Portugal fez da segurança uma das suas grandes vantagens turísticas. A sucessão de roubos de relógios, jóias e carteiras ameaça agora essa confiança e altera a relação dos clientes com os bens de luxo.
Portugal construiu uma parte importante do seu êxito turístico sobre uma ideia simples mas real: aqui é possível circular com liberdade. Essa confiança tem valor económico. Pesa na escolha do destino, favorece a hotelaria de topo, prolonga estadias e permite que um visitante saia de um restaurante, de uma boutique ou de um hotel sem pensar duas vezes no relógio que leva no pulso. A recente sucessão de assaltos a bens de elevado valor começa a introduzir uma dúvida onde antes existia uma vantagem competitiva.
O episódio ocorrido esta semana na Avenida de Berlim, em Lisboa, tornou essa tensão impossível de ignorar. Segundo as informações divulgadas, quatro homens em duas motas terão provocado um embate para obrigar a vítima a parar, ameaçaram-na com uma arma e roubaram-lhe relógios de marca Rolex e jóias, num valor estimado em cerca de 100 mil euros. A perseguição que se seguiu terminou com a morte de um dos suspeitos. As circunstâncias continuam sob investigação e a PSP não confirmou a ligação dos envolvidos ao chamado “Gangue do Rolex”. O essencial para esta análise não está na complexidade criminal ou judiciária do caso, mas no que este revela sobre a experiência de visitar e viver as cidades portuguesas.
Os sinais repetem-se nos pontos onde turismo, poder de compra e marcas internacionais se encontram. No fim de semana anterior, um relógio avaliado em 52 mil euros foi roubado na estação de Metro do Intendente e outro, de 18 mil euros, desapareceu na Avenida da Liberdade. Em julho, um hóspede regressava ao hotel onde estava instalado, na mesma avenida, quando dois homens numa scooter lhe arrancaram com violência um Rolex de 35 mil euros. Um dia antes do caso da Avenida de Berlim, na Quinta do Lago, no Algarve, dois assaltantes disfarçados de estafetas apontaram uma arma a um turista e levaram-lhe o relógio.
O problema já entrou, inclusivamente, nos espaços que deveriam transmitir maior proteção. Em junho de 2025, quatro homens assaltaram duas ourivesarias instaladas no Hotel Ritz, ameaçaram funcionários e hóspedes e fugiram com jóias e relógios avaliados em cerca de um milhão de euros. O ataque mostrou que a fronteira não se limita à rua: hotéis, acessos a garagens, esplanadas, restaurantes e zonas comerciais integram agora o mapa de risco.
O crime segue as rotas do turismo
“Gangue do Rolex” funciona como um título sonante e uma explicação imperfeita. A realidade europeia é fragmentada: células móveis, olheiros, executantes e intermediários atravessam fronteiras, escolhem cidades em função da época turística e fazem chegar rapidamente os relógios ao mercado clandestino. O método acompanha os itinerários do turismo de maior poder de compra.
Uma investigação apoiada pela Eurojust levou, em julho de 2025, à detenção em Itália de nove membros de uma rede ligada a roubos em cidades italianas, Ibiza e Saint-Tropez. Os suspeitos seguiam sobretudo vítimas mais velhas em estâncias de maior poder de compra, esperavam pelo momento em que saíam do automóvel e passavam rapidamente o relógio a cúmplices. Em maio de 2026, outra operação internacional deteve 12 pessoas em Nápoles, numa investigação a grupos que atacavam turistas em Marbella, Málaga, Barcelona, Ibiza e Palma de Maiorca. Hotéis, restaurantes, praias e zonas comerciais serviam para identificar os alvos; a abordagem surgia horas mais tarde, muitas vezes com violência e fuga em mota.
Os números de Barcelona mostram até onde chegou esta especialização. Em 2025, a cidade registou mais de mil roubos de relógios com violência ou intimidação, quase três por dia, segundo dados noticiados pelo diário ARA. As vítimas eram frequentemente turistas. Os assaltantes sabem distinguir modelos, referências, materiais e valores de revenda, um conhecimento que transforma a montra, a esplanada ou a chegada ao hotel num momento de seleção.
