, ainda com capacidade para se reinventar sem perder a sua silhueta essencial. A Audemars Piguet, em ano de forte visibilidade institucional e criativa, voltou a lembrar que a Royal Oak é hoje simultaneamente ícone, plataforma e campo de experimentação.
A grande complicação ficou mais emocional
A complicação relojoeira sempre foi uma forma de linguagem. Calendário perpétuo, repetição de minutos, turbilhão, cronógrafo rattrapante, hora saltante, autómato, mapa celeste: cada uma destas soluções responde a uma pergunta diferente. O problema, durante alguns anos, foi a tentação de tratar a complicação como ginástica. Muitos músculos, pouca frase.
Em 2026, os modelos mais fortes pareceram procurar outra coisa. A. Lange & Söhne mostrou dois caminhos muito diferentes. O Lange 1 Tourbillon Perpetual Calendar “Lumen” é a complicação em modo teatral, raro, noturno, quase hipnótico. O Saxonia Annual Calendar, por seu lado, trabalha a inteligência inversa: caixa de 36 mm, espessura contida, calendário anual, fase da lua e muita presença. É o tipo de relógio que obriga a rever a ideia de prestígio. Nem tudo o que é complexo precisa de ocupar espaço.
A Patek Philippe apresentou uma das coleções mais densas do salão, com novas referências que percorrem calendários anuais, calendários perpétuos, repetição de minutos, cronógrafos, autómatos e complicações astronómicas. O Celestial Sunrise/Sunset destacou-se pela audácia técnica e estética, mas houve também peças de altíssima raridade, incluindo propostas gem-set e modelos onde a complicação se cruza com savoir-faire decorativo.
A TAG Heuer merece atenção neste capítulo pelo Monaco Evergraph. O Monaco já tinha forma, história, cinema e uma dose saudável de insolência quadrada. Em 2026, ganhou um novo argumento técnico, com um sistema de cronógrafo de mecanismo biestável que reposiciona a peça para lá do fetiche vintage. É uma boa notícia para a TAG Heuer: quando uma marca tem ícones demasiado fortes, o risco é ficar refém deles. O Evergraph mostra vontade de mexer na máquina, não apenas na memória.
A Jaeger-LeCoultre levou a Watches and Wonders 2026 o Master Control Chronometre Perpetual Calendar, um calendário perpétuo em aço de 39 mm e 9,2 mm de espessura, com quatro contadores e bracelete integrada. A peça traduz bem uma intenção mais ampla da casa: recentrar a sua força técnica numa linguagem menos clássica, mais direta e mais preparada para o uso real.
A complicação, no melhor da Watches & Wonders 2026, deixou de ser demonstração. Passou a ser carácter.
O artesanato voltou ao centro, sem pedir licença à técnica
As artes decorativas já não vivem numa sala lateral da alta relojoaria. Em 2026, foram uma das formas mais fortes de diferenciação. Não se trata apenas de esmalte bonito, pedras raras ou gravação minuciosa. Trata-se de mostrar que a mão humana continua a ser um elemento de autoridade num sector obcecado com precisão.
A Chopard trouxe uma das propostas mais interessantes com o L.U.C Quattro Spirit 25 Straw Marquetry Edition. A marchetaria de palha no mostrador, aplicada a uma peça com hora saltante, junta delicadeza artesanal e solução mecânica pouco comum. A palha, material humilde e historicamente decorativo, ganha aqui uma dignidade nova. O relógio não precisa de pedras para brilhar. Precisa de paciência, corte, textura e luz.
A Vacheron Constantin continuou a usar os métiers d’art como uma das suas grandes línguas. Gravação, esmalte, mostradores narrativos, peças de homenagem histórica e complicações cruzadas com escultura ou pintura miniaturizada fazem parte de um território onde a marca se move sem esforço aparente. O risco, neste campo, é cair na peça de museu portátil. A Vacheron evita-o quando a decoração não serve para congelar o tempo, mas para lhe dar densidade.
A Hermès mantém uma posição particular. Não joga exatamente o mesmo jogo das marcas puramente relojoeiras, e isso é uma vantagem. A casa trabalha o objeto, a forma, a ironia, a relação com o couro, a escala, a fantasia e a inteligência visual. O Arceau, o H08, as peças com esqueletização ou com complicações mais lúdicas mostram uma Hermès que não precisa de separar técnica e espírito. A marca sabe que o tempo também pode ter sentido de humor, desde que o acabamento não conte piadas más.
Van Cleef & Arpels continua a ser talvez o exemplo mais claro de relojoaria poética levada a sério. A maison trabalha céu, joalharia, animação e artes decorativas numa zona onde a fronteira entre relógio e teatro mecânico se desfaz.
E a Chanel, com a sua capacidade de transportar códigos de moda para objetos relojoeiros, reforça uma ideia importante: o artesanato, hoje, não vive apenas na tradição. Vive também na forma como uma marca consegue transferir o seu universo para uma escala minúscula.
A mão voltou a ser argumento. Ainda bem. Num mundo em que tudo parece renderizado, polido e replicável, a imperfeição controlada tornou-se uma forma de inteligência.
A caixa recusou a obediência ao círculo
A relojoaria redonda continuará a dominar vitrinas, catálogos e pulsos. Mas 2026 confirmou uma vontade renovada de fugir à geometria previsível. Nem sempre por extravagância. Muitas vezes por identidade, memória ou simples força de desenho.
A Cartier continua a ser a casa que melhor domina esse território. A Tortue Monopoussoir Chronograph mostra como uma caixa pode ser desenho, arquivo e assinatura sem parecer exercício de estilo. A forma tartaruga não é decoração aplicada ao movimento. É o próprio argumento do relógio. O Crash, mesmo quando não ocupa o centro das novidades, permanece como fantasma tutelar desta liberdade formal: uma caixa deformada que continua a parecer uma resposta relojoeira a uma pergunta surrealista.
A Piaget trouxe outra energia a esta conversa. A maison sempre soube tratar a caixa como território de joalharia, e não apenas como invólucro técnico. A Sixtie recupera a força gráfica do trapézio, com uma leitura assumidamente ligada ao espírito livre dos anos 60. A Andy Warhol, com a sua caixa almofadada de linhas curvas e mostradores em pedras ornamentais, leva a ideia para outro lado: menos ângulo, mais presença escultórica, com aquela elegância ligeiramente excêntrica que a Piaget sabe usar sem pedir autorização.
A Audemars Piguet acrescentou uma nota inesperadamente orgânica com o Établisseurs Galets, uma das peças inaugurais do novo Atelier des Établisseurs. Inspirado nos seixos do Lac de Joux, o relógio abandona a simetria convencional em favor de um mostrador oval em pedra natural e de uma bracelete em ouro amarelo composta por elos de formas irregulares, ligados por pequenas articulações esféricas. É menos arquitetura do que paisagem. E, por isso mesmo, talvez uma das respostas mais interessantes de 2026 à pergunta sobre o que pode ser uma caixa quando deixa de obedecer ao círculo.
Também a Bulgari continua a provar que a forma pode ser linguagem de marca. O Octo Finissimo, mesmo em dimensões mais contidas, mantém uma arquitetura imediatamente reconhecível, entre octógono, círculo e construção quase mineral. A questão central, porém, é mais ampla: em 2026, a caixa voltou a ter voz própria. Deixou de ser apenas recipiente. Passou a ser uma forma de assinatura.
O que fica de Genebra
A Watches & Wonders 2026 não foi dominada por uma única tendência. Foi mais interessante por isso. O salão mostrou uma indústria a tentar responder a várias pressões ao mesmo tempo: abrandamento de alguns mercados, maior exigência dos colecionadores, excesso de oferta, peso crescente do mercado secundário, vontade de falar com novos públicos e necessidade de justificar preços cada vez menos tímidos.
A resposta das melhores marcas não passou por simplificar a conversa. Passou por aprofundá-la. A luz tornou-se linguagem. O espaço tornou-se tema técnico e poético. Os aniversários serviram para reler ícones. As complicações ganharam emoção. O artesanato voltou ao centro. As caixas desafiaram a geometria previsível. O relógio de bolso ensaiou um regresso. As proporções ficaram mais inteligentes. A cor procurou tons menos óbvios. Os materiais ganharam protagonismo.
No fundo, a relojoaria voltou a fazer aquilo que sabe fazer quando está no seu melhor: transformar objetos pequenos em mundos densos. Um relógio continua a dar horas, claro. Mas os modelos mais fortes de 2026 fizeram outra coisa. Deram assunto.






















