O mesmo conhecimento explica a predominância da Rolex. O The Watch Register, base internacional consultada por comerciantes, leiloeiras, seguradoras e colecionadores, recebeu cerca de 10 mil novos registos de relógios perdidos ou roubados em 2025, mais de um por hora. No final do ano, reunia 114 mil peças, avaliadas em cerca de 2 mil milhões de euros. A Rolex correspondia a 51% dos novos registos. Em agosto de 2026, a base já superava 125 mil relógios e 2,2 mil milhões de euros, de acordo com números fornecidos pela organização à LBC.
Esses dados não equivalem a uma estatística policial global: incluem perdas e dependem da iniciativa dos proprietários. A subnotificação, aliás, poderá ser expressiva. Um estudo do próprio The Watch Register concluiu que apenas metade das vítimas contactou a polícia. Vergonha, ausência do número de série, pouca confiança na recuperação e a pressa de regressar ao país de origem ajudam a esconder parte do problema.
O método começa muito antes do assalto. Olheiros observam clientes à saída de boutiques, hotéis, restaurantes, clubes, campos de golfe e piscinas. Uma fotografia publicada em tempo real pode revelar o modelo, a localização e a rotina do proprietário. O relógio poderá ser arrancado na rua, mas também desaparecer do quarto de hotel, da bagagem ou do automóvel. Cerca de um terço dos exemplares registados como roubados no The Watch Register terá sido levado com caixa e documentos originais, um conjunto que facilita a reentrada no mercado secundário com uma aparência de legitimidade.
O relógio é uma mercadoria particularmente conveniente para redes internacionais: pequeno, valioso, reconhecível, transportável e procurado em vários continentes. O número de série pode denunciá-lo; até lá, muda de mãos e de país sem exigir uma logística aparatosa. É precisamente essa liquidez que aproxima o problema criminal do mercado de luxo e da reputação turística.
A segurança também se vende
Portugal continua a ser um país seguro. O Índice Global da Paz de 2026 coloca-o em sétimo lugar entre 163 países. O Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2025 registou uma descida de 1,6% na criminalidade violenta e grave, embora a criminalidade geral tenha aumentado 3,1%. Os dados provisórios da PSP para 2026 mantêm essa aparente contradição: na área metropolitana de Lisboa, a criminalidade geral subiu 2,9% e a violenta e grave desceu 0,4%; no Porto, as variações foram, respetivamente, de mais 10,9% e menos 8,4%.
Uma sequência de roubos mediáticos não transforma Lisboa ou o Porto em cidades fora de controlo. Ignorá-la, porém, seria um erro semelhante. O turismo vive tanto da realidade como da perceção, e a segunda propaga-se com uma velocidade que nenhum relatório anual acompanha. Basta um vídeo, uma fotografia ou o relato de um viajante seguido desde o hotel para deslocar uma cidade, em poucas horas, da lista dos lugares despreocupados para a dos destinos onde se recomenda deixar o melhor relógio em casa.
A segurança não é um argumento lateral na escolha de Portugal. É o fator mais referido pelos viajantes internacionais quando selecionam um destino no Sul da Europa, com 16% das respostas na terceira vaga do Estudo de Análise de Sentimento dos Visitantes a Portugal, divulgado pelo Turismo de Portugal em junho. Já em janeiro de 2025, a Entidade Regional de Turismo de Lisboa alertava para uma alteração na perceção dos turistas, sobretudo nas zonas centrais, e pedia maior visibilidade policial. O organismo referia relatos de assaltos junto a hotéis e comentários menos positivos sobre a Baixa nas redes sociais.
Os avisos oficiais enviados por outros países aos seus cidadãos também influenciam a reputação de um destino. Os Estados Unidos mantêm Portugal no nível 1, recomendando precauções normais. O Governo canadiano faz o mesmo, mas alerta para carteiristas e roubo de carteiras em Lisboa e no Porto, identifica átrios de hotéis, restaurantes e zonas turísticas entre os locais sensíveis e aconselha a não exibir sinais de riqueza nem usar jóias caras. Para um destino que procura captar visitantes de elevado poder de compra e desenvolver uma oferta premium, a contradição é evidente: valorizamos esse viajante, mas aconselhamo-lo a deixar os objetos mais valiosos fora de vista.
O efeito económico direto ainda não está medido em Portugal. Nenhum dado público permite afirmar, com seriedade, que os roubos de relógios estejam já a reduzir reservas hoteleiras ou vendas de marcas de topo. O risco reputacional e a mudança de comportamento são, contudo, observáveis noutros mercados. Segundo uma pesquisa do The Watch Register, cerca de metade dos proprietários britânicos de relógios de alto valor sente nervosismo ou relutância em usá-los em público. Em Londres, dados policiais relativos a 2023 mostraram também um aumento de 13% no roubo de carteiras de marcas como Louis Vuitton, Chanel e Gucci, enquanto quase 1.800 Rolex foram dados como roubados.
O visitante de elevado poder de compra não produz valor apenas na reserva do quarto. Alimenta a restauração, o comércio, a cultura, os transportes privados e uma extensa rede de serviços. Se passa a evitar determinadas zonas, a reduzir saídas à noite ou a viajar sem os objetos que fazem parte do seu estilo de vida, a perda distribui-se por todo esse ecossistema. É difícil medi-la no imediato, mas muito fácil vê-la instalar-se nos comportamentos.
Quando um cliente deixa o relógio, a jóia ou a carteira no cofre, a perda para a marca não corresponde necessariamente a uma venda anulada. O dano é menos imediato e talvez mais profundo: o objeto deixa de cumprir a função emocional e social para a qual foi comprado. Fica reservado a ocasiões e deslocações muito controladas, sob uma vigilância que retira espontaneidade à experiência. O proprietário mantém a peça, mas perde a liberdade de a usar. A médio prazo, poderá preferir modelos menos reconhecíveis, adiar uma compra ou questionar o sentido de investir num objeto que receia levar para a rua.
A hotelaria também herda o problema. Equipas de segurança com formação adequada, videovigilância, discrição no tratamento de hóspedes, controlo de acessos, transporte e articulação rápida com as autoridades passam a integrar a hospitalidade de topo. Concierges e equipas de front office precisam de saber aconselhar sem alarmar e reagir sem expor ainda mais o hóspede. Nenhuma destas medidas deve transformar um hotel num bunker nem substituir policiamento visível no espaço público. O verdadeiro valor de um destino seguro mede-se precisamente no momento em que o cliente sai pela porta e continua a sentir-se protegido.
Londres demonstra que o fenómeno pode recuar. Operações com agentes à paisana, patrulhamento dirigido por informação e cooperação com estabelecimentos reduziram de 213 para 97 os roubos de relógios reportados no primeiro semestre de 2026 nos três bairros mais afetados da capital britânica. A resposta não passa, portanto, por aceitar que determinados objetos deixaram de poder ser usados, mas por tornar a cidade mais difícil para quem vive de os roubar.
Quando o original fica no cofre
O medo criou entretanto um dos paradoxos mais inquietantes do mercado: proprietários de relógios autênticos guardam-nos no cofre e compram uma cópia para usar na rua. As contrafações de maior qualidade, frequentemente apresentadas como “réplicas de alta gama”, são vendidas por centenas ou milhares de euros e reproduzem caixas, mostradores, braceletes e até movimentos com precisão suficiente para enganar num primeiro olhar. Uma investigação da WIRED publicada em agosto encontrou comunidades que apresentam a cópia como um substituto descartável ou uma espécie de apólice informal para quem vive em cidades como Londres ou Milão.
A lógica parece prática e falha no ponto mais importante. Um assaltante não faz uma autenticação completa antes de atacar. Se a cópia convence à distância, continua a fazer de quem a usa um alvo e poderá desencadear violência real por um objeto falso. A polícia britânica já desaconselhou publicamente esta solução. Trocar a perda financeira pelo mesmo risco físico não é uma estratégia de segurança; é apenas uma forma mais barata de entregar o relógio.
O impacto nas marcas está longe de ser inofensivo. A OCDE e o Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia estimaram em cerca de 400 mil milhões de euros o comércio mundial de contrafação em 2021, equivalente a 2,3% das importações globais e a 4,7% das importações da União Europeia. Outro relatório da OCDE, dedicado à economia suíça, calculou em cerca de 4 mil milhões de euros o comércio de produtos falsificados que violavam marcas suíças; relógios e jóias representavam aproximadamente 2,2 mil milhões de euros, e a perda estimada de vendas para as indústrias afetadas atingia 2,6 mil milhões de euros.
O crime produz assim um círculo particularmente perverso. O roubo torna o original difícil de usar; o medo alimenta a procura da cópia; a cópia prejudica a marca, baralha o mercado de usados e pode, ainda assim, atrair o ladrão. Pelo caminho, aumenta o custo dos seguros, obriga comerciantes e leiloeiras a reforçar a verificação e transforma o número de série numa parte tão importante da propriedade como a própria peça.
As maisons começaram a responder. A Richemont criou a Enquirus, plataforma global aberta a todas as marcas que permite registar relógios e jóias, comunicar perdas e verificar peças antes de uma compra em segunda mão. A Audemars Piguet oferece, para relógios elegíveis, dois anos de cobertura contra roubo com violência e furto em residência. Bases de dados, passaportes digitais, seguros e cooperação com a polícia reduzem o valor comercial do produto roubado e aumentam a possibilidade de recuperação. Para as marcas, proteger a peça depois da venda tornou-se parte da relação com o cliente.
Uma patente da Rolex publicada nos Estados Unidos a 13 de agosto de 2026 revela outra frente. O documento US20260236551, que corresponde a um pedido de patente e não ao anúncio de um serviço já disponível, descreve uma identidade digital associada a cada relógio. O número de série ficaria ligado a uma base de dados e a um suporte físico, possivelmente um cartão com tecnologia NFC, permitindo consultar informação sobre a peça e confirmar a autenticidade do cartão. O sistema separa os dados do relógio dos dados pessoais do proprietário e não inclui GPS, localização em tempo real nem uma função específica para declarar um roubo.
O interesse está no que essa infraestrutura poderá vir a permitir. Se a Rolex acrescentar um alerta de perda ou roubo, uma peça desaparecida em Lisboa poderá ser identificada quando reaparecer numa relojoaria, num centro de assistência ou numa transação em Madrid, Londres ou Dubai. A tecnologia não impede a violência nem recupera automaticamente o relógio, mas pode dificultar a sua reentrada no circuito legítimo e reduzir o valor de revenda. É uma forma de atingir o ponto mais sensível deste negócio: a facilidade com que um objeto roubado volta a parecer vendável.
O caso da Avenida de Berlim expôs uma pergunta que ultrapassa largamente o processo criminal: de que serve possuir um objeto concebido para atravessar gerações se já não existe liberdade para atravessar a cidade com ele? Para o turismo, a mesma inquietação assume outra forma. De que vale promover Portugal como destino de excelência se o visitante sente que deve esconder os sinais do seu próprio estilo de vida?
Lisboa e o Porto ainda estão longe de perder a sua condição de destinos seguros. Essa condição, no entanto, não é um título vitalício. Protegê-la exige investigação internacional, presença policial nos pontos certos, partilha de informação com hotéis e retalhistas, registo rigoroso das peças e uma comunicação que informe sem transformar o medo em campanha publicitária para os criminosos. O verdadeiro sinal de sucesso não será ver mais relógios fechados em cofres. Será voltar a vê-los na rua, sem que o pulso que os usa venha acompanhado da sensação de estar marcado.











